sábado, 17 de novembro de 2012

A “Autobiografia” de Neil Young



Nas últimas semanas li três biografias de dois artistas que estão entre os mais importantes da música:  Neil Young e Dave Grohl. Recém lançadas no país, as obras são recomendadíssimas para quem acompanha a cultura pop.

Os dois sobre Dave Grohl ficam para a próxima postagem. Primeiro, o livro escrito pelo próprio Neil Young, que aos 65 anos decidiu parar de beber e de fumar maconha, fatores que, como ele mesmo afirma, foram fundamentais para ele criar coragem e encontrar a motivação para escrever “Autobiografia”, título que a obra recebeu no Brasil.

Concordo que Neil Young é um artista pouco conhecido aqui pelo nosso país e muitos devem estar se perguntando “Neil quem?”. Perto de completar quase sete décadas de vida, o cantor é considerado por muitos como o último sobrevivente da geração hippie dos anos 60. Um sujeito que ainda acredita no lema paz e amor e que, mesmo com mais de 30 discos na carreira, ainda produz muito e tudo com muita qualidade. Só para provar, em 2012, acompanhado de seus parceiros de longa data da banda Crazy Horse, lançou dois discos: “Americana”, só de covers de canções “folclóricas” dos EUA, e agora em setembro, um álbum duplo só de inéditas, chamado “Psychedellic Pill”.

Para quem não conhece o trabalho de Neil Ypung, indico o disco “Greatest Hits”, lançado em 2004 e que conta com algumas das melhores canções que ele lançou entre as décadas de 60 e 90. Aí nesse disco você vai encontrar todos os motivos para amar ou odiar o cantor.


Quanto à “Autobiografia”, é importante dizer que muita gente desceu o pau no livro, afirmando que Neil Young se esquivou de muitos assuntos espinhosos da carreira ou deu pouca importância para episódios importantes, como a morte de ex-parceiros que se deixaram levar pelas drogas, ou a sacanagem de processar um jornalista que durante anos trabalhou junto com Neil Young para escrever a biografia do músico, que depois decidiu processar o autor.

Mas, entendo Neil Young. Afinal ,é da vida dele que ele escreve no livro e ele tem todo o direito de escolher o que pretende contar e o que e prefere deixar que outros biógrafos escrevam sobre ele. Escrito em forma de diário, sem nenhuma ordem cronológica ou elo de ligação entre os capítulos, o livro, para tristeza de muito, foge totalmente do clichê sexo, drogas e rock and roll. Claro que o cantor aprontou as dele ao longo da vida. Mas, no livro ele prefere deixar isso de lado, com exceção a um ou outro comentário discreto aqui e ali.

Ao invés disso, prefere falar de suas paixões sobre réplicas de trem, carros antigos, a respeito do seu projeto inovador de criar um carro elétrico que dispense gasolina ou o PureTone, que pretende garantir que os arquivos digitais de música tenham uma qualidade bem maior do que o MP3 atual.

Também fala muito sobre a família. É tocante a maneira carinhosa e apaixonada como sempre se refere à sua terceira esposa e companheira de décadas, Pegi Young, e também aos filhos, dois deles com paralisia cerebral.


Mas o bacana mesmo é quando o roqueiro fala sobre sua paixão pela música, que o levou a sair de casa ainda moleque no Canadá, viver quebrado nos primeiros anos de carreira, até ter o talento reconhecido no auge da contracultura californiana na década de 60. Primeiro com a sua antiga banda Buffalo Springfield e depois como artista solo, que ainda gravou discos maravilhosos com a já mencionada Crazy Horse e também como membro do quarteto Crosby, Stills, Nash & Young, além de uma infinidade de outros músicos que já gravaram com ele. Também fez coisas sem muita importância, principalmente no começo da década de 80, quando chegou a ser processado pela própria gravadora por “produzir música atípica de Neil Young”.

Para um senhor de quase 70 anos que chegou perto da morte em 2005 por causa de um aneurisma e que já teve que dar adeus a tantos amigos que partiram antes dele, é natural que Neil Young também faça reflexões do tipo “qual o sentido da vida”. Mas, mais surpreendente é que o cara não cansa de olhar para o futuro, sempre pensando no próximo projeto, no que ainda está por vir, para a sorte dos fãs...

Editora: Globo
Ano de Lançamento: 2012
Número de páginas: 408
Preço médio: R$ 50

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Livro resgata os 180 anos da imigração alemã no Paraná




A historiografia paranaense acaba de ganhar um importante título que resgata, de forma inédita, a trajetória de um povo que teve participação decisiva na ocupação e desenvolvimento de várias regiões do Estado do Paraná. Escrita de forma conjunta por sete autores, “Imigração Alemã no Paraná – 180 anos: 1829 – 2009” é uma das principais publicações já produzidas sobre o tema da colonização do Estado e passa a ser obra de referência a respeito da história do Paraná.

A obra nasceu a partir das comemorações de 180 anos da imigração alemã no Paraná, que se estenderam ao longo de 2009. Grande parte das celebrações foi apoiada e coordenada pela Comissão de Festejos dos 180 Anos da Imigração Alemã no Paraná, cujo calendário de eventos comemorativos iniciou em 19 de fevereiro daquele ano com a maior sessão solene já realizada na Assembleia Legislativa do Paraná, que contou com a presença de autoridades brasileiras e alemãs, entre demais convidados. Diante de tamanho entusiasmo e repercussão, surgiu a proposta de publicar o livro, que agora está sendo lançado, cuja organização é de Harto Viteck, que foi o secretário executivo da Comissão de Festejos.

