terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ele dormiu com Joey Ramone


O livro nem é tão novo assim. Foi publicado pela primeira vez em 2009 nos Estados Unidos. Mas esperei um bom tempo achando que a obra seria lançada no Brasil, mas nada. Vai ver as editoras estavam e estão ocupadas demais lançando biografias interessantes de subcelebridades como Jeisi Arruda, enquanto essa ótima história sobre a vida do cantor dos Ramones aguarda na fila até que algum editor se dê conta que está perdendo dinheiro.

Como isso não aconteceu até agora, o jeito foi importar um exemplar de “I Slept with Joey Ramone: a family memoir” (Eu Dormi com Joey Ramone: uma memória de família). Ao contrário do que possa parecer pelo título, não se trata de um livro escrito por alguma groupie ou ex-namorada do cantor, mas sim pelo irmão de Joey, Mickey Leigh, que contou com a ajuda do jornalista Legs McNeil, autor da bíblia punk “Mate-Me Por Favor”, para produzir as 400 páginas dessa biografia, lançada pela Editora Touchstone.

Joey Ramone é o nome artístico de Jeffrey Hyman (ou simplesmente Jeff, para os familiares), que se tornou mundialmente famoso cantando na pioneira banda punk estadunidense Ramones, de 1974 a 1996. Joey Ramone morreu em 2001, aos 49 anos, vítima de câncer linfático contra o qual lutou durante sete anos.

Mickey Leigh, irmão caçula de Joey, se propôs em “I Slept...” a abrir o álbum de recordações da família Hyman para os fãs dos Ramones ao redor do mundo. Mas, não se engane. Não se trata de uma ovação em tempo integral ao irmão famoso. Pelo contrário, Mickey se esforça para traçar um perfil bastante sincero de Jeff Hyman e não do astro Joey Ramone. E isso permite que você descubra que o vocalista dos Ramones podia ser em um momento a pessoa mais generosa do mundo e, em outro, um filho da mãe completo. E quem melhor do que o irmão caçula para revelar isso?

Tendo dormido com Joey no mesmo quarto durante 20, Mickey discorre fácil sobre a infância e adolescência dos dois. As angústias com a separação dos pais, a morte do primeiro padrasto, as brincadeiras na vizinhança pacata de Forest Hills, em Nova York, a paixão pelo rock and roll que ambos cultivaram desde que ouviram no rádio a música La Bamba, de Richie Vallens , ainda na década de 50. E claro, também o perrengue pelo qual sempre passou a família Hyman, que se tornou ainda pior quando Joey, que desde bebê sempre teve saúde frágil, passou a manifestar sintomas do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), uma doença psicológica que o acompanhou por toda a vida, o qual faz a pessoa repetir infinitas vezes uma mesma ação sem uma explicação lógica para isso.

Devido ao TOC, aos 20 anos de vida Joey já era dado como um inválido, recebendo pensão do governo por ser incapaz de desenvolver qualquer trabalho que lhe garantisse o sustento. E seria assim até o fim da vida dele se o rock and roll não existisse. Por incrível que pareça, Joey e outros três desajustados novaiorquinos chamados Johnny, Dee Dee e Tommy formaram os Ramones, que se tornou uma das bandas mais importantes da história do rock. E Mickei Leigh, ele próprio um músico (sem sucesso), acompanhou de perto a ascensão do irmão “inválido” até se tornar um astro da música.

No livro, Mickey Leigh descreve como os dois tomaram rumos diferentes em suas vidas. Se alguém na família tinha alguma chance de se tornar um astro no mundo da música, esse alguém era o irmão mais novo: menos feio, melhor musicista, sem transtornos de qualquer tipo. Mas foi o irmão esquisito quem se deu bem. Apesar disso, Mickey e Joey se deram bem por um longo tempo, pelo menos até a década de 90, quando as brigas normais entre irmãos foram um pouco além do razoável.

No início dos anos 90, Mickey estava completamente ferrado financeiramente. Sua carreira como músico nunca decolou. Pobre, vendia maconha para os amigos para poder sobreviver e, inclusive, acabou preso por isso. Quando os Ramones fecharam um bom contrato com a cerveja Budweiser para usar a música “Blitzkrieg Bop” em uma propaganda de televisão, Mickey viu a oportunidade de ganhar algum dinheiro, o qual ele entendia ter algum direito, já que colaborou na gravação da música em 1976, embora nunca tenha recebido créditos e nenhum centavo por isso.

A investida de Mickey, além de não garantir um só dólar, criou um abismo enorme entre ele e Joey Ramone, que se estendeu durante todos os anos 90, intercalado apenas por reaproximações breves que sempre acabavam em novos e piores desentendimentos. Na biografia, em certos momentos se tem a impressão de que Mickey deixa transparecer um certo rancor ou inveja pelo sucesso irmão mais velho. Mas o autor tenta apagar essa impressão justificando que nunca quis ser um Ramone, mas que, claro, sonhava em ter uma banda de sucesso como The Who ou os Beatles, que sempre inspiraram os dois na adolescência quando ainda tocavam juntos no porão de casa.

