quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Pedro Bial estava errado


Lembra daquele famoso texto do Pedro Bial, chamado “Filtro Solar”? Não leu? Esqueceu?
Ele começa assim:

”Nunca deixem de usar filtro solar!
Se eu pudesse dar uma só dica sobre o futuro,seria esta: use filtro solar.Os benefícios a longo prazo do uso de filtro solar
estão provados e comprovados pela ciência;
(...)”


Então, Pedro Bial estava errado. Ou, pelo menos, errado em parte. Afirmo isso porque metade dos protetores solares mais vendidos no Brasil não fazem efeito, não prestam pra nada. A informação foi publicada esta semana no site do jornal Folha de S. Paulo, tendo como fonte estudo feito pelo Pro Teste, da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor.

Conforme as análises, dos dez mais vendidos protetores FPS (que deveriam proteger contra os raios UVB), somente dois cumprem o que prometem, ou seja, proteger a sua pele contra o sol. E para piorar, dos 10, sete apresentam em sua composição um ingrediente altamente cancerígeno (benzophenome-3), que é proibido em muito países, mas que no Brasil é usado livremente.

Diz a reportagem:

”O teste englobou a análise de rotulagem, composição, irritabilidade, hidratação, proteção, resistência a exposição solar e teste em uso. As marcas L'Oréal Solar Expertise e o Cenoura & Bronze foram consideradas as melhores.

O rótulo do Hélioblock da La Roche-Posay foi classificado como o pior, pois traz informações em uma etiqueta muito pequena, que dificulta a leitura, segundo a avaliação.

Apenas o L'Oréal Solar Expertise, Cenoura & Bronze e Natura indicam o fator de proteção UVA. Quatro dos protetores possuem proteção UVA baixa, no entanto, a legislação brasileira não exige um mínimo. Os raios UVA atingem as camadas mais profundas da pele e provocam envelhecimento precoce.

Após o levantamento, a Pro Teste pede que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) passe a exigir o fator UVA de no mínimo um terço do FPS do produto, assim como ocorre na Europa, e que esta informação conste no rótulo. Também são solicitados testes de fotoinstabilidade.

No teste de exposição do produto à radiação solar e ao calor, a Avon, Hélioblock, Nivea, Banana Boat e Sundown se mostraram fotoinstáveis e foram reprovadas, pois não mantêm nem 80% da proteção inicial após uma hora em uso a uma temperatura de 40ºC.

Ainda segundo o Pro Teste, após ficar 30 minutos na água, o banhista tem muitos motivos para se preocupar, já que produtos como o Fotoequilíbrio e Sundown, reduzem a proteção para 30% e 55%, respectivamente.

Além disso, todos os protetores foram considerados muito oleosos. E em relação aos preços, constatou-se que alguns protetores custam o dobro ou mais que os outros e têm eficácia menor.

Em excesso, a exposição ao sol pode trazer uma série de consequências à saúde, como velhice precoce, queimaduras e câncer de pele.”


É, mais uma vez levamos gato por lebre.

“Mas no filtro solar, acredite!”, disse Pedro Bial. Pra azar nosso, ele estava errado...


LEIA A REPORTAGEM NA ÍNTEGRA AQUI:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u660153.shtml

LEIA "FILTRO SOLAR" DE PEDRO BIAL AQUI:
http://letras.terra.com.br/pedro-bial/138161/

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Easy Rider: 40 anos


Easy Rider: 40 anos

Filme de 1969 antecipava o fim da geração de Woodstock

Quinhentas mil pessoas é muita gente, mesmo para os padrões de hoje quando festivais de rock pipocam nos quatro cantos do planeta. Então, imagine isso em 1969. Lá se vão quatro décadas desde que nos dias 15, 16 e 17 de agosto daquele ano Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jefferson Airplane, The Who, Joe Cocker, Santana e tantos outros artistas fizeram, ao lado daquele mar de cabeludos hippies, o concerto mais famoso de todos os tempos. Ápice da contracultura sessentista nos Estados Unidos, o festival de Woodstock também marcaria o começo do fim daquela movimentação cultural e social que virou a sociedade estadunidense de cabeça para baixo.