A publicação, com cerca de 400 páginas, está dividida em sete capítulos principais. As professoras Divinamir de Oliveira Pinto e Marli Uhlmann Portes escreveram sobre “Rio Negro: o berço da colonização alemã no Paraná”, no qual relatam a vinda dos imigrantes alemães originários da região de Trier e aldeias vizinhas, que embarcaram em junho de 1828 da Europa rumo ao Paraná, onde se estabeleceram nas terras férteis do vale do rio Negro.

O professor Marlon Ronald Fluck assina o capítulo “O núcleo alemão em Curitiba”, que começou a se desenvolver em 1833 com  alemães saídos da Colônia Dona Francisca (atual região de Joinville) e imigrantes alemães vindos da Europa. Ele se distingue dos demais núcleos do Estado por ocorrer no espaço urbano e por ser uma colonização espontânea, não oficial.

“Teuto-russos e sua história: da esperança à decepção” é o título do capítulo desenvolvido pelo professor Estevão Müller, no qual retrata as perseguições sofridas pelos povos de descendência alemã na Rússia, o que motivou a vinda para o Brasil, onde o imperador D. Pedro II decidiu recebê-los, garantindo a naturalização plena e apoio para a instalação das colônias de imigrantes, inclusive no Paraná. O mesmo autor também escreveu sobre “A história dos bucovinos no Paraná”, alemães que emigraram da Bucovina, região leste da Romênia, para a cidade de Rio Negro a partir de 1887, quando também passaram a ocupar outros espaços, como na cidade da Lapa.

“Menonitas alemães no Paraná” é o assunto desenvolvido pelo historiador Alfred Pauls. Os menonitas, que têm suas origens no movimento da Reforma Protestante da Igreja, no século XVI, na Europa, fugiram da Rússia nas primeiras décadas do século XX., por causa do regime violento de perseguições  imposto pela Revolução Comunista. No Paraná, os primeiros menonitas chegaram a partir de 1933, quando adquiriram a Fazenda Cancela, em Palmeira, onde criaram a famosa Colônia Witmarsum. Mais tarde famílias menonitas  também se estabeleceram em Curitiba e Ponta Grossa.

A professora Cláudia Portellinha Schwenberger é a autora do capítulo que trata dos “Pioneiros alemães em Rolândia”, que começaram a chegar à cidade em 1932, em um processo que foi intensificado a partir do ano seguinte, quando muitos alemães imigraram da Europa, temendo a ascensão de Hitler e a perseguição nazista contra políticos, católicos e judeus e demais cidadãos que não apoiassem o regime.

O professor Marcos Nestor Stein assina o capítulo “A Colônia Entre Rios no município de Guarapuava”, surgida em 1951, resultado do processo da diáspora ocorrido nos núcleos alemães do Leste Europeu após o final da Segunda Guerra Mundial, quando 500 famílias de refugiados, posteriormente designados de Suábios do Danúbio, vieram ao Paraná.

O último capítulo também leva a assinatura do professor Marcos Nestor Stein, em parceria com o professor Valdir Gregory. O tema por eles desenvolvido é “Migrações e germanidade: Oeste do Paraná e Marechal Cândido Rondon”. O tópico traz narrativas e discussões a respeito do povoamento desta região do Estado a partir da década de 1950, época em que diversas madeireiras e colonizadoras atuaram nesse território, estimulando a vinda do Rio Grande do Sul e Santa Catarina de migrantes descendentes de alemães.

Conforme Harto Viteck, além de marcar a passagem da data histórica, tem a tarefa de ser um referencial para que as gerações atuais e vindouras conheçam e reverenciem a memória dos antepassados, que produziram, junto com outras valorosas etnias, as transformações profundas que fazem do Paraná um dos Estados mais importantes do país.

Nesse sentido, o organizador acredita que a obra estimula ainda a reflexão e propõe um desafio. “Esperamos que a história contada neste livro sirva de exemplo e ação missionária. Se os nossos antepassados conseguiram superar grandes obstáculos e realizar tanto com tão pouco, o que podemos nós fazer de bem a nós mesmos e em favor da humanidade, tendo as facilidades da tecnologia tão avançada de hoje?”, questiona.

A publicação foi financiada com recursos da Lei de Incentivo à Cultura, com patrocínio da Souza Cruz, Copel e Caminhos do Paraná, numa realização do Ministério da Cultura e do Governo Federal, com apoio da Quixote Art & Eventos e da Editora Germânica. A obra, que não está sendo comercializada, é destinada à instituições de ensino e pesquisa, bibliotecas, museus, autoridades e órgãos de imprensa.

Para saber mais sobre o projeto, acesse o site www.imigracaoalemanoparana.com.br.


Lançamento do livro “Imigração Alemã no Paraná – 180 anos: 1829 – 2009”

09/11 - 20 horas - Marechal Cândido Rondon - Casa Gasa

19/11 - 19h30m - Curitiba - Goethe Institut

20/11 - 20 horas - Rio Negro - sede social da OAB-Rio Negro

21/11 - 20 horas - Lapa - Teatro São João

28/11- 20 horas - Rolândia - Jugendheim (Igreja Luterana)

(*) Os lançamentos na Colônia Entre Rios (Guarapuava) e Colônia Witmarsum (Palmeira) ainda serão agendadas.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Eu quero Macunaíma para mascote da Copa!


Um tatu-bola deve ser anunciado no próximo domingo (16), durante o programa Fantástico – da Rede Globo -, como a mascote da Copa de 2014, no Brasil. A informação foi postada ontem (11) no Portal da Copa, com a justificativa de que a ideia foi encampada por uma ONG cearense chamada Associação Caatinga.