Porém, o agravamento do câncer aproximou os irmãos meses antes da morte de Joey. Por um capricho do destino, Mickey estava junto dividindo o palco com o irmão em uma espelunca de Nova York em dezembro de 2000, naquela que acabou sendo a última apresentação do cantor dos Ramones, que na época se preparava para lançar o seu disco solo. Dias depois, após escorregar numa calçada e quebrar a bacia, Joey foi internado e começou a perder a sua batalha contra o câncer.

E não deve ter sido fácil para Mickey transpor para o livro toda aquela situação dramática de estar vendo o irmão se esvaindo aos poucos, até dar o último suspiro, segundos após ouvir a canção “In a Little While”, do U2, no início da manhã da segunda-feira de 15 de abril de 2001. “Ele se foi com a canção, eu pensei, para aquele lugar aonde as canções vão depois que elas são tocadas – onde quer que isso seja”, escreveu Mickey, evidentemente emocionado.

“I Slept With Joey Ramone” é um prato cheio para os fãs dos Ramones e amantes do rock em geral. Embora pipoquem em todos os cantos livros e documentários sobre a banda, é a primeira vez que a intimidade de Joey Ramone é tão exposta. Talvez Joey, sempre discreto com sua vida pessoal, não aprovasse o livro. Pelo menos, não da forma e com certos detalhes nele revelados (quem diria que Joey Ramone tivesse brigas de horas com sua mãe para poder usar a maquiagem e as roupas dela no auge do glam rock no início dos anos 70?).

Mas, acredito nas boas intenções de Mickey, que fora a bobagem de fazer alguns shows por aí hoje em dia cantando músicas dos Ramones em “tributo” ao irmão, convence os leitores que fez este livro com o coração.

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VEJA VÍDEO COM MICKEY LEIGH E LEGS McNEIL FALANDO SOBRE "I SLEPT WITH JOEY RAMONE"

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Meia Noite em Paris: uma lição sobre onde está a felicidade


Quem disse que Woddy Allen fez de “Meia-Noite em Paris” um dos melhores filmes de sua carreira, não estava errado. O filme foi lançado no comecinho do ano, mas para nós que moramos longe demais das capitais,na maioria das vezes o negócio é ter que aguardar e torcer para que o DVD chegue às locadoras. E “Meia Noite em Paris” valeu à pena esperar.

Temos que concordar que todo filme de Woody Allen é bem mais legal quando ele, além de dirigir, também atua, o que não é o caso aqui. Desta vez é o ator Owen Wilson, conhecido pelas comédias pastelão, que surpreende (esforçando-se para imitar os trejeitos de interpretação de Allen) no papel do protagonista. Ele interpreta Gil, um bem pago roteirista de cinema de Hollywood, mas que está frustrado pela futilidade de seu trabalho. O sonho de Gil é se tornar um escritor de livros respeitado.

Gil está em viagem a Paris com sua noiva Inês (Rachel McAdam) e os pais dela, que desaprovam o noivado. Inês é do tipo bonita e rica, mas ordinária, que mantém um interesse meramente catedrático por artes em geral. Muito diferente de Gil, que tem um espírito de artista, se assim posso dizer.

Enfim, para não entregar toda a história toda, digo apenas que de que forma surreal Gil embarca em uma inexplicável viagem no tempo e acaba, durante várias noites, conhecendo toda a famosa geração de artistas de 1920, que, conforme Hemingway registrou em famoso livro, fez de Paris uma festa.

Além do escritor autor de “O Velho e o Mar”, Gil conhece Scott Fitzgerald, T.S. Elliot, Picasso, Luis Buñuel, Gertrude Stein, Cole Porter, Salvador Dali, entre tantos outros. Para Gil, encontrar essas pessoas era a realização de um sonho! Afinal, era lá em Paris e naquela década que alguns dos artistas mais famosos do século XX estavam começando a entrar para a história.


Em “Meia-Noite em Paris”, Woody Allen trata de um tema que deve ser recorrente na vida de cada um de nós todos: a disposição nostálgica de imaginar que outros tempos sempre foram melhores do que agora, mesmo época que a gente nunca viveu e tomou conhecimento somente através dos livros,fotos, do cinema ou da TV.

Vivendo no século XXI, a década de 1920 era uma época dourada para Gil. Contudo, a ironia do filme está justamente quando os personagens dos artistas do início do século XX desdenham da própria época. Para eles o bom mesmo seria ter ser vivido na Paris da na segunda metade do século XIX, período conhecido como a Belle Époque. Para o essa turma da bela época, o melhor teria ser vivida em outro tempo mais antigo e assim sucessivamente...http://www.blogger.com/img/blank.gif

O insight de “Meia-Noite em Paris” é uma lição: a vida é sempre insatisfatória, independente de onde quando se viva. Então relaxe e esqueça esse negócio de pensar que “naquele tempo é que as coisas eram boas”. A felicidade está aqui e agora, basta desejá-la. O filme é otimismo puro, algo surpreendente na filmografia de Woody Allen, em que a ironia e o pessimismo geralmente dão o tom.

Um grande filme, sem sombra de dúvidas. E não se preocupe se você tem maior, menor ou nenhuma intimidade com os personagens de “Meia-Noite em Paris”. É claro um conhecimento mínimo que seja torna tudo mais legal, mas não é fundamental. Bacana mesmo é perceber para a centelha de genialidade espírito-filosófica contida nessa obra-prima de Woody Allen.

VEJA O TRAILER

terça-feira, 29 de novembro de 2011

As barbas do imperador


Semanas atrás, comentei aqui no Blog do Viteck a respeito do acervo da Biblioteca Cidadã Alice Weirich, no bairro São Lucas, aqui em Marechal Cândido Rondon. Inaugurado este ano, o espaço possui ainda um acervo modesto, mas com títulos muito interessantes nas mais diversas áreas.

E um dos “tesouros” da biblioteca é o livro “As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos”, da antropóloga Lilia Moritz Schwarcz. Já havia lido recentemente outro livro dela, chamado “O Sol do Brasil”, no qual ela escreveu – em um texto intenso e denso – sobre a Missão Francesa, grupo de pintores que desembarcou no Brasil no início do século XIX e que retratou a vida na corte e a natureza exótica do nosso país sob a perspectiva do olhar europeu.

Em “As Barbas do Imperador”, publicado em 2008 (Editora Companhia das Letras, 624 páginas), Schwarcz escreve uma biografia do segundo e último rei do Brasil. Tema por demais esmiuçado já em tantos livros escritos sobre D. Pedro II em mais de um século, o interesse da autora nessa biografia é contar a vida do imperador, principalmente, através do imaginário monárquico da época, “percebido justamente por meio da análise de rituais, costumes e tradição”, relata Schwarcz.

E é a própria autora que instiga o interesse do leitor a respeito da vida de D. Pedro II que “de órfão da nação se transforma em rei majéstico; de imperador tropical e mecenas do movimento romântico vira rei cidadão, para finalmente imortalizar-se no mártir exilado e em um mito depois da morte, com vistas não a recuperar tanto a sua história, mas antes sua memória, ou melhor, a seleção de determinadas memórias nacionais”.

D. Pedro II reinou no Brasil de 1840 a 1859. Órfão de mãe, o pequeno Pedro – com apenas cinco anos - foi deixado no Brasil pelo pai D. Pedro I, que voltou a Portugal nove anos depois de ter proclamado a independência do Brasil. Aos 15 anos, naquele que ficou conhecido como golpe da maioridade, D. Pedro II assumiu o trono em um período turbulento, em que esforços contínuos eram necessários para evitar a desfragmentação territorial diante de conflitos como a Revolução Farroupilha.

O Brasil, na época, era uma monarquia rodeada por repúblicas latinas, recém emancipadas da Espanha. Aliás, o Brasil foi o único país das Américas que se transformou em monarquia após a independência. Então a monarquia já sendo associada a uma instituição ultrapassada, ao longo de sua vida D. Pedro II se esforçou para vender ao mundo a imagem de um Brasil moderno, ao mesmo tempo que enaltecia aspectos de um império exótico. Exemplo disso foi o enaltecimento da figura do índio como símbolo do Brasil, assim como o café é o fumo, produtos de exportação do país.

O imperador também incentivou a pesquisa histórica, a educação e as artes, com a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a Academia Imperial de Belas-Artes e o Colégio Pedro II. D. Pedro II sempre se esforçou por associar a sua imagem a de um homem culto e estudioso, o que o levou a arroubos de imodéstia, como quando afirmou que a “ciência sou eu”. Mas, em um reino formado em sua grande maioria por analfabetos, a erudição de D. Pedro II era algo bastante singular, ainda mais se comparado ao pai, que entrou para a história como alguém mais interessado nas batalhas e nas mulheres do que nos livros.

Em “As Barbas do Imperador”, Schwarcz descreve ainda como era ser nobre no Brasil, as festas populares, relata a quase obsessão de D. Pedro II em derrubar do poder Solano Lopez durante a truculenta Guerra do Paraguai (1864-1870). A autora também destaca as três viagens que o imperador realizou ao redor do mundo, onde conheceu os Estados Unidos, a Europa e o Egito, entre outras regiões do globo.

E, como não poderia deixar de lado, a autoria vai a fundo na questão da escravidão, que era praticamente o modo de trabalho responsável pela produção das riquezas do Brasil, mas ao mesmo tempo era motivo de repulsa ao país em nações mais avançadas, que combatiam a escravidão. Curioso notar que, embora se colocasse como um homem moderno, D. Pedro II pouco fez de fato para acabar com o regime escravagista. Quem o fez foi a sua filha, princesa Isabel, que em 1888 assinou a Lei Áurea.

A alforria concedida sem qualquer direito de indenização aos donos de escravos foi o catalisador do golpe que derrubou a monarquia e implantou a república no país, em 1889. É bem verdade que os debates entre republicanos e monarquias já se estendia há décadas. Mas, com o avançar da idade de D. Pedro II, havia uma espécie de acordo ou sentimento de que a república seria implantada tão logo ocorresse a morte do monarca. Mas isso mudou, com a Lei Áurea.

Proclamada a república em 15 de novembro de 1889, dois dias depois o Imperador e sua família eram banidos do Brasil. Dois anos mais tarde, o imperador morreria em Paris, onde viveu uma vida modesta sustentado por doações de amigos e tendo como únicos bens uma edição original de um livro de Camões e um travesseiro cheio de terra do Brasil. Situação que ao longo dos anos só aumentou o mito do imperador, que logo após ser deposto recusou uma indenização proposta pelo novo governo republicano, no valor de 5 mil contos de réis, o equivalente hoje a cerca de R$ 2 bilhões.

Aliás, é na guerra entre monarquistas e republicanos que o livro de Schwarcz mostra-se mais intenso. Na guerra pública através das revistas da época, republicanos caricaturavam D. Pedro II como um senhor velho, com a sua longa barba branca, que só lhe aumentava a aparência de velho. Daí a associar a figura do imperador com o modelo antiquado da monarquia foi um simples passo dado pelos republicanos.

Interessantíssima é a reabilitação histórica do imperador no início do século XX, que tem como melhor exemplo Rui Barbosa, autor da lei que bania o imperador do Brasil e que, anos depois era um ferrenho defensor de que os restos, mortais de D. Pedro II, hoje enterrados em Petrópolis (RJ), fossem repatriados, diante da importância que o imperador teve para a história do país.

Ler “As Barbas do Imperador” é percorrer um período em que não só o Brasil, mas o mundo ocidental como um todo estava passando por um rápido processo de transformação. E é interessante perceber como a personalidade máxima do país se comportava em meio a essas mudanças. De certo, um homem de mil faces que jamais foi unanimidade, seja durante o reinado ou após a morte. E é esse homem, “despido” de sua coroa e dos demais símbolos da monarquia que Schwarcz nos revela nesse livro tão instigante.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Histórias Íntimas: 500 anos de sexo


Em seu mais novo livro - “Histórias Íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil” (Editora Planeta, 2011, 254 p.) -, a renomada historiadora Mary Del Priore se dispõe a tratar de um assunto que interessa a todos: sexo. Aqui, os leitores são convidados e espiar pelo buraco da fechadura e conhecer como o sexo vem sendo pensado, reprimido, desvencilhado de tabus e praticado ao longo dos cinco séculos de história do nosso país. Desde as primeiras relações entre indígenas, escravos trazidos da África e portugueses colonizadores, passando pelas medidas higienistas associadas ao sexo no século XIX até questões atuais que abundam na mídia no que diz respeito ao sexo e à sexualidade, este livro se dispõe a mostrar que a teoria e a prática do que acontece entre quatro paredes (ou fora delas), vêm mudando no tempo e no espaço.

Quem diria que na época do Brasil colônia um belo par de seios fosse uma das coisas menos eróticas do corpo de uma mulher. Ou que a gordura fosse símbolo de beleza. Ou que um púbis extremamente cabeludo (enquanto que hoje quanto menos pelos, melhor) era o que poderia existir de mais sensual. Partes íntimas limpas e bem cheirosas? Isso era coisa pra broxar qualquer um no século XVII, como esclarece um poema do poeta baiano Gregório de Matos, que em meio a obscenidades aqui impublicáveis escreveu que “lavar a carne é desgraça” porque “perde a carne o sal, a graça”.

Vencidas as preliminares do período colonial, “Histórias Íntimas” desnuda os anos de 1800, um século que a historiadora definiu como hipócrita. Hipócrita porque, ao mesmo tempo em que a sociedade pregava a castidade e depois o recato no casamento, o adultério era prática comum especialmente, é claro, pelas escapadas masculinas até o bordel da esquina. Que o diga D. Pedro I, o homem que bradou “Independência ou Morte” e tornou-se nosso primeiro imperador. Além do grito da independência, o Foguinho (como era chamado pela sua amante Domitila, a Marquesa de Santos) ficou famoso também pelos seus casos fora do casamento. Para D. Pedro e demais homens do Império, manter relações em casa, com a esposa, só uma rapidinha e olha lá. E isso desde que seguindo determinadas posições permitidas pela igreja. Sexo gostoso não era coisa que se fazia com a mãe dos seus filhos. Para isso existiam as prostitutas. Esposa sentindo (ou mostrando) prazer em uma relação, nem pensar! Isso não era coisa de mulher direita.

Mas, eis que com a chegada do século XX as coisas começam a mudar. O cinema, as revistas, a indústria da moda, a propaganda, etc. , começam a transformar cada vez mais rapidamente os conceitos e a prática do sexo. Exemplo disso, um escândalo: no Rio de Janeiro começa a circular a primeira revista erótica, a “O Rio Nu”, inspirada em publicações francesas e que trazia ilustrações e histórias cheias de sacanagens.

O incentivo cada vez mais crescente às atividades físicas no início dos anos 1900 também vai alterar a percepção do que é um corpo bonito e sexualmente atrativo. Sai de cena a gordura para ganharem destaque cada vez maior os corpos sarados para serem exibidos em roupas mais ousadas. Se antes o corpo devia se escondido. Aos poucos as roupas começam a encurtar. Nas praias e piscinas de clubes, é o caso dos biquínis, que foram ficando cada mais pequenos que até cabiam na palma da mão. O conservador Nelson Rodrigues não deixou barato. Em “Histórias Íntimas”, Priore reproduz trecho de entrevista do dramaturgo em 1969 para a revista Veja. Nela, Rodrigues revela toda a sua perplexidade ao ver tantos corpos femininos quase nus sem com isso despertar maiores interesses masculinos. “A mulher mais invisível do mundo é a mulher de biquíni”, disparou. Para Priore, Rodrigues “não entendia o que via. Não se tratava de moda, mas da evolução da moral moderna”.

Moral moderna que avançou numa velocidade jamais vista depois dos anos de 1950 com a revolução sexual impulsionada pela invenção da pílula anticoncepcional. Depois da pílula, caíam por terra tabus como virgindade e sexo antes do casamento. Com seus ecos vindos da Europa e dos Estados Unidos, o feminismo e a contracultura contribuíam de vez para espalhar a revolução sexual. Os dogmas do sexo como pecado começaram a ser abertamente questionados e abandonados pela sociedade nos anos 1960 e 1970. Na contramão desse liberalismo, chegou a Aids nos anos 1980. Gerou (ainda gera!) preocupação, mas a doença não foi capaz de impedir que as pessoas hoje vivam o sexo em sua plenitude.

“Histórias Íntimas” mostra claramente que o sexo chega ao século XXI mais sem-vergonha e apelativo do que nunca. Porém, nem tudo são prazeres. Por mais que nos sintamos desencanados sobre o assunto, o sexo ainda é cercado por temas espinhosos e que abalam a sociedade, tais como homossexualidade, impotência, a violência contra a mulher, a pedofilia, a erotização dos meios de comunicação e a desestruturação familiar, já que cada vez mais o casamento é eterno enquanto dura. Sinais evidentes que em se tratando de sexo, muita água ainda haverá de passar por debaixo da ponte e que nem os próximos 500 anos deverão dar o assunto por encerrado.

Mary Del Priore faz de “Histórias Íntimas” um livro excitante, que mexe com a nossa imaginação, mas longe de apelar para a vulgaridade. Embora prazeroso, o assunto é sério. Com sua escrita simples, o livro acaba com qualquer frigidez e se abre para ser possuído tanto pelo especialista como pelo mais lascivo sujeito interessado em matar a curiosidade sobre o tema. Consumada a leitura, fica uma certeza só: cinco séculos depois das caravelas portugueses terem aportado no que ficou conhecido como Brasil, hoje estamos muito mais à vontade para gozar a vida, em todos os sentidos...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Salinger: uma vida


Escrever a biografia de um escritor avesso à publicidade e entrevistas, extremamente zeloso em restringir o acesso ao público sobre o que se passava em sua vida particular e, ainda mais, que ficou praticamente recluso em sua casa em uma pequena cidade por mais da metade de sua vida. Uma tarefa difícil, mas não impossível, e foi esta a que se dedicou o estadunidense Kenneth Slawenski, que em 2004 criou o projeto DeadCaulfields.com, um site totalmente dedicado à vida do escritor J. D. Salinger. Após sete anos de intensa pesquisa, Slawenski finalizou “Salinger: uma vida”, biografia publicada originalmente em 2010, logo após a morte do autor do clássico “O Apanhador no Campo de Centeio”, ocorrida em 27 de janeiro do ano passado. No Brasil, a obra acaba de ser lançada pela editora Leya, com tradução de Luis Reyes Gil.

Jerome David Salinger é um dos maiores escritores do século XX. Nascido em Nova York em 1º de janeiro de 1919, tornou-se famoso em 1951 com a publicação de “O Apanhador no Campo e Centeio”, uma novela sobre Holden Caulfield, um adolescente expulso da escola que perambula por Nova York. Sucesso imediato quando lançado, considera-se hoje que o livro teve uma grande influência no fenômemo da adolescência rebelde da sociedade norte-americana da década de 1950, ao lado da geração beat (que Salinger criticava!), do surgimento do rock and roll e de filmes como “O Selvagem” e “Juventude Transviada”, estrelado por Marlon Brando e James Dean, respectivamente.

Antes mesmo do enorme sucesso de seu primeiro livro, Salinger era considerado um escritor promissor, tanto é que já era tratado de modo diferenciado pela famosa revista literária The New Yorker. Mas, antes de chegar até as páginas da famosa publicação, muitos contos do escritor foram editados em revistas de menor importância dos Estados Unidos. O segundo livro de Salinger é “Nove Histórias”, uma coletânea de contos publicada em 1953. Além deste e de “O Apanhador no Campo de Centeio”, Salinger publicou apenas outros dois livros: “Franny e Zoey” (1961) e “Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira & Seymor: uma introdução” (1963), que traziam textos anteriormente publicados em forma de contos pela The New Yorker, todos abordando os personagens da incomum família Glass.

O último texto publicado por Salinger foi “Hapworth 16, 1924”, que saiu também nas páginas da New Yorker em 1965. O conto, mais um sobre a família Glass, foi duramente criticado. Desde então, Salinger, com apenas 46 anos, desistiu de publicar e cada vez mais se esforçou para viver uma vida em total anonimato na sua casa na pequena cidade de Cornish, localizada a cerca de 380 quilômetros de Nova York, para onde se mudara em 1952. Avesso à mídia, recebendo em sua casa poucos amigos, o que Salinger fez até o fim de sua vida foi uma grande incógnita, fato que somente alimentou o mito em torno do escritor.

Na biografia que escreveu, Slawenski se esmera em revelar os motivos que levaram Salinger a se afastar cada vez mais do convívio público. Engana-se, por exemplo, quem pensa que o “fracasso” do último conto do escritor tenha tido maior peso na decisão dele de deixar de publicar. Ao longo do livro, Slawenski resgata, além da trajetória profissional de Salinger - um dedicado autor que exercia controle total sobre sua obra, desde a edição de uma simples vírgula até a capa de seus livros -, também a vida familiar e, principalmente, a jornada espiritual do escritor.

Instigante nesse sentido, por exemplo, é o capítulo em que Slawenski aborda a experiência de Salinger como combatente da Segunda Guerra Mundial, onde participou da famosa batalha do Dia D (06 de junho de 1944, na França) e os longos meses de combate que se seguiram até o fim do conflito, em 1945. Como não podia deixar de ser, os horrores da guerra, a morte violenta de amigos em campos de batalha, e a depressão que acometeu incontáveis soldados anos depois também afetaram profundamente a vida do escritor.

Desde seus primeiros textos, Salinger já trazia fortes traços de uma religiosidade, que do mundo real se transportava para a sua escrita e se manifestava em epifanias redentoras nas vidas de seus personagens. Conforme Slawenski, Salinger entendia cada vez mais que escrever era uma forma de oração. “Depois de O Apanhador no Campo de Centeio, o foco da ambição de Salinger mudou e ele se dedicou a produzir ficção incrustada de religião, em histórias que expunham o vazio espiritual inerente à sociedade americana”, afirma o biógrafo. Como reação ao seu desenvolvimento espiritual, Salinger acreditou ser necessário se afastar da badalação natural do estrelato, o que ele acreditava ser nocivo à sua meditação e trabalho como escritor.

Assim, quanto mais crescia a fama de Salinger, mais retirado ele ficava. Para Slawenski, “Salinger não escolheu deliberadamente se afastar do mundo. Seu isolamento foi uma progressão insidiosa que o envolveu aos poucos. Ele identificou as sombras descendo sobre ele, mas infelizmente se sentiu impotente para mudar o curso. Seu trabalho se tornara uma obrigação sagrada, e ele aceitou que aquela solidão e reclusão fossem o preço que ela exigia para ser cumprida”.

Desde quando deixou de publicar em 1965, sempre se especulou se, ao menos, ele continuou escrevendo, o que é praticamente certo. Quando da morte de Salinger, houve um frisson sobre onde estariam estes prováveis textos inéditos. Até hoje, ninguém os encontrou. Sobre isso, conforme relatado na biografia, existem as teorias mais diversas. Uma delas é que Salinger tenha enterrado seus textos em diversos pontos de sua propriedade em Cornish. Isso só reforça o sentimento de que dificilmente textos inéditos do escritor algum dia se tornem conhecidos. Salinger poderia ter publicado um novo livro quando quisesse. Ofertas não faltaram. Ele recusou todas. Junto a isso, pediu aos seus amigos que destruíssem todas as cartas por ele enviadas ao longo dos anos, em nome de sua privacidade, apagando material riquíssimo para biógrafos do autor, como Slawenski.

Mesmo diante de todos os esforços do escritor para tornar sua vida privada a mais desconhecida possível, em “Salinger: uma biografia” Slawenski produziu uma biografia de fôlego, intensa e contagiante. Certamente o biografado desaprovaria a publicação, desgostoso em ter sua vida tão exposta. Ciente disso, o biógrafo justifica humildemente a obra dizendo que ela é honesta e de coração: “Não é um pranto pelo morto. É um convite para uma saudação. Uma saudação não à memória, mas a essência de J. D. Salinger, e eu a ofereço aqui de novo a qualquer um que deseje honrar o escritor agora ou a qualquer momento nos anos que estão por vir”.

Se esta foi a proposta do livro, o biógrafo cumpriu o objetivo e, certamente, os leitores órfãos das famílias Caulfield e Glass aceitam de bom grado essa oferenda respeitosa e sem sentimentalismo de Slawenski a Salinger.

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Site do autor Kenneth Slawenski, dedicado a J. D. Salinger:
www.deadcaulfields.com

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Quebrando o Tabu: um outro olhar sobre as drogas


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se lançou em uma jornada espinhosa e polêmica: promover um debate internacional que vise incentivar formas diferentes de pensar e agir com relação às drogas. Atuando como presidente da Comissão Global de Políticas Sobre Drogas, FHC tem viajado pelo mundo, ouvindo e discutindo com especialistas, viciados, ex-usuários, traficantes, policiais, autoridades políticas respeitadas, etc.. Conforme mais se aprofunda no tema, mais ele se convence de que, da forma como as drogas são combatidas, esta é uma guerra perdida.

Uma parte desse trabalho do ex-presidente pode ser vista no documentário “Quebrando o Tabu”, recém lançado. No filme, dirigido por Fernando Andrade e tendo como um de seus produtores o famoso apresentador Luciano Huck, FHC se propõe a colocar o dedo na ferida e abrir uma discussão sobre como é possível lidar para de fato diminuir o problema o problema.

O filme inicia mostrando que desde que o mundo é mundo, as drogas sempre fizeram parte da vida das pessoas e que, portanto, sonhar com uma sociedade sem tóxicos, é utopia. Dito isso, parte-se para a Guerra às Drogas declarada pelos Estados Unidos em 1971, quando impôs tolerância zero aos usuários e traficantes de drogas ilícitas na sociedade estadunidense. Ideia que, como os Estados Unidos exercem forte influência nas Nações Unidas, acabou se espalhando por praticamente todo o planeta. Uma luta inútil pois, como temos visto nesses 40 anos desde que a Guerra às Drogas foi declarada é que, apesar de todas as prisões, apreensões e mortes, as pessoas nunca deixaram de se drogar e que o tráfico e violência nunca não parou de crescer.

É a partir desse ponto - a falência total deste modelo de combate às drogas (que no filme é confirmado pelos ex-presidentes dos EUA Jimmy Carter e Bill Clinton) - é que surge o que há de mais interessante em “Quebrando o Tabu”, que é a seguinte questão: se a repressão e a criminalização não resolvem o problema, o que fazer então? Certamente uma pergunta que sugere várias respostas e nenhuma delas definitivas. Mas existem experiências em alguns países que podem estar indicando o caminho.

Para conhecer essas respostas, FHC foi até à Holanda, Suíça e Portugal, onde políticas públicas que sugerem a descriminalização do usuário de drogas têm alcançado resultados encorajadores. Contudo, como é enfatizado no documentário, implantar tais mudanças indica também confrontar aspectos culturais e costumes de cada sociedade. De nada adianta mudar a lei, se esta não for acompanhada de educação e esclarecimento da população sobre as drogas, seus reais efeitos e consequências.

O documentário demonstra que alguns passos são importantes. Um deles é separar os tipos de drogas. Por exemplo: cocaína, crack e heroína, altamente viciantes e com potencial grande de degradação do usuário, não podem ser colocadas na mesma categoria da maconha, cujos efeitos - está se comprovando cada vez mais - são menos danosos ou no máximo equivalentes ao álcool e ao tabaco.

Aliás, a maconha recebe uma atenção especial no filme, tendo em vista que tem crescido em várias partes do mundo o movimento visando à descriminalização e até mesmo a legalização dela. É o caso de experiências da Holanda onde é possível comprar livremente maconha, seguindo algumas regulamentações que dizem respeito à quantidade e locais onde ela pode ser comprada e consumida em público. Tais iniciativas têm mostrado que a regulamentação do uso da maconha, ao invés de ser a porta de entrada para outras drogas, pode ser um impedimento para o consumo de outros tóxicos mais pesados e que são de interesse dos traficantes que o usuário consuma. O importante, então, seria afastar o usuário do traficante.

Em “Quebrando o Tabu”, são relevantes ainda os depoimentos, entre outros, do famoso médico Dráuzio Varella, que defende que os usuários de drogas devem ser tratados como doentes, e não como criminosos, e do escritor Paulo Coelho, que assume ter usado inúmeros tipos de drogas por um período em sua vida. E é dele um dos registros mais interessantes do filme. O escritor defende que não adianta dizer aos adolescentes e jovens que a droga é ruim, porque quando eles experimentarem vão perceber que a droga dá prazer. No entanto, é preciso dar informação sobre as consequências, para que as pessoas façam a escolha entre se abster ou não de tóxicos. E, como alerta Paulo Coelho, as pessoas precisam saber que, caso optem por usar determinadas drogas, podem estar abdicando do direito de decidir sobre os destinos de suas vidas, uma vez que o viciado passa a ser controlado pela droga, o que pode conduzi-lo a um caminho sem volta.

Com cerca de 80 minutos de duração, “Quebrando o Tabu” se propõe a jogar limpo com relação às drogas, sem alarde, sem preconceito, tratando o tema embasado na racionalidade. Ao contrário do que alguns possam estar imaginando, o filme não faz apologia às drogas. Apenas procura enfatizar métodos melhores para combatê-las. E por as drogas estarem nas ruas, nas escolas, no trabalho e, para infelicidade de muitos, dentro da própria casa, este documentário é obrigatório para professores, autoridades, pais, jovens, adolescentes... É um documentário para todo mundo.

Logicamente, ao fim do filme temos mais perguntas do que respostas. Deve-se liberar? Descriminalizar? Se for o caso, que drogas, para quem? Estamos preparados para isso? Quem sabe... Mas, sejamos sensatos de admitir que acabar com as drogas é impossível. Temos que nos conscientizar que existem meios de reduzir seus danos e o consumo. Basta procurar caminhos alternativos, que não apenas o de criminalizar, prender e matar quem vende e quem consome.

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Site oficial do filme:
www.quebrandootabu.com.br

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Quem sabe faz ao vivo e quebra tudo no final


Eu pretendia não voltar por um bom tempo ao assunto, mas já que estamos nesta semana de Rock in Rio e o negócio é quente, então vale a pena dar uma esticada no tema.

No sábado passado (24), relembrando, o disco “Nevermind” do Nirvana completou 20 anos e para comemorar a data e arrancar mais alguns milhões de dólares dos fãs (sim, eu também caí no golpe...), também foi lançado um edição super luxuosa do disco. Entre diversas gravações inéditas, raridades e faixas ao vivo, o melhor desse pacote é o DVD “Live at the Paramount”, que já está sendo vendido por cerca de R$ 40 no Brasil, mas quem quiser também encontra bem fácil para download em blogs especializados por aí.

O DVD tem algumas particularidades que o tornam tão especial. Uma delas é que o show registra o momento exato em que o Nirvana despontava para a fama mundial. Foi gravado em 31 de outubro de 1991, em Seattle (EUA), apenas cinco semanas após o lançamento de “Nevermind”. Outro ponto é a qualidade da imagem e áudio, já que é o único show da banda registrado em película, o que resulta em um vídeo de altísssima definição. Por fim, o que faz de “Live at the Paramount” um item obrigatório para os fãs é aquilo que mais importa: a banda em ação.

Enquanto a fama do Nirvana no início dos anos 90 só fazia crescer, a qualidade de seus shows ia ladeira abaixo. Talvez alguém se lembre da banda tocando no Brasil em 1993, no hoje extinto festival Hollywood Rock. O show de São Paulo foi definido pelos próprios Kurt Cobain e companheiros como a pior apresentação da carreira do grupo.

Uma semana depois, se apresentaram no Rio de Janeiro, com transmissão ao vivo pela Rede Globo. O show foi um pouco melhor, mas ainda assim, revendo o vídeo anos depois, é deprimente assistir Kurt Cobain anoréxico, chapadaço e com um tédio indisfarçável tocando na frente de 100 mil pessoas. O cantor era o retrato exato de uma música que ele escreveu e que o Nirvana gravou chamada “I Hate Myself and I Want To Die” (“Eu Me Odeio e Quero Morrer”).

Em “Live at the Paramount” a história é bem diferente. Tocando para um público de 5 mil pessoas, Kurt Cobain, Krist Novoselic e Dave Grohl, como fica evidente no DVD, estão se divertindo pra caramba com o sucesso que estavam fazendo naquele momento com “Nevermind”.

Fisicamente Kurt Cobain estava melhor, apesar de que na época já fosse viciado em heroína, mas não estava tão detonado pela droga. Ao todo, são 70 minutos de rock tocados com vigor e com verdadeiro “teen spirit”, encerrando com a destruição dos instrumentos, como era de praxe nas apresentações do Nirvana. Coisa linda de se ver!

O Nirvana em “Live at the Paramount” é rock em estado bruto. Talvez exatamente aquilo que tantos que por esses dias criticam o festival do senhor Medina gostariam de ver Rock In Rio...