Coincidentemente, naqueles mesmos dias chegava às telas dos cinemas norte-americanos o filme Easy Rider – Sem Destino, que apresentava a jornada de dois hippies cruzando os Estados Unidos com suas motos em busca do sonho americano. Com direção de Dennis Hopper (que também interpreta um dos papéis principais), o longa, apesar da produção modesta de apenas 300 mil dólares, foi a quarta maior bilheteria daquele ano. Clássico absoluto, Easy Rider (premiado no Festival de Cannes como o melhor filme de um diretor estreante) já antecipava os últimos dias da contracultura que, por suas próprias contradições e fraquezas, perdeu a luta contra a sociedade careta.

Os anos 60 foram um período de intensas agitações políticas e culturais nos Estados Unidos – e que, por extensão, tiveram reflexos em outras partes do mundo, tamanha a abrangência destes acontecimentos. Já no início daquela década, o país viveu o acirramento da Guerra Fria contra a União Soviética. Um dos seus momentos mais tensos desta disputa se deu com a crise dos mísseis em Cuba, em 1962, quando por muito pouco as duas superpotências não iniciaram uma guerra nuclear. Em 1964, sob o comando do presidente Lyndon Johnson, os EUA entraram oficialmente na Guerra do Vietnã. Cerca de um ano antes, mais precisamente em 22 de novembro de 1963, o presidente John Fitzgerald Kennedy fora assassinado quando desfilava em carro aberto pelas ruas de Dallas. Cinco anos depois, o irmão dele, o senador Robert Kennedy, também seria vítima de outro assassinato até hoje polêmico e mal-explicado.

Além desses fatos, outras turbulências, talvez ainda mais marcantes, ocorriam dentro do território norte-americano naquele momento. Começou a haver maior visibilidade da luta das mulheres pelos seus direitos, buscando a inserção plena no mercado de trabalho e, também, mais avanços em sua liberdade sexual. Essa busca ganhou impulso com a invenção da pílula anticoncepcional, criada nos anos 1950 e que teve ampla disseminação na década seguinte. Da mesma forma, as lutas pelos direitos civis dos negros ganharam grande vulto, principalmente pelas ações dos Panteras Negras e do pastor Martin Luther King, que acabou assassinado em 1968. No ano seguinte, o movimento dos homossexuais pelo fim do preconceito também se fortaleceu, principalmente após a Batalha de Stonewall.

Já nas universidades, pesquisas e experiências com LSD (que nos primeiros anos da década não era ainda considerado droga) ampliaram os horizontes sensoriais de muitos jovens. Mesmo proibido a partir de 1966, o LSD já havia ganhado as ruas e era consumido em grande escala – não apenas por estudantes, mas também por artistas, intelectuais, profissionais liberais, entre outros, ou por simples viciados em drogas. Ainda nas universidades, estudantes entraram em contato com livros de autores contemporâneos como Herbert Marcuse e Norman Brown, que fizeram uma releitura da obra de Karl Marx sob as luzes da psicanálise de Freud e, a partir dela, embora com conclusões em certos momentos divergentes, defendiam que era a psique que estruturava o modo de produção da vida material, e não o contrário, como acreditava o autor de O Capital. Sendo assim, mais do que uma explicação econômica do capitalismo, Marcuse e Brown realizaram uma crítica geral do comportamento do homem dentro da civilização como um todo e acentuaram a primazia da consciência na mudança social.

Em paralelo ao pensamento filosófico, também aconteceu a segunda “explosão” do rock, que após quase ter desaparecido no final da década de 1950, ressurgiu como um fenômeno cultural e social ainda maior. Seus principais novos expoentes apresentaram idéias, letras e sons muitos mais radicais. Perto de nomes como Bob Dylan, Jefferson Airplane, Doors, Velvet Underground, Jimi Hendrix e Janis Joplin, só para ficar nos exemplos de alguns artistas e grupos norte-americanos, o rebolado de Elvis Presley, que tanto chocou os Estados Unidos na metade da década de 1950, já era algo extremamente conservador para os agitados anos 1960.

Aos jovens entusiastas da intensa agitação daquela década – voltada em grande parte contra o sistema e inicialmente se concentrou na cidade de San Francisco, na Califórnia, para depois se espalhou por praticamente todos os Estados Unidos e outras partes do mundo – deu-se o nome de hipsters ou hippies (nome derivativo do primeiro adjetivo), Eles se transformaram, de fato, em um enorme fenômeno em 1967, durante aquele que ficou conhecido como o Verão do Amor.