“Segundo a organização, o animal é uma espécie típica do Brasil e que possui a habilidade de curvar-se sobre si para se proteger de ameaças externas, assumindo a forma de uma bola. O objetivo é que a iniciativa contribua na proteção e preservação do tatu-bola, espécie de tatu mais ameaçada do país”, destaca a nota.

O sujeitinho abestado, que ainda não recebeu um nome, será esse aqui:


Mesmo sensibilizado com o risco de extinção do bichinho “Tolypeutes tricinctus”, penso que os brasileiros mereciam ter na Copa que irão sediar uma mascote mais bonita, mais alegre, colorida e que represente bem o Brasil, vendendo uma imagem simpática para o mundo. Afinal, o objetivo de trazer uma Copa para o país é esse: atrair dinheiro, turistas, investimentos e posar de bacana para os gringos.

Tatu-bola, ora bolas...

Acredito que cairia muito bem algumas aves ou outros bichos da nossa fauna, bem mais atrativos que o sujo e feio tatu-bola. Taí o filme “Rio”, que fez sucesso em todo o mundo com a história de uns passarinhos coloridos curtindo umas aventuras “muito loucas” pela Cidade Maravilhosa.

Tatu por tatu, se fosse para escolher um que representasse bem o país, então sugiro à Fifa que mude a mascote até o próximo domingo para um verdadeiro símbolo do Brasil, o caipira Jeca Tatu, personagem do escritor Monteiro Lobato, que pode ser representado com a cara do ator Mazzaropi mesmo, que estrelou filme de sucesso em 1959:


Já se a ideia é agradar um grande número de brasileiros (embora desagrade outra gigantesca massa também), sugiro mais um personagem de Mazzaropi como mascote da Copa de 2014: “O Corintiano”, do filme de 1966!


Mas, pensando melhor, a legítima cara do Brasil, a representação ideal de como os estrangeiros comuns vêem o nosso povo, o DNA nacional e mascote definitiva deveria ser ele, o “Macunaíma”, o personagem do livro de Mário de Andrade de 1928 (também levado ao cinema, interpretado por Grande Otelo).

Eu quero Macunaíma, o herói sem virtude e o seu clássico bordão “ai que preguiça!”, para mascote da Copa!!!


E, como toda Copa que se preze precisa sempre de um bom tema, a minha sugestão é a música “Inútil” do Ultraje à Rigor, espécie de hino irônico do processo de redemocratização do país nos anos 80, e que permanece tão atual!

Dúvida? Saca a letra e cante junto!!!

A gente não sabemos
Escolher presidente
A gente não sabemos
Tomar conta da gente
A gente não sabemos
Nem escovar os dente
Tem gringo pensando
Que nóis é indigente...


"Inúteu"!
A gente somos "inúteu"!


A gente faz carro
E não sabe guiar
A gente faz trilho
E não tem trem prá botar
A gente faz filho
E não consegue criar
A gente pede grana
E não consegue pagar...


"Inúteu"!
A gente somos "inúteu"!


A gente faz música
E não consegue cantar
A gente escreve livro
E não consegue publicar
A gente escreve peça
E não consegue encenar
A gente joga bola
E não consegue ganhar...


"Inúteu"!
A gente somos "inúteu"!
"Inúteu"!

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Aconteceu em Woodstock



Acredito que praticamente todo mundo ouviu falar sobre o Festival de Woodstock, realizado de 15 a 17 de agosto de 1969 nos Estados Unidos e que reuniu cerca de 500 mil pessoas e grandes bandas de rock da época. Se não o maior, certamente o mais famoso festival de música em todos os tempos. 

Marco da contracultura hippie, a memória do evento já foi explorada de diversas formas através do cinema, de discos e livros. Assim, com tanto que já foi dito e visto sobre Woodstock nas últimas quatro décadas, havia alguém que pudesse trazer algo de novo? Por mais impossível que parecesse, havia sim e esse alguém se chama Elliot Tiber.

Embora até recentemente ele não fosse muito lembrado quando se falava sobre a história do festival, o sujeito foi peça fundamental para que Woodstock existisse. Recentemente, deu mais uma contribuição ao legado do evento ao publicar em 2007 o livro autobiográfico “Aconteceu em Woodstock”, que chegou ao Brasil através da editora Best Seller em 2009, mesmo ano em que virou filme homônimo dirigido por Ang Lee

Foi o acaso quem conspirou para que Elliot Tiber tivesse sua vida completamente transformada da noite para o dia em julho de 1969. Grande parte da “culpa” por essa mudança é do hippie empreendedor Michael Lang, que convenceu dois jovens milionários a bancarem um grande festival de música, oficialmente chamado “Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz e Música". 


O lugar escolhido foi a pequena cidade de Woodstock, a pouco mais de uma centena de quilômetros de Nova York. Contudo, menos de dois meses antes da realização do evento, os moradores de Woodstock decidiram caçar a licença para o festival, temendo o que um bando de hippies, drogados, promíscuos – e sabia Deus lá que outros tipos mais de degenerados – acabassem com a cidade.

Ao ler no jornal que os organizadores do festival estavam procurando outro lugar para realizá-lo, Elliot Tiber impulsivamente ligou para Michael Lang dizendo que poderia transferir o festival para onde ele morava, a pacata cidade de Bethel,a cerca de 130 quilômetros de Nova York. 

Até dar este telefonema, Elliot Tiber era um rapaz de 34 anos que dividia sua vida entre: de segunda a sexta-feira trabalhar como designer de interiores em Nova York e, nos fins de semana, ajudar a administrar o El Monaco, o falido hotel de seus pais em Bethel. Mas tudo isso ficou para trás depois do contato com Michael Lang.

Em “Aconteceu em Woodstock”, Tieber retrata aquilo que viu e viveu nos cerca de 45 dias de preparação para o festival. As milhares de pessoas que passaram a chegar em Bethel para curtir e ajudar no que precisasse na preparação do festival, as brigas dele e dos organizadores com a parte do vilarejo contrária a realização do evento, a frenética atividade sexual que rolava, as “viagens” psicodélicas, as previsões iniciais de um público de 25 mil pessoas sendo superadas sempre mais e mais, até um total de 500 mil pessoas que compareceu aos shows... 

De várias formas, logicamente esses eventos acabaram por mudar a vida frustrada da família Tieber (“a maldição dos Tieber!”, como define o autor), que de uma hora para outra viu seus eternos problemas financeiros resolvidos com a enxurrada de dólares que todo o festival levou até Bethel. No âmbito pessoal de Elliot, ele foi completamente transformado pelo espírito “paz e amor” e “faça amor não faça guerra” e, a maior mudança de todas para ele, a própria aceitação da sua homossexualidade.

“No começo, não percebi o que estava acontecendo. Afinal, papai estava ficando velho. Mas, um dia, ele sorriu pra mim, e eu percebi que ele sabia que eu era gay e que ele me amava e estava orgulhoso de mim. (...) As coisas estavam mudando tão rápido que eu não conseguia entender quem eu estava me tornando. Meu antigo eu, quem quer que essa pessoa tenha sido, estava se dissolvendo diante de meus olhos. Eu estava mais tranquilo, seguro e em paz. Todos os aspectos de minha vida haviam mudado no verão de 1969”, conta.


Ao narrar em livro a própria mudança vivida por ele derivada do Festival de Woodstock, Elliot Tiber consegue mostrar sobre os mais diversos aspectos o porquê desse evento ser tão lembrado ainda nos dias de hoje. Certamente foi um marco da contracultura norte-americana que na época se via envolvida na luta contra a Guerra do Vietnã e ampliava os horizontes do feminismo, da revolução sexual, dos direitos humanos, da luta contra a discriminação racial, as experimentações perigosas com drogas. 

Definitivamente, tempos frenéticos e deliciosamente embalados pela trilha sonora de algumas das bandas de rock mais geniais que já existiram e que o Festival de Woodstock teve a sorte de registrar... 

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LEIA entrevista de Elliot Trieber para o G1.


sábado, 12 de maio de 2012

"Ya Know?" mostra o melhor e o pior de Joey Ramone



Após 10 anos de espera, os fãs dos Ramones finalmente podem curtir o tão aguardado segundo álbum solo do vocalista Joey Ramone, morto em 2001. Pela lógica, o disco já deveria ter saído há muito tempo. Porém, brigas intermináveis pelos direitos das gravações se arrastaram por muitos anos. Reza a lenda que Mickey Leigh, irmão do cantor, e o produtor Daniel Rey sabotaram-se mutuamente no duelo pelo comando do projeto.

Verdade ou não, o fato é que “Ya know?”, o nome do disco que tem lançamento previsto para 22 de maio, mas que vazou esta semana na internet, foi todo capitaneado por Mickey Leigh. Para juntar as peças de gravações esparsas registradas sem muito método por Joey Ramone ao longo da sua carreira, foi recrutado o produtor Ed Stasium, que dirigiu ou foi engenheiro de som dos Ramones em discos clássicos como “Road to Ruin” (1978) e “End of the Century” (1980). Além dele, músicos amigos ou fãs de Joey, como Lenny kaye, Joan Jett, Steven Van Zandt, entre outros, também colaboraram com o projeto.

“Ya know?” é bastante diferente de “Don’t Worry About Me”, o primeiro disco solo do cantor – também lançado postumamente, em 2002. Embora não tenha vivido para realizar o sonho de ver o seu primeiro trabalho individual chegar às lojas, Joey teve envolvimento direto com ele. Escreveu as canções a partir do conceito de criar um álbum, dando a unidade necessária para aquele conjunto de canções. Além de musicalmente, liricamente “Don’t Worry About Me” refletia o momento que o cantor vinha passado com o fim dos Ramones após 22 anos de carreira e a luta contra o câncer, que lhe tirou a vida.


Neste novo disco, fica clara a irregularidade que dá uma cara mais de coletânea do que de um álbum para “Ya know?”. Isso transparece claramente na qualidade das 15 “novas” canções. O resultado é que ao ouvir o disco ocorre um estranhamento com o que sai das caixas do som. E a pergunta que surge é: seria desse jeito que Joey gostaria que este disco soasse? Como a grande maioria das canções foram construídas em cima de gravações deixadas inacabadas pelo cantor, muito do que se ouve é o resultado mais das inspirações e suposições de Mickey Leigh e Ed Stasium do que da criatividade Joey Ramone.

Para quem esperava ouvir neste segundo disco solo algo próximo dos Ramones, “Ya Know...” decepciona bastante. É um disco de rock, não de punk ramônico. Aceitando isso e varrendo para debaixo do tapete as expectativas alimentadas por uma década, resta ao fã separar das 15 canções aquilo que é joio e o que é trigo.

O disco abre lindamente com “Rock and Roll Is The Answer”, lançada como single em abril no Record Store Day. Desde já um hino de rock, a faixa é a que mais traz o selo de qualidade JOEY RAMONE. Outras canções que se aproximam bastante disso são “I Couldn’t Sleep”, “What Did I Do to Deserve You” e “Seven Days of Gloom”. São de longe as quatro melhores faixas.

Já canções como “Going Nowhere Fast”, “New York City”, “Eyes of Green”, “Party Line”, “21st Century Girl” e “Cabin Fever” sofrem com a interpretação meio monótona com que Joey as registrou, o que dá um contraste grotesco com o excesso de produção a elas dedicada. Uma compensação, talvez, para salvar as canções.

Também há baladas, que Joey tanto amava. “Make Me Tremble”, demo descartada na época do disco “Mondo Bizarro” dos Ramones, cativa de primeira com seus “la la las”. “Waiting for the Railroad” é broxante. Joey cantando um country rock sobre ele estar esperando um trem no meio do nada para ir para casa não convence ninguém. Já a releitura de “Life’s a Gas”, canção monstruosa do disco de despedida dos Ramones “Adios Amigos!”, fica reduzida a um inseto nessa versão acústica que encerra “Ya Know?”. Por sua vez, “Merry Christmas”, sucesso do álbum “Brain Drain” e que já havia sido lançada como single solo de Joey Ramone, só que toda retrabalhada com arranjos natalinos, é mera curiosidade.



Na sua jornada promocional para promover o disco, Mickey Leigh não cansava dizer que “Ya Know?” era de longe um dos melhores trabalhos feitos por Joey. Não é bem por aí. Tamanha animação dele é compreensível, afinal, foi duro dar vida a essas canções que, de outro modo, ficariam para sempre esquecidas. Mas, daí a pensar que este disco é fantástico é coisa impossível até para o fã mais fanático de Joey e do Ramones.

É um disco importante, claro. Afinal, revela algumas facetas que Joey nunca quis ou não pode mostrar na sua carreira com os Ramones. Importante também por instigar a pensar no que o artista estaria fazendo se ainda estivesse vivo.

“Ya Know?”, assim como todos os demais discos solo dos outros Ramone, confirma a tese de que, sozinhos, eles patinavam com suas incompletudes artísticas. O lado bom disso é que leva os fãs a lembrarem o quanto os Ramones, enquanto uma “família” de malucos reunidos em uma banda, eram definitivamente os fodões do pedaço...

sábado, 21 de abril de 2012

21 de abril: Dia da Loja de Disco


Surgido na Inglaterra em 2007, o Record Store Day (Dia da Loja de Disco) chega hoje à sua quinta edição. Criado em um momento de forte crise da indústria fonográfica, resultado da disseminação da troca gratuita de arquivos MP3 na internet, o Dia da Loja do Disco se tornou uma espécie de marco de resistências das empresas que insistem em manter as portas abertas vendendo CD’s e vinis para um público restrito.

Mas a situação já esteve pior. Dados mostram que nos últimos anos está havendo uma retomada do comércio de discos. E o principal responsável por isso, quem diria, são os vinis, os antigos bolachões, que a partir da metade dos anos 90 quase desapareceram das lojas em todo o mundo. Só não morreram por causa de um minguado grupo de aficionados que jamais trocou a qualidade de áudio e também visual do vinil pelo CD.

Cada vez mais importante, o Dia da Loja de Disco se tornou realmente uma data especial para músicos e fãs de música, principalmente nos Estados Unidos e Inglaterra. Nestes dois países, centenas de artistas preparam lançamentos especiais e limitadíssimos (a maioria em vinil) para serem vendidos especialmente na data.


Este ano, foram preparados 417 lançamentos para o Dia da Loja do Disco, contra 250 no ano passado. E um detalhe: todo esse material é comercializado em lojas independentes. Nada de megastores ou coisas do gênero. Além disso, é comum artistas realizarem na data sessões de autógrafos e pequenos shows em lojas. Tudo isso para despertar novamente o hábito das pessoas frequentarem as lojas de discos ou despertarem a curiosidade daqueles que jamais pisaram em uma.

No Brasil, ainda não existe nada parecido. Porém, o mercado de discos de vinil também tem crescido aos poucos. Tanto que há cerca de dois anos foi reativada a única fábrica, a Polysom, no Rio de Janeiro. Esta semana, por exemplo, o Los Hermanos anunciou que toda sua discografia será relançada exclusivamente em vinil, em uma caixa pra lá de caprichada.

Na nossa região, o vinil também é comemorado. Hoje (será coincidência?), a CATVE FM de Cascavel anunciou o seu novo programa. Trata-se do Programa Clube do Vinil, que promete levar ao ar colecionadores para falar sobre seus vinis preferidos (veja aqui).

E você, sabe como é feito um disco de vinil?  

Veja este vídeo preparado exclusivamente pela turma do Record Store Day, que mostra todo o processo, desde a prensagem dos bolinhas de vinil até o empacotamento final do disco. Vale a pena conferir!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Layne Staley e o clichê patético do rock star


“Mas nós somos nossa própria raça superior/ Os chapados, os viciados e os loucos”

- Layne Staley (1967-2002), na canção Junkhead


Hoje, 05 de abril, completam-se 10 anos da morte de Layne Staley. Para os mais novos ou para quem já é chegado na casa do 40 para cima, provavelmente um Zé Ninguém. Mas, quem era moleque no início dos anos 90 e curtia rock, logo saca a importância do sujeito.

Staley foi o vocalista do Alice in Chains, grupo que ao lado de Nirvana e Pearl Jam formou a tríplice coroa do grunge, a última grande cena do rock que nasceu em Seattle para ganhar o mundo no começo dos anos 90. A banda gravou apenas três discos, dois EPs e um acústico MTV.

Com uma mistura de hard rock clássico com Black Sabbath, com destaque para a voz de timbre forte e marcante de Staley e para os riffs poderosos de guitarra de Jerry Cantrell – que juntos dividiam os créditos das composições –, o Alice In Chains teve nas drogas pesadas o seu combustível criativo para escrever algumas das canções mais pé-na-fossa de todos os tempos.

Contudo, se as drogas levaram o Alice in Chains ao estrelato, elas também cobraram o preço e levara a banda para lona numa velocidade impressionante.

Primeiro foi o baixista da formação original, Mike Starr, que foi chutado para fora do grupo logo após a gravação de “Dirt”, de 1992. A razão: o vício dele em heroína (Mike Starr morreu em decorrência das drogas em 2011). Depois do baixista, a porca torceu o rabo para os lados de Layne Staley. Não que antes disso ele não fosse usuário. Só que por um tempo o cantor segurou a onda, até ser devastado pela heroína.


“Dirt”, o melhor trabalho do Alice in Chains, é um disco sobre depressão e drogas, as duas coisas que sempre acompanharam o vocalista desde a adolescência. Nascido em 1967, ainda criança ele assistiu a separação dos pais, a partir de quando passou a ser criado somente pela mãe e irmãs. Daí para frente a história dele é praticamente o clichê do garoto que encontrou nas drogas e na música o seu ponto de fuga.

Deu que o Alice in Chains se tornou famoso, mas nem isso serviu para alegrar um pouco mais a vida do vocalista. Mais dinheiro, mais drogas! E quanto mais drogas, maior o buraco. “Down in a Hole” (Fundo do Poço) é o título de um canção de “Dirt”, na qual um desalentado cantor resmunga: “Dentro de um buraco e eu não sei se posso ser salvo/ Veja meu coração, eu o decorei como um túmulo”. Apenas dois versos sombrios entre os muitos espalhados pelo disco que ajudaram a construir a (má) fama – no bom sentido - de “Dirt”.

O último disco de estúdio do grupo, que levava apenas o nome da banda saiu em 1995. Não que fosse ruim, mas já não tinha o mesmo brilho dos trabalhos anteriores. Devido aos vícios de Layne Staley, a banda praticamente não se apresentava mais ao vivo. Exceção feita poucas vezes, como no dia 10 de abril de 1996, quando o grupo se reuniu para gravar o seu “Unplugged MTV”. Uma excelente performance do cantor, para surpresa dele e colegas de banda.


Daí em diante foi só ladeira abaixo. A banda entrou em um ostracismo sem tamanho. Cada vez mais dependente, Layne Staley foi vivendo sempre mais e mais isolado. Reencontrou o pai após anos, com quem então, além de ter começado a dividir o apartamento, também passou a compartilhar seringas para usar drogas.

Nessa degradação, Layne Staley viu o pai morrer em razão dos vícios. Depois a namorada pelo mesmo motivo.

O corpo do cantor foi encontrado pela polícia no dia 20 de abril de 2002. Segundo a necropsia, a data provável da morte foi 15 dias antes, em 05 de abril. Recluso, as pessoas só deram falta dele quando um cheiro desagradável começou a sair do apartamento do músico e o advogado dele estranhou que há vários dias o artista não movimentava a conta bancária.

A vida de Layne Staley é o clichê patético do rock star. Pobre com talento, fica famoso, se afunda nas drogas e morre. Basta citar Kurt Cobain, “colega” do grunge, que coincidentemente também se matou num dia 05 de abril, porém oito anos antes da dose fatal que apagou o vocalista do Alice in Chains para sempre.

Foi-se o homem, fica sua marca. E Layne Staley deixou a dele. A principal dela é “Dirt”. Um disco um tanto quanto esquecido pelas novas gerações. Mas não por isso menos clássico.

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(*) Em 2009 o Alice in Chains voltou a excursionar com um novo vocalista, Willian Duvall, e um novo disco, "Black Gives Way to Blue".

sábado, 24 de março de 2012

A vida nos bosques ou como tentar ser alguém melhor


"Por mais mesquinha que seja a sua vida, aceite-a e viva-a; não se esquive a ela nem a trate com termos duros. Ela não é tão ruim quanto você. Ela parece tanto mais pobre quanto mais rico você é. Quem vê defeito em tudo verá defeitos até no paraíso. Ame sua vida, por pobre que seja”.

Um livro que todo mundo deveria ler. Publicado em 1854, as ideias presentes em “Walden: ou a vida nos bosques”, do estadunidense Henry Thoreau (1817-1862), talvez sejam hoje ainda mais atuais do que na época em que foram escritas.

Ler essa obra é ser nocauteado da primeira à última página, tamanha a força dos pensamentos e quantidade de verdades (que poucos ousam dizer ou têm sequer a inteligência de pensar!) que ele despeja para cima do leitor. Sem ter como ou sem querer se defender, o leitor se entrega a uma leitura que a cada página estimula qualquer sujeito sensato a tentar ser uma pessoa melhor e mais feliz, por meios bem diferentes do que é entendido como o convencional.

Nas primeiras páginas ele já define o tom do livro:

“A grande maioria dos homens leva uma vida de calado desespero. O que se chama resignação é desespero confirmado.”


Thoreau nasceu na cidade de Concord, no Estado de Massachussets. Estudou em Harvard, trabalhou na fábrica de lápis da família – onde desenvolveu uma fórmula que poderia tê-lo deixado rico, destino pelo qual ele não demonstrou o menor interesse. Também foi topógrafo e professor por um breve período. Cansou de tudo e, entre 1845 e 1847, foi morar sozinho em uma cabana de 6 m² construída por ele mesmo às margens do Lago Walden, na própria Concord.

Amante da natureza (é considerado um dos mentores do movimento ecologista) e influenciado por filosofias orientais, o escritor era um crítico da sociedade. Não conseguia entender como alguém poderia se “matar” trabalhando para acumular bens, ter sempre roupas novas paras seguir a moda, encher a pança com comida suficiente para alimentar um elefante, almejar um maior status social...

“É uma vida de tolo, como vão descobrir quando chegarem ao final dela, ou talvez antes.”

“Walden” é o resultado desses 24 meses que Thoreau viveu no meio da mata. A força motivadora era provar para os outros e para si que ninguém precisa mais do que um tiquinho de alimento, água, umas poucas peças de roupa, um abrigo, meios para acender uma fogueira e a companhia de livros clássicos. Com apenas isso e com esporádicas visitas à cidade do Concord, o escritor passou muito bem, tanto que sobreviveu para escrever o livro.

Certamente um excêntrico, muitos podem pensar, que é como os habitantes de Concord julgavam ser Thoreau. Ele tinha consciência disso, mas não dava a mínima. Thoreau se sentia bem na companhia das árvores, dos animais, dos peixes e do lago Walden, que ele acabou conhecendo como se fosse a palma de sua mão.

“Acho saudável ficar sozinho a maior parte do tempo. Ter companhia, mesmo a melhor delas, logo cansa e desgasta. Gosto de ficar sozinho. Nunca encontrei uma companhia mais companheira do que a solidão.”


“Walden” se estende por 18 capítulos, mas são o primeiro, “Economia”, e o segundo, "Onde e para que vivi", que considerei os mais importantes. São neles que Thoreau abre a nossa cabeça-dura com suas críticas ao consumismo débil (que tanto amamos!), à hipocrisia travestida de filantropia, às escolas e universidades que ensinam apenas frivolidades, ao desenvolvimento tecnológico meio sem sentido que segue frenético em busca de novidades que no fundo não servem pra nada.

Por outro lado, ensina-nos a amar a natureza, tudo isso depois de nos jogar na cara o quanto somos idiotas por perder tempo trabalhando para comprar coisas que não precisamos e por deixarmos em último plano o desenvolvimento espiritual e o verdadeiro desfrutar da vida.

Nos demais capítulos, ele se dedica a descrever seus dias vivendo nos bosques, suas observações sobre as colheitas e os animais, devaneios diversos que resultam sempre em mais ensinamentos aos seus leitores.

"Nossa vida toda é alarmantemente moral. Nunca há um instante de trégua entre a virtude e o vício. A bondade é o único investimento que nunca falha. Na música da harpa que freme por todo o mundo, é a insistência nisso que nos faz vibrar."

Impossível imergir ileso da leitura de “Walden”. Damos razão a quase tudo para Thoreau, mas também nos damos conta de como é difícil nos desprender das coisas materiais. Até parece que elas fazem parte do nosso corpo. Mas penso que vale a pena e acredito que isso deve ser um exercício praticado no dia-a-dia, para o bem de cada de cada um...

sábado, 17 de março de 2012

“A vida fala sobre sexo em qualquer situação”


Por CRISTIANO VITECK
Publicado no O Presente


Sexo. A simples palavra já basta para chamar a atenção das pessoas. Afinal, o sexo, nos seus mais amplos sentidos, está presente no dia a dia. Contudo, ele ainda está cercado de tabus, dúvidas, medos e vergonhas, embora sempre gere curiosidade e atração. E quando o sexo entra pela porta da casa, o pânico quase toma conta dos pais quando uma criança pergunta a respeito. A psicóloga, sexóloga e professora doutora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Eliane Rose Maio, trabalha com o tema há 28 anos. Autora do livro “O Nome da Coisa”, resultado da sua tese de doutorado sobre os nomes vulgares ou eufemismos dados aos órgãos sexuais masculino e feminino, Maio participou na sexta-feira (16) de palestra no Colégio Rui Barbosa, em Marechal Cândido Rondon, sobre “a importância do diálogo sobre sexualidade no contexto familiar”. Neste sábado (17), também realiza aula magna na Falurb. Em entrevista ao Jornal O Presente ela tratou de temas diversos sobre o assunto e garantiu que, mesmo cinco décadas depois da chamada revolução sexual, as pessoas ainda não aprenderam a lidar com o sexo de modo natural.

O sexo está presente em todos os meios e lugares. Então, por que é tão difícil o diálogo sobre sexo entre pais e filhos?

São os próprios bloqueios dos pais quando foram crianças. E eles vêm carregando esses bloqueios, pois com certeza não tiveram educação sexual, e trazem isso para os filhos. A palavra mais digitada no Google é “sexo” ou “sex”. Querendo ou não, a vida fala sobre sexo em qualquer situação. Claro, culturalmente de maneiras diferentes. O que para nós é uma expressão sexualizada, em outra cultura não é. E sexo vende muito. Se for olhar um outdoor de calça jeans, vai ter um casal sexualizado, semi-nu. A gente presta pouca atenção na calça jeans, pois há uma cena erotizada. Em qualquer lugar tem sexo, mas dentro da família não. O sexo está em casa, mas quando constitui-se uma família tradicional, fica velado, (o sexo) ali não acontece. Tem que se falar. As pessoas acreditam que isso tira a inocência das crianças. Não, isso tira a ignorância. É o contrário do que os pais pensam. Omite-se o tema sexo dentro de casa. E aí a criança vai aprender onde? Na rua, e a rua deseduca.

Como os pais podem romper esse bloqueio e quando é a hora de falar sobre sexo com os filhos?

Há várias maneiras de se educar sexualmente de forma inadequada. A primeira é a forma do silêncio e essa não dá mais nos dias de hoje. A segunda é aquela quando a criança pergunta o que é sexo e o pai responde que ainda é muito cedo para ela saber e que, quando chegar a hora, ele vai explicar. Quando a criança perguntou é que é a hora! A outra forma é a técnica da escapada, quando os filhos perguntam sobre sexo e os pais ficam trocando o controle remoto ou mudam de assunto. Também há a da pressa, quando explicam gaguejando. A outra é da anatomia: sexo é coisa de gente grande para fazer nenê. Eu digo sempre para a família: mostre-se perguntável. Esteja aberta ao diálogo a todo momento. Procure ajuda, há livros, palestras, tem sites importantes e busque ajuda com profissionais. A escola tem que fazer esse trabalho também, mas cientificamente. Só que os professores também têm seus interditos, não sabem trabalhar com as crianças e vão empurrando com a barriga. Educar sexualmente é como educar para qualquer outra coisa.

Os pais têm receio de que ao falar de sexo estariam incentivando o início da vida sexual?

Tudo o que eu escuto é isso. Ninguém incentiva nada se tiver clareza, confiança e respeito mútuo. A criança tem fases. De zero a um ano e meio é uma fase. De um ano e meio a três é outra e de três a seis é a fase fálica, quando a libido está nos órgãos genitais. Libido é um instinto de vida, instinto sexual, não erótico. A criança ama manipular o pênis ou a vulva como gosta de colocar o dedo no nariz, na boca, orelha. É fase. As crianças percebem que os adultos lidam inadequadamente quando elas se manipulam, então elas começam a fazer embaixo da cama, atrás do sofá. Pais: fiquem tranquilos, pelo contrário, ao falar de sexo vocês estão protegendo, ao invés de estimular.

Quando os pais percebem que o filho ou filha pode ser homossexual, como eles tendem a lidar com isso?

Eu trabalho com a diversidade sexual. Luto por gente que gosta de gente. Viemos para o mundo educados culturalmente com um pensamento heterossexista. Eu brinco que quando alguém está grávida, ninguém diz: “tomara que seja gay, tomara que seja lésbica”. Eu nunca ouvi isso ainda. Eu digo: tomara que seja feliz. Que bom que é gay, que é lésbica, que é hétero. Mas o mundo é muito homofóbico e o Brasil é o país mais homofóbico. Quando se fala em gay e lésbica, a maioria das pessoas pensa na transa. Mas tem o afeto, tem a relação, tem a briga, tem tudo similiar. Mas com muita dor, porque o mundo é homofóbico.

Na mídia, é cada vez mais comum o tema ou a presença de personagens homossexuais, só que tudo de forma caricata...

É que falar de gay, loira, português, gaúcho, negro... Muitos dão risada, mas para outros, isso é preconceito. Essa caricatura é para dar um tom engraçadinho. Mas tem muita gente morrendo só porque é engraçadinho. Tudo o que é diferente a gente não está preparado. Transgênero, transsexual, travesti, drag-queen causam impacto e se caricatura isso nos meios de comunicação para dar risada, audiência. Isso me entristece como gente e como profissional.

Os pais têm muita preocupação em relação à internet. Ela é um problema?

Quem tem um diálogo legal diria ao filho que ali tem um monte de coisa que os pais não gostariam que os filhos vissem, explicando que a prostituição, o filme pornô são venda e compra; explicaria que os nossos corpos não são para vender e comprar e que por isso são contrários que os filhos vejam. Se tiver um diálogo legal, o adolescente vai perceber que não precisa invadir o cérebro com coisas inadequadas. Então, a serenidade tem que estar atrás de tudo isso, sempre.

É comum nas famílias os pais estimularem os meninos ao sexo e as meninas não. Por que os pais tendem a agir como se a filha fosse assexuada, que precisa ser reprimida?

No livro que eu escrevi tem 408 sinônimos ou eufemismos para pênis. Para vulva 494. Quase todos para o homem, tirando de criancinha – piu-piu, passarinho – são todos pesados. De mulheres, são todos suaves. Há por trás disso uma educação sexista. Então esse “assexuada” é no sentido “não explore”, “não olhe”, “não mexa”, mas o menino pode. Há uma educação totalmente diferenciada, de divisão de papeis de gênero que diz que a mulher é toda romântica, que precisa de afeto e carinho, mas os homens não. Isso é para puro controle. Isso é milenar, para manter a mulher presa, gestando, cuidando da casa, então é melhor que ela seja assexuada. Mas isso está mudando.

Temos hoje duas ou três gerações depois da revolução sexual dos anos 1950 e 1960. De lá para cá, as pessoas aprenderam a conviver melhor com o sexo, a ter relações melhores?

Não. Infelizmente a mudança foi muito pequenininha, por isso eu sou favorável à educação sexual nas escolas no maternal. Nada na quarta série, sétima série, ensino médio, fazer feira de ciências de DST e aquelas coisas.

Existe o certo e o errado em sexo?

Psicólogos odeiam essa coisa de certo e errado. O que te faz bem e faz bem para a outra pessoa é totalmente adequado. Se você tem uma boa educação sexual desde pequeno, na adolescência você só irá reafirmar isso e então na fase adulta você pode se perguntar “o que é o adequado ou inadequado para mim?”. Quando para obter prazer eu tenho que ofender, machucar o outro, isso não é adequado. