sábado, 24 de março de 2012

A vida nos bosques ou como tentar ser alguém melhor


"Por mais mesquinha que seja a sua vida, aceite-a e viva-a; não se esquive a ela nem a trate com termos duros. Ela não é tão ruim quanto você. Ela parece tanto mais pobre quanto mais rico você é. Quem vê defeito em tudo verá defeitos até no paraíso. Ame sua vida, por pobre que seja”.

Um livro que todo mundo deveria ler. Publicado em 1854, as ideias presentes em “Walden: ou a vida nos bosques”, do estadunidense Henry Thoreau (1817-1862), talvez sejam hoje ainda mais atuais do que na época em que foram escritas.

Ler essa obra é ser nocauteado da primeira à última página, tamanha a força dos pensamentos e quantidade de verdades (que poucos ousam dizer ou têm sequer a inteligência de pensar!) que ele despeja para cima do leitor. Sem ter como ou sem querer se defender, o leitor se entrega a uma leitura que a cada página estimula qualquer sujeito sensato a tentar ser uma pessoa melhor e mais feliz, por meios bem diferentes do que é entendido como o convencional.

Nas primeiras páginas ele já define o tom do livro:

“A grande maioria dos homens leva uma vida de calado desespero. O que se chama resignação é desespero confirmado.”


Thoreau nasceu na cidade de Concord, no Estado de Massachussets. Estudou em Harvard, trabalhou na fábrica de lápis da família – onde desenvolveu uma fórmula que poderia tê-lo deixado rico, destino pelo qual ele não demonstrou o menor interesse. Também foi topógrafo e professor por um breve período. Cansou de tudo e, entre 1845 e 1847, foi morar sozinho em uma cabana de 6 m² construída por ele mesmo às margens do Lago Walden, na própria Concord.

Amante da natureza (é considerado um dos mentores do movimento ecologista) e influenciado por filosofias orientais, o escritor era um crítico da sociedade. Não conseguia entender como alguém poderia se “matar” trabalhando para acumular bens, ter sempre roupas novas paras seguir a moda, encher a pança com comida suficiente para alimentar um elefante, almejar um maior status social...

“É uma vida de tolo, como vão descobrir quando chegarem ao final dela, ou talvez antes.”

“Walden” é o resultado desses 24 meses que Thoreau viveu no meio da mata. A força motivadora era provar para os outros e para si que ninguém precisa mais do que um tiquinho de alimento, água, umas poucas peças de roupa, um abrigo, meios para acender uma fogueira e a companhia de livros clássicos. Com apenas isso e com esporádicas visitas à cidade do Concord, o escritor passou muito bem, tanto que sobreviveu para escrever o livro.

Certamente um excêntrico, muitos podem pensar, que é como os habitantes de Concord julgavam ser Thoreau. Ele tinha consciência disso, mas não dava a mínima. Thoreau se sentia bem na companhia das árvores, dos animais, dos peixes e do lago Walden, que ele acabou conhecendo como se fosse a palma de sua mão.

“Acho saudável ficar sozinho a maior parte do tempo. Ter companhia, mesmo a melhor delas, logo cansa e desgasta. Gosto de ficar sozinho. Nunca encontrei uma companhia mais companheira do que a solidão.”


“Walden” se estende por 18 capítulos, mas são o primeiro, “Economia”, e o segundo, "Onde e para que vivi", que considerei os mais importantes. São neles que Thoreau abre a nossa cabeça-dura com suas críticas ao consumismo débil (que tanto amamos!), à hipocrisia travestida de filantropia, às escolas e universidades que ensinam apenas frivolidades, ao desenvolvimento tecnológico meio sem sentido que segue frenético em busca de novidades que no fundo não servem pra nada.

Por outro lado, ensina-nos a amar a natureza, tudo isso depois de nos jogar na cara o quanto somos idiotas por perder tempo trabalhando para comprar coisas que não precisamos e por deixarmos em último plano o desenvolvimento espiritual e o verdadeiro desfrutar da vida.

Nos demais capítulos, ele se dedica a descrever seus dias vivendo nos bosques, suas observações sobre as colheitas e os animais, devaneios diversos que resultam sempre em mais ensinamentos aos seus leitores.

"Nossa vida toda é alarmantemente moral. Nunca há um instante de trégua entre a virtude e o vício. A bondade é o único investimento que nunca falha. Na música da harpa que freme por todo o mundo, é a insistência nisso que nos faz vibrar."

Impossível imergir ileso da leitura de “Walden”. Damos razão a quase tudo para Thoreau, mas também nos damos conta de como é difícil nos desprender das coisas materiais. Até parece que elas fazem parte do nosso corpo. Mas penso que vale a pena e acredito que isso deve ser um exercício praticado no dia-a-dia, para o bem de cada de cada um...

sábado, 17 de março de 2012

“A vida fala sobre sexo em qualquer situação”


Por CRISTIANO VITECK
Publicado no O Presente


Sexo. A simples palavra já basta para chamar a atenção das pessoas. Afinal, o sexo, nos seus mais amplos sentidos, está presente no dia a dia. Contudo, ele ainda está cercado de tabus, dúvidas, medos e vergonhas, embora sempre gere curiosidade e atração. E quando o sexo entra pela porta da casa, o pânico quase toma conta dos pais quando uma criança pergunta a respeito. A psicóloga, sexóloga e professora doutora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Eliane Rose Maio, trabalha com o tema há 28 anos. Autora do livro “O Nome da Coisa”, resultado da sua tese de doutorado sobre os nomes vulgares ou eufemismos dados aos órgãos sexuais masculino e feminino, Maio participou na sexta-feira (16) de palestra no Colégio Rui Barbosa, em Marechal Cândido Rondon, sobre “a importância do diálogo sobre sexualidade no contexto familiar”. Neste sábado (17), também realiza aula magna na Falurb. Em entrevista ao Jornal O Presente ela tratou de temas diversos sobre o assunto e garantiu que, mesmo cinco décadas depois da chamada revolução sexual, as pessoas ainda não aprenderam a lidar com o sexo de modo natural.

O sexo está presente em todos os meios e lugares. Então, por que é tão difícil o diálogo sobre sexo entre pais e filhos?

São os próprios bloqueios dos pais quando foram crianças. E eles vêm carregando esses bloqueios, pois com certeza não tiveram educação sexual, e trazem isso para os filhos. A palavra mais digitada no Google é “sexo” ou “sex”. Querendo ou não, a vida fala sobre sexo em qualquer situação. Claro, culturalmente de maneiras diferentes. O que para nós é uma expressão sexualizada, em outra cultura não é. E sexo vende muito. Se for olhar um outdoor de calça jeans, vai ter um casal sexualizado, semi-nu. A gente presta pouca atenção na calça jeans, pois há uma cena erotizada. Em qualquer lugar tem sexo, mas dentro da família não. O sexo está em casa, mas quando constitui-se uma família tradicional, fica velado, (o sexo) ali não acontece. Tem que se falar. As pessoas acreditam que isso tira a inocência das crianças. Não, isso tira a ignorância. É o contrário do que os pais pensam. Omite-se o tema sexo dentro de casa. E aí a criança vai aprender onde? Na rua, e a rua deseduca.

Como os pais podem romper esse bloqueio e quando é a hora de falar sobre sexo com os filhos?

Há várias maneiras de se educar sexualmente de forma inadequada. A primeira é a forma do silêncio e essa não dá mais nos dias de hoje. A segunda é aquela quando a criança pergunta o que é sexo e o pai responde que ainda é muito cedo para ela saber e que, quando chegar a hora, ele vai explicar. Quando a criança perguntou é que é a hora! A outra forma é a técnica da escapada, quando os filhos perguntam sobre sexo e os pais ficam trocando o controle remoto ou mudam de assunto. Também há a da pressa, quando explicam gaguejando. A outra é da anatomia: sexo é coisa de gente grande para fazer nenê. Eu digo sempre para a família: mostre-se perguntável. Esteja aberta ao diálogo a todo momento. Procure ajuda, há livros, palestras, tem sites importantes e busque ajuda com profissionais. A escola tem que fazer esse trabalho também, mas cientificamente. Só que os professores também têm seus interditos, não sabem trabalhar com as crianças e vão empurrando com a barriga. Educar sexualmente é como educar para qualquer outra coisa.

Os pais têm receio de que ao falar de sexo estariam incentivando o início da vida sexual?

Tudo o que eu escuto é isso. Ninguém incentiva nada se tiver clareza, confiança e respeito mútuo. A criança tem fases. De zero a um ano e meio é uma fase. De um ano e meio a três é outra e de três a seis é a fase fálica, quando a libido está nos órgãos genitais. Libido é um instinto de vida, instinto sexual, não erótico. A criança ama manipular o pênis ou a vulva como gosta de colocar o dedo no nariz, na boca, orelha. É fase. As crianças percebem que os adultos lidam inadequadamente quando elas se manipulam, então elas começam a fazer embaixo da cama, atrás do sofá. Pais: fiquem tranquilos, pelo contrário, ao falar de sexo vocês estão protegendo, ao invés de estimular.

Quando os pais percebem que o filho ou filha pode ser homossexual, como eles tendem a lidar com isso?

Eu trabalho com a diversidade sexual. Luto por gente que gosta de gente. Viemos para o mundo educados culturalmente com um pensamento heterossexista. Eu brinco que quando alguém está grávida, ninguém diz: “tomara que seja gay, tomara que seja lésbica”. Eu nunca ouvi isso ainda. Eu digo: tomara que seja feliz. Que bom que é gay, que é lésbica, que é hétero. Mas o mundo é muito homofóbico e o Brasil é o país mais homofóbico. Quando se fala em gay e lésbica, a maioria das pessoas pensa na transa. Mas tem o afeto, tem a relação, tem a briga, tem tudo similiar. Mas com muita dor, porque o mundo é homofóbico.

Na mídia, é cada vez mais comum o tema ou a presença de personagens homossexuais, só que tudo de forma caricata...

É que falar de gay, loira, português, gaúcho, negro... Muitos dão risada, mas para outros, isso é preconceito. Essa caricatura é para dar um tom engraçadinho. Mas tem muita gente morrendo só porque é engraçadinho. Tudo o que é diferente a gente não está preparado. Transgênero, transsexual, travesti, drag-queen causam impacto e se caricatura isso nos meios de comunicação para dar risada, audiência. Isso me entristece como gente e como profissional.

Os pais têm muita preocupação em relação à internet. Ela é um problema?

Quem tem um diálogo legal diria ao filho que ali tem um monte de coisa que os pais não gostariam que os filhos vissem, explicando que a prostituição, o filme pornô são venda e compra; explicaria que os nossos corpos não são para vender e comprar e que por isso são contrários que os filhos vejam. Se tiver um diálogo legal, o adolescente vai perceber que não precisa invadir o cérebro com coisas inadequadas. Então, a serenidade tem que estar atrás de tudo isso, sempre.

É comum nas famílias os pais estimularem os meninos ao sexo e as meninas não. Por que os pais tendem a agir como se a filha fosse assexuada, que precisa ser reprimida?

No livro que eu escrevi tem 408 sinônimos ou eufemismos para pênis. Para vulva 494. Quase todos para o homem, tirando de criancinha – piu-piu, passarinho – são todos pesados. De mulheres, são todos suaves. Há por trás disso uma educação sexista. Então esse “assexuada” é no sentido “não explore”, “não olhe”, “não mexa”, mas o menino pode. Há uma educação totalmente diferenciada, de divisão de papeis de gênero que diz que a mulher é toda romântica, que precisa de afeto e carinho, mas os homens não. Isso é para puro controle. Isso é milenar, para manter a mulher presa, gestando, cuidando da casa, então é melhor que ela seja assexuada. Mas isso está mudando.

Temos hoje duas ou três gerações depois da revolução sexual dos anos 1950 e 1960. De lá para cá, as pessoas aprenderam a conviver melhor com o sexo, a ter relações melhores?

Não. Infelizmente a mudança foi muito pequenininha, por isso eu sou favorável à educação sexual nas escolas no maternal. Nada na quarta série, sétima série, ensino médio, fazer feira de ciências de DST e aquelas coisas.

Existe o certo e o errado em sexo?

Psicólogos odeiam essa coisa de certo e errado. O que te faz bem e faz bem para a outra pessoa é totalmente adequado. Se você tem uma boa educação sexual desde pequeno, na adolescência você só irá reafirmar isso e então na fase adulta você pode se perguntar “o que é o adequado ou inadequado para mim?”. Quando para obter prazer eu tenho que ofender, machucar o outro, isso não é adequado. Adequado é aquilo que faz bem para os dois.

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Veja a entrevista da sexóloga Eliane Rose Maio no programa Jô Soares, em 10 de maio de 2011.

PARTE 1:
http://www.youtube.com/watch?v=vS2U9McbQoo&feature=player_embedded

PARTE 2:
http://www.youtube.com/watch?v=_ZZycStY78c&feature=player_embedded

sábado, 3 de março de 2012

Entrevista com o presidente do movimento "O Sul é o Meu País"



“Nosso movimento é herdeiro da tradição guerreira do Sul”


Nos dias 17 e 18 de março, um evento na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, em Florianópolis, vai marcar os 20 anos de fundação do movimento “O Sul É o Meu País” (www.meusul.net), que tem como um dos seus principais objetivos a união do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul para formar um novo país. Hoje (03), em Curitiba, está acontecendo um encontro regional do movimento, a exemplo de outros que vem acontecendo nos três Estados em questão. Por telefone, entrevistei na tarde de ontem (02) o presidente do movimento, jornalista e professor Celso Deucher, para uma reportagem do jornal O Presente. Na ocaisão, ele detalhou as metas e ações que estão sendo desenvolvidas. Natural de Brusque (SC), o presidente criticou o sistema federativo brasileiro que, na opinião dos separatistas, fere a liberdade e suga as riquezas dos Estados. Segundo Deucher, o movimento “está muito fortalecido com a entrada de um grande número de pessoas que estão descontentes com a situação que se encontra o Brasil”.

O movimento “O Sul é o Meu País” está comemorando 20 anos. Nesse período, por um longo tempo pouco se falou abertamente sobre ele. Por que essa retomada da discussão?

Nos 20 anos nós nunca paramos de trabalhar. Ocorre que, por volta de 1993, o governo federal veio para cima de outro movimento no Rio Grande do Sul, o República dos Pampas, por causa de algumas declarações do líder daquele movimento e que a Globo reproduziu. Com isso o governo veio para cima de todos nós. No nosso caso, não sofremos tanto pelo fato do movimento já ser registrado, dentro da lei. Mas arrefecemos o trabalho, demos uma segurada. Começou-se a fazer um novo trabalho em busca de novos associados e a partir do ano passado, principalmente, começamos a voltar à ativa na rua, com panfletagem, manifestos, debates e o trabalho voltou a aparecer na imprensa. Em nível externo nós estamos voltando à ativa agora, mas internamente continuamos trabalhando desde março de 1992.

Por que, agora, buscar novamente mostrar o movimento na mídia?

Porque agora o movimento está muito fortalecido com a entrada de um grande número de pessoas que estão descontentes com a situação que se encontra o Brasil. Na década de 90 nós estávamos saindo do regime militar e tínhamos a nova Constituição. A gente tinha esperança que com a nova Constituição as coisas fossem mudar. Mas, o que sentimos é que não mudou praticamente nada em relação à representação parlamentar, à distribuição dos impostos. Brasília continua centralizando ainda mais os poderes, ainda mais a questão econômica e a disparidade regional nossa é uma coisa gritante.

Quais são as principais motivação do movimento, além da separação do Sul do resto do país?

“O Sul é o Meu País” é um movimento de discussão da ideia de autodeterminação do povo sulista. Como autodeterminação compreende-se alguns vieses, sendo um deles a separação. Eu, pessoalmente, sou separatista. Acredito num Sul independente. Mas, dentro do movimento há pessoas que acreditam numa confederação de Estados e em manter o Brasil como ele está. No entanto, dando autonomia para os Estados, como é o estilo americano, suíço e tantos outros. Se mantém a unidade, mas dentro da diversidade dos Estados. Do ponto de vista da maioria dos que estão no movimento, essa situação é só temporária. A confederação seria um passo para se chegar à separação. Nós não pregamos a luta armada ou qualquer outro meio que não seja o pacífico para chegar ao objetivo máximo que é a criação de um país.
Reprodução

O movimento tem o apoio de senadores e deputados do Sul que podem levar adiante essa discussão no Congresso Federal?

É difícil trabalhar com a classe política que nós temos, inclusive a nossa do Sul. Tem muita gente boa dentro da classe política, mas a maioria, e a sulista também se encaixa no mesmo sentido, são pessoas que não têm idoneidade suficiente para reclamar uma questão como a do nosso movimento. Grande parte da classe política se sustenta dentro do atual sistema. Enquanto o Estado continua centralizado, enquanto o dinheiro está indo para Brasília e é distribuído para apadrinhados políticos desse e daquele lado, esse pessoal vai ser contra a ideia de separar o Sul. Temos vereadores, prefeitos e alguns deputados que nos apóiam, mas são apoios muito discretos e nós evitamos trazer essas pessoas para dentro do movimento.


O senhor afirmou que os políticos do Sul não se diferenciam muito daqueles do resto do país. Então, adianta separar o Sul se nesse novo país continuaríamos a ter os mesmos políticos nos três Estados da região?

Isso se resolve com uma coisa que não é simples de se fazer, mas ela tem que ser feita paulatinamente, principalmente com a educação. Nós temos uma classe política do jeito que temos porque votamos nela. Somos co-responsáveis por estes que estão aí no poder. O movimento prega que sejamos cidadãos conscientes. Temos que trabalhar a cabeça do cidadão para votar em gente descente, com ética, com espírito público. Temos no Sul, e em outras regiões do Brasil também, prefeitos e vereadores, políticos que têm esse espírito.

Uma pesquisa realizada pelo movimento no ano passado em Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre, mostrou que na capital paranaense, ao contrário das outras duas, a maioria dos entrevistados era contra a separação, além de haver um grande número de indecisos. O movimento conseguiu identificar por que isso ocorre em Curitiba?

Nós temos um projeto de consultas populares, dentro de critérios científicos, iniciado no ano passado. Queremos mostrar para os governos qual é a verdadeira aprovação que existe dessa ideia. Começamos nas três capitais e nunca tivemos grande aprovação, principalmente em Curitiba e Florianópolis. Os avaliadores da nossa pesquisa em Curitiba disseram que boa parte dos aposentados votava contra, com medo de perder a aposentadoria, o que era um absurdo porque era só uma pesquisa. Muitos entrevistados também eram funcionários do governo federal.

Quais são os próximos passos do movimento?

Temos metas para os próximos quatro anos. Nas 48 cidades da região Sul com mais de 100 mil habitantes temos grupos formados de 10 pessoas. Em cada uma dessas cidades eles irão montar um grande grupo de apoio ao movimento. No dia 04 de agosto, faremos uma grande manifestação nessas 48 cidades. O dia 04 de agosto é a data de morte da grande heroína sulista Anita Garibaldi, que muita gente conhece. Era uma pessoa simples que se transformou em uma heroína por lutar por um país independente aqui no Sul.

“O Sul é o meu País” segue a inspiração de movimentos ocorridos na região como a Revolta Farroupilha e a Guerra do Contestado?

Pouca gente sabe, mas o nosso movimento surgiu no Paraná, nos idos de 1600, quando os índios das missões do Guayrá começaram a lutar contra os bandeirantes, contra o Brasil, na verdade. O cacique Guairacá, do Paraná, é um dos homens lendários do movimento porque ele começou essa defesa da terra sulina. Mais tarde, no Rio Grande do Sul, o Sepé Tiaraju também abraçou a causa. Esse sentimento aflorou com muita força na Revolução Farroupilha, depois na própria Guerra do Contestado, que era uma luta de divisas, mas por outro lado se transformou em luta separatista porque o governo central nunca deu bola para aquela gente. Depois veio a Revolução Federalista, com o cerco da Lapa. Todas essas revoluções demonstram que o sulista não é um cara que se entrega fácil. Não é só chegar aqui e explorar a gente e levar o nosso dinheiro, autonomia e liberdade que nós não fazemos nada. O nosso movimento se considera herdeiro dessa tradição guerreira do Sul. Nós somos aqueles que continuam com aquelas ideias e continuamos lutando. Os descendentes de escravos ou de imigrantes que vieram de Portugal, Açores, alemães, italianos, poloneses, enfim, todos os povos que chegaram aqui, hoje podem se sentir um povo porque houve uma luta comum e nós queremos um futuro comum. Isso nos transforma em um povo.