Em sua essência, o estilo de vida alternativo dos hipsters tinha como objetivo confrontar ou até mesmo se desligar da sociedade moderna, que na concepção dos jovens rebeldes era extremamente planejada e concebida nos escritórios dos burocratas. Na contramão desse modo de vida marcado pela busca máxima da eficiência, a geração hippie ofereceu uma maneira de viver. Ou seja, para aquela parcela da juventude que não se enquadrava dentro dos padrões de vida considerados “normais”, a opção era justamente fugir dessa teia em busca de uma outra realidade possível. Fuga de diversas formas, através das drogas, da literatura, da moda, do rock. Fuga das grandes cidades para comunidades isoladas. E, claro, fuga no sentido mais restrito da palavra. Ou seja, pegar a estrada!

Sem Destino

É nesse contexto tumultuado que Easy Rider surgiu, apresentando a animosidade e o confronto entre a juventude rebelde e a sociedade careta. Conforme escreveu Lee Hill no livro Sem Destino, a idéia do filme surgiu de um devaneio do ator Peter Fonda, em 1967, quando ele “estava descansando no hotel, depois de ter se apresentado em uma convenção de distribuidores de cinema. Fonda estava lá para promover o filme Viagem ao Mundo da Alucinação, realizado no ano anterior por Roger Corman, mais comhecido como “Rei dos filmes B”. Cercado de material publicitário, o ator teria acendido um baseado e ficou contemplando uma fotografia de outro filme do diretor, The Wild Angels (1966), que mostrava ele mesmo e Bruce Dern na frente de duas motocicletas.

Fosse em consequência da marijuana ou um simples devaneio inspirado pela exaustão, o fato é que Fonda teve uma revelação: ele e Dern eram caubóis modernos (!!!). No lugar de John Wayne ou Gary Cooper, visualizou dois hippies viajando através dos Estados Unidos em motocicletas e vivenciando plenamente a liberdade da estrada. À medida que a imagem se tornava perfeitamente nítida em sua mente, o ator viu a versão hollywoodiana de um filme de sucesso.

Easy Rider (que no Brasil ganhou o batismo de Sem Destino) conta a história dos hippies Wyatt (Fonda) e Billy (Hopper), que cruzam os Estados Unidos rumo ao Mardi Gras, espécie de Carnaval celebrado na cidade de Nova Orleans. Na jornada, eles entram em contato com os mais variados tipos de cidadãos norte-americanos, podendo ser fazendeiros católicos, figurões reacionários de pequenas cidades ou outros hippies como eles vivendo em comunidades e enfrentando as mais difíceis condições de sobrevivência, resultado da escolha de viverem afastados da sociedade. Com uma ótima fotografia e imagens que exploram a diversidade da paisagem estadunidense, a cada quilômetro rodado Billy e Wyatt vão percebendo todas as contradições de seu país e, principalmente, o preconceito voltado contra quem ousa se opor ao tradicional american way of life.

Personagem fundamental na história também é George (Jack Nicholson), que Billy e Wyatt conhecem na cadeia, após serem presos por tumultuarem um desfile cívico em uma pequena cidade. Advogado e filho de uma família rica, George, assim como a dupla, também está preso, mas por bebedeira. Contudo, logo é solto e também consegue a liberdade de seus novos amigos. Juntos, os três seguem a viagem rumo a Nova Orleans.

Porém, os problemas continuam presentes no caminho do trio. Durante uma rápida parada em uma lanchonete, eles são hostilizados pelos moradores de outra pequena cidade, inclusive pelo xerife. Alvo de comentários jocosos sobre seus modos de vestir e dos cabelos compridos, deixam o local. À noite, acampados próximos àquela cidade, George e Billy conversam sobre o que havia ocorrido. O diálogo é um dos mais provocadores a respeito do que sociedade norte-americana em geral pensava e como tratava os hippies:

GEORGE: Sabem... Este país já foi muito bom. Não entendo o que está acontecendo com ele.
BILLY: Todos viraram covardes, é isso. Nós nem pudemos ficar num hotel de segunda, aliás, um motel! O cara achou que a gente fosse matá-lo. Eles têm medo.
GEORGE: Não têm medo de vocês, mas do que vocês representam.
BILLY: Cara, para eles, só representamos alguém que devia cortar o cabelo!
GEORGE: Não. Para eles, vocês representam a liberdade.
BILLY: E qual o problema? Liberdade é legal!
GEORGE: É verdade, é legal mesmo, mas falar dela e vivê-la são duas coisas diferentes. É difícil ser livre quando se é comprado e vendido no mercado. Mas nunca diga a alguém que ele não é livre porque ele vai tratar de matar e aleijar para provar que é. Eles falam sem parar de liberdade individual, mas, quando vêem um indivíduo livre, ficam com medo.
BILLY: Eu não boto ninguém pra correr de medo.
GEORGE: Não. Você é que corre perigo.

A fala de George revela uma personagem muito mais consciente a respeito do sentimento e da experiência da alienação produzidos pela modernidade do que Billy e Wyatt, que não participa do diálogo mas o ouve atentamente. George Hanson, aliás, tem um papel fundamental em Easy Rider. Ele é o meio-termo entre o cidadão politicamente liberal dos anos 1960, mas que ao mesmo tempo está bastante arraigado às tradições e valores conservadores da pequena cidade onde vive. Não é exagero afirmar que a personagem de Jack Nicholson é uma metáfora do cidadão comum dos Estados Unidos naquela turbulenta década. Tragicamente, logo após aquela conversa, o trio é atacado e George acaba morto. Apesar disso, Billy e Wyatt seguem até Nova Orleans e, então, traçam um novo destino. Porém, eles nunca chegariam à Flórida – na viagem, são assassinados por dois velhos caipiras que cruzam por eles em uma caminhonete. Sem qualquer outro motivo maior além de acreditar que os motoqueiros deveriam aprender uma lição, os caipiras disparam com uma espingarda, matando Billy e Wyatt.

Presságio do fim

A jornada dos dois hippies em Easy Rider, no final das contas, mostra-se impregnada de pessimismo. Do início cheio de promessas de aventuras ao final trágico, os anti-heróis do filme vão descobrindo aos poucos que a sociedade em processo de mudanças imaginada por eles e por tantos ativistas daquele momento contracultural dos Estados Unidos, na verdade, estava bem longe de se tornar verdadeira.

O fracasso de Billy e Wyatt, no final das contas, é também o fracasso de toda aquela geração rebelde, que começou a sua curva descendente do final dos anos 60. Enfim, é aí que Easy Rider se encontra com o festival de Woodstock. Apesar de ser lembrado como o marco máximo da juventude do “Faça amor, não faça guerra”, o evento já era ele mesmo um negócio movido a interesses financeiros como outro qualquer. Enquanto aquelas 500 mil pessoas passavam três dias enfrentando uma infra-estrutura deficiente e ficavam expostas ao sol, à chuva e andavam em meio à lama para viverem seus ideais de “paz e amor”, cinicamente, nos bastidores, os organizadores do festival eram pressionados pelos empresários de bandas como o Who, que se recusavam a permitir que seus artistas se apresentassem sem antes receber os milhares de dólares prometidos como cachê.

Se o clima ainda era de euforia durante Woodstock, entretanto, o final da contracultura seria acelerado com uma sequência de fatos que nada diziam respeito ao lema Paz e Amor. Ainda em dezembro de 1969, um show dos Rolling Stones com entradas gratuitas, realizado no autódromo de Altamont, em San Francisco (EUA), acabou com um jovem morto a facadas pelo grupo de motoqueiros Hell’s Angels, que fazia a segurança do evento. Também em 1969, tragédia maior ainda foi provocada pela família Manson, uma comunidade de hippies liderada por um artista fracassado que acreditava estar recebendo uma missão divina, a qual lhe era repassada através de músicas dos Beatles e de textos bíblicos. Com o objetivo de iniciar uma demente guerra racial entre brancos e negros, sob o comando de Charles Manson, alguns jovens realizaram assassinatos em série. O mais conhecido foi o ocorrido na residência do diretor de cinema Roman Polanski, onde sua esposa, a atriz Sharon Tate, grávida de oito meses, e mais alguns amigos do casal foram cruelmente assassinados. O caso teve grande repercussão negativa sobre o movimento hippie.

Essa desesperança na geração que tentou impor um novo modelo de vida em sociedade aumentaria ainda mais com a chegada dos anos 70 e as sequentes mortes de ícones do rock como Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison. Antes deles, ainda em julho de 1969, fora Brian Jones, guitarrista dos Rolling Stones. Todas as mortes ligadas ao uso de drogas. A repercussão destes episódios serviu, é claro, para justificar uma retomada do conservadorismo entre os norte-americanos na década que se iniciava.

Some-se a isso, ainda, a própria animosidade que passou a existir entre os hipsters vindos de famílias pobres e os de famílias ricas. Como relatou o poeta Ed Sanders em depoimento publicado no livro Mate-me, Por Tavor: Uma História Sem Censura do Punk, de Legs McNeil e Gillian McCain. “O problema com os hippies foi que se desenvolveu uma hostilidade dentro da contracultura entre aqueles que tinham o equivalente a um fundo de crédito – uma espécie de poupança familiar – e aqueles que tinham de se virar sozinhos. É verdade, por exemplo, que os negros já estavam um pouco ressentidos com os hippies lá pelo Verão do Amor, em 1967, porque, pela ótica deles, aqueles garotos estavam desenhando figuras espirais nos seus blocos, queimando incenso e tomando ácido, mas poderiam cair fora a hora que quisessem. Eles podiam voltar para casa. Podiam ligar para a mamãe e dizer: ‘me tira daqui’. Ao passo que alguém criado em um conjunto habitacional da Rua Columbia e que estava se arrastando em volta de Tompkins Square Park não podia escapar.”

Medo e delírio

Outra avaliação ainda mais profunda sobre o período foi feita pelo jornalista estadunidense Hunter S. Thompson. Em 1972 ele publicou o livro-reportagem Medo e Delírio em Las Vegas. O que a princípio era para ser uma simples matéria sobre uma corrida de motos acabou se transformando em uma espécie de registro da ressaca que se abateu sobre a cultura hippie quando ela dava seus últimos suspiros:

“Lembranças estranhas nesta noite nervosa em Las Vegas. Cinco anos depois? Seis? Parece uma vida inteira, ou no mundo uma Grande Era – o tipo de auge que nunca mais volta. San Francisco na metade dos anos 60 era um lugar muito especial para estar, em um tempo muito especial para viver. Talvez tenha significado algo. Talvez não, no fim das contas... mas nenhuma explicação, nenhuma combinação de palavras, músicas ou lembranças é comparável à sensação de saber que você esteve lá, que viveu naquela parte do mundo durante aquele momento. Seja lá o que isso tenha significado...

História é um assunto nebuloso, por todas as merdas que acabam incluídas mais tarde. Mas, mesmo sem podermos ter certeza nenhuma sobre a ‘história’, parece bastante sensato imaginar que, vez ou outra, a energia de uma geração inteira atinge seu ápice num instante magnífico e duradouro, por motivos que na época ninguém compreende por inteiro – e que, em retrospecto, nunca explicam o que realmente aconteceu.


(...) Havia loucura rolando por todos os lados, a qualquer hora. (...) Todos compartilhavam uma sensação fantástica de que estávamos fazendo algo correto, mesmo sem saber o que era... sentíamos que estávamos vencendo...

E acho que essa foi a armadilha – essa sensação de vitória inevitável sobre as forças do Antigo e do Maligno. Não num sentido cruel ou militar; não precisávamos disso. Nossa energia simplesmente prevaleceria. Lutar não fazia sentido – tanto do nosso lado como no deles. Aquela era a nossa hora; estávamos na crista de uma onda imensa e linda...

E agora, menos de cinco anos mais tarde, basta subir um morro íngreme em Las Vegas e olhar para o Oeste com a predisposição adequada para quase enxergar a marca da maré – o lugar onde aquela onda enfim quebrou e se retraiu.”


Se a contracultura da década de 60 caiu em uma armadilha, conforme escreveu Hunter S. Thompson, para o sociólogo Theodore Roszak isso aconteceu porque a sociedade moderna “é como uma esponja capaz de absorver prodigiosas quantidades de insatisfação e agitação, geralmente muito antes que pareçam outra coisa senão excentricidades divertidas ou aberrações inconvenientes”.

Easy Rider é sempre lembrado como um filme que fala sobre liberdade. Criou em torno de si uma imagem mítica de uma juventude idealizada e ao mesmo tempo incompreendida, e por isso mesmo ainda hoje tão atraente. Porém, para além da rebeldia, Easy Rider, no final das contas, é extremamente pessimista quanto ao futuro daquela geração e quanto às mudanças por ela sonhadas. Como escreveu Lee Hill no já citado livro Sem Destino, o longa “é suficientemente forte para antecipar que uma parcela substancial destas idéias e destes movimentos não teria fôlego suficiente para vicejar nos anos 70, sendo de fato consumida por seus opostos polares nas décadas de 80 e 90”.

A jornada de Easy Rider, com seus personagens conservadores, com suas comunidades alternativas marcadas pela aridez do campo e a violência de quem vê o diferente como uma ameaça, profetiza na morte de Billy e Wyatt a própria morte daquela efervescência contracultural. De fato, a contracultura hippie ruiu tão logo suas contradições e o preço cobrado por ela foram demais para aqueles que sonhavam com outro mundo possível, sem, no entanto, ter uma estrutura para construí-lo. E é justamente aí que está sua grandeza. Um legítimo balde de água fria despejado sobre a geração Woodstock, que naqueles três dias de festa acreditou estar com a faca e o queijo na mão para transformar o mundo. Depois de Easy Rider, ficou mais fácil para John Lennon decretar que o sonho havia acabado.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

31 Canções


Nick Hornby: ninguém transforma música pop em literatura tão bem quanto ele.

31 Canções

Se o inglês Nick Hornby tivesse se aposentado logo após publicar, em 1995, o seu segundo romance “Alta Fidelidade”, é bem provável que ele sentisse a mesma sensação daquelas pessoas que chegam ao final da vida com o sentimento de dever cumprido. Afinal, ele conseguiu traduzir em palavras tudo aquilo que gente como você e eu sentimos ao ouvir uma nova canção da banda preferida ou uma música obscura de um grupo tão obscuro quanto, seja dirigindo o carro por uma estrada deserta ou na companhia daquela pessoa especial ou refestelado no sofá de casa após um exaustivo dia de trabalho. Com uma linguagem pop, sem espaços para erudições e uma sinceridade cativante, o autor mostrou em “Alta Fidelidade” que ninguém com mais de 25 anos precisa sentir vergonha por consumir discos como se ainda estivesse na adolescência ou vergonha de, ao abrir o jornal, correr os olhos primeiro pelos cadernos de cultura ao invés de buscar as novidades do mundinho da política ou da economia.

Ao invés da aposentadoria, Nick Hornby – que já havia falado sobre a paixão por futebol em “Febre de Bola” – continuou publicando alguns livros que são considerados clássicos da literatura contemporânea, como “Um Grande Garoto” e “Como Ser Lega”l, que também figuraram na lista de best-sellers em vários países. Em comum, os protagonistas destes livros apresentam um tom despojado de levar a vida. E, mesmo que nas entrelinhas, a música pop está lá, ocupando espaços importantes na vida de cada personagem.

Porém, se nas últimas obras a música vinha ocupando um papel periférico, Hornby voltou a escrever sobre um dos seus assuntos prediletos em “31 Canções”, livro de ensaios que ganhou edição nacional caprichada em 2005 pela Editora Rocco. Longe de escrever um apanhado de resenhas, para esta obra o britânico elaborou mais uma de suas famosas listas: agora de 31 canções que, por um motivo ou outro, acompanharam-no de forma especial durante os seus primeiros 45 anos de vida. A partir de cada uma das canções, o escritor parte por caminhos diferentes para discorrer sobre as emoções, sentimentos, lembranças e esperanças que uma boa música pop é capaz de detonar naquelas pessoas que, como ele, desenvolveram um tipo estreito de relacionamento com esta forma de arte.

Uma das primeiras coisas que chamam a atenção na obra é a seleção eclética das canções. O autor não tem receio de escrever sobre a cantora Nelly Furtado com o mesmo entusiasmo que se refere à Patti Smith. Ou de assumir que não tem preferência entre uma versão do cantor Rod Stewart e a original de Bob Dylan. “Hoje em dia é difícil de imaginar, mas adorar Rod Stewart em 1973 era o mesmo que adorar o Oasis em 1994 ou Stone Roses em 1989”, afirma. Provavelmente, este despojamento em reunir canções tão díspares entre si – ou colocar em um mesmo nível músicos que assumiram uma aura quase erudita e aqueles que são a própria expressão daquilo que o pop tem de mais descartável – vem do fato de que, antes de ser um fã de artistas em particular, Nick Hornby é um apaixonado por música em geral.

”31 Canções” tem também momentos polêmicos e que devem desagradar principalmente os leitores mais jovens. Tal qual uma tia velha, o escritor tenta explicar a necessidade que um garoto tem, aos 15 anos, de ouvir rock o mais barulhento possível em detrimento a canções que sejam feitas por músicos sem bigode que costumam comer saladas ao invés de roedores. “Com o barulho, você não tem como errar muito. (...) Para mim, aprender a amar canções mais calmas (...) não tem a ver com ficar mais velho e sim com o fato de adquirir confiança musical”, escreve no capítulo dedicado a “Heartbreaker”, do Led Zeppelin. Por outro lado, para o delírio da garotada, Nick Hornby destrói aquelas pessoas de meia-idade que insistem em dizer que música boa era aquela feita há, no mínimo, 20 anos atrás.

E assim segue o livro, passando por canções de Bruce Springsteen, Beatles, Teenage Fanclub [duas, por sinal], Santana, Badly Drown Boy. E também por Mark Mulcahy, O. V. Wright, Röyksopp, Butch Hancock e Marce LaCouture... Para se interessar pelo livro você não precisa ter mais de 40 anos ou conhecer todas as músicas que foram tema dos ensaios. Não importa se a sua preferência é pelo rock tradicional, pelas complicações do mundinho indie ou pelos hits que entopem a programação das rádios. “31 Canções” é sobre o fato de se gostar de música pop. Se você gosta de verdade, este livro foi escrito para você.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

As reações psicóticas de Lester Bangs


As reações psicóticas de Lester Bangs

Quem acha que ler revista de rock é coisa pra adolescente só pode pensar assim por três motivos:

1. Não gosta de rock.
2. Não gosta de ler.
3. Não teve a oportunidade de ler um artigo do jornalista norte-americano Lester Bangs.

É verdade que Lester Bangs teve apenas um livro lançado até agora no Brasil, mas “Reações Psicóticas” é uma boa introdução à obra de um dos mais polêmicos jornalistas de rock da história. Lançado em 2005, "Reações Psicóticas" reúniu oito artigos de Lester Bangs e marcou a estréia da coleção Iê Iê Iê, da Editora Conrad, colocou os brasileiros em contato com as obras de alguns dos maiores nomes internacionais do jornalismo dedicado à música em todos os tempos. Aliás, este era um tipo de literatura que estava fazendo falta no país. Enquanto que nos países de primeiro mundo é enorme o volume de publicações relacionadas à música pop, as editoras brasileiras ainda estão dando os primeiros passos neste sentido. Contudo, é preciso dizer que o mercado editorial evoluiu muito, resultado de um maior número de editoras com um apelo mais underground, juntamente com as facilidades geradas pela Internet, que colocaram os rockers tupiniquins em contato com uma gama enorme de informações, as quais acabaram criando consumidores bem mais exigentes.

Voltando ao livro, "Reações Psicóticas" é a única obra que leva a assinatura de Lester Bangs publicada no Brasil. Nascido Leslie Conway Bangs em 1948, o jornalista morreu com apenas 33 anos, em 1982, provavelmente de uma overdose de remédios que ele vinha tomando como parte de um tratamento contra o alcoolismo. No fim da sua vida, Bangs não era mais o mesmo. Mas também o rock não era mais o mesmo. A energia e a truculência vivida pela música pop nos anos 60 e 70 estava dando lugar a uma espécie de pasticho potencializado pelo surgimento da MTV. Ao mesmo tempo, Lester Bangs também estava um pouco mais rebuscado. Seus textos já eram mais trabalhados, muito diferentes das suas primeiras matérias cheias de vitalidade e espontaneidade, qualidades que ao mesmo tempo lhe abriram e fecharam portas, como aconteceu quando ele foi expulso da revista Rolling Stone porque seus editores achavam que Bangs não tratava os músicos com o devido respeito. E não respeitava mesmo: "os heróis estão aí pra tomar porrada", escreveu ele em texto incluído em "Reações Psicóticas".

Lester Bangs começou a sua carreira em 1969 e durante os quase 14 anos em que atuou como crítico musical colaborou com publicações importantes como NME, Village Voice, Creem, Rolling Stone, entre outras. O seu estilo pode ser classificado como New Journalism, aquele em que o jornalista é tão importante quanto o seu entrevistado ou o objeto de sua matéria. Importante porque o repórter deixa de ser um mero observador e passa a atuar como personagem que se envolve na ação, deixando a questão da imparcialidade para os jornalistas comuns. Lester Bangs ainda pode ser enquadrado na categoria Gonzo, um sub-gênero do New Journalism inaugurado por Hunter S. Thompson (1937-2005), em que a percepção/ação do jornalista geralmente é alterada pelo uso de drogas, álcool, enfim, qualquer coisa que o faça ver a realidade de uma forma, digamos, diferente.

Esse, aliás, era o segredo de Lester Bangs: não o uso de drogas, mas a forma única com que ele percebia o mundo pop. "Se tem alguma coisa que eu odeio escutar de músicos é papo de música", afirma ele em outra passagem de “Reações Psicóticas”. Mas, se um crítico de música não escreve ou não conversa com músicos sobre música, que diabos ele faz? Atitude, meus amigos, é isso que importava para Lester Bangs.
Atitude dos artistas diante da música, da vida.

Com tudo isso, é evidente que o anúncio do lançamento de um livro de Lester Bangs no Brasil criou grande expectativa. Não vou enganar ninguém e dizer que já conhecia alguma coisa da obra do cara. Conhecia o mito, o nome da figura que os Ramones homenagearam com um verso na canção "It’s Not My Place" em 1981, o jornalista que era citado como referência por muitos críticos musicais brasileiros. E confesso que ao ler o texto que abre "Reações Psicóticas" fiquei decepcionado. A matéria "Astral Weeks", publicada em 1979 pela Stranded, fala sobre o disco homônimo de Van Morrison lançado em 1968. Aqui já encontramos o Lester Bangs literário, polido, amaciado de tanto dar e levar cacetadas durante os seus primeiros 10 anos de carreira. Neste texto ele escreve coisas refinadas como "não se trata de mística oriental ou visão psicodélica para além da maionese, tampouco é uma percepção baudelariana da beleza do nojo e do grotesco".

Mas esse desânimo durou apenas 19 páginas pois no texto seguinte dá pra começar a entender o porquê de Lester Bangs, 27 anos depois de sua morte, ainda ser tão lembrado. O texto é uma resenha sobre "Live at the Paramount", o álbum ao vivo do The Guess Who. Publicado na revista Creem em 1972, ele é um exemplo perfeito do modo como o autor escrevia sobre rock. "Porra, fodam-se os velhões vestindo seu bom gosto transado nas mangas de camisa: cate este disco e toque bem alto e seja o primeiro no seu quarteirão a se tornar um flagelo público", recomenda Lester Bangs. Já em texto sobre o Kraftwerk, também publicado pela Creem em 1975, ele traça a seguinte teoria sobre o sucesso do grupo alemão: "os alemães inventaram a anfetamina para os americanos (e para os ingleses - não podemos esquecer de Rick Wakeman e Emerson, Lake & Palmer) se destruírem, deixando assim o mundo da música pop aberto para a conquista definitiva".

Ainda fazem parte de "Reações Psicóticas" outros artigos sobre Elvis Presley, John Lennon, Jethro Tull e Iggy Pop. Mas, nenhum se compara com a matéria sobre Lou Reed. Publicada pela Creem em março de 1975, essa, definitivamente, não foi uma entrevista e sim uma luta entre o repórter e o músico com mais de duas horas de duração madrugada adentro, conforme o jornalista conta. O fato é que Lou Reed era o maior ídolo de Lester Bangs: "Lou Reed é meu herói principalmente porque ele representa as coisas mais fodidas que eu jamais conseguiria sequer conceber". Aí você lembra que isso foi escrito pela mesma pessoa que havia dito que os heróis estavam aí para tomar porrada e o que se tem em mãos é um artigo como este "Vamos Agora Louvar os Famosos Duendes da Morte, ou Como Enfiei o Pé na Jaca com Lou Reed e Fiquei Acordado". Logo nas primeiras páginas, Lester Bangs conta a sua preparação para entrevistar Lou Reed, conhecido pelo seu temperamento cruel com jornalistas. "É, o Bacana estava chegando à cidade, e eu estava pronto para a batalha. Entornei um scotches pelo gargalo e masquei valiums como se fossem jujubas (...) e armei-me com os meus insultos".

Este é o Lester Bangs que foi expulso da Rolling Stone, virou mito e que os brasileiros já podem conhecer. Infelizmente, "Reações Psicóticas" conta com um número reduzido de artigos (apenas oito em 134 páginas), embora tenha um ótimo prefácio assinado pelo escritor italiano Wu Ming 1. Ao terminar de ler o livro, fica a expectativa de que novos título de Lester Bangs ganhem a sua versão em português e que, quem sabe, alguma editora ainda se interesse em colocar nas livrarias do país uma edição nacional da biografia "Let It Blurt", de Jim DeRogatis. Com certeza, leitores interessados não vão faltar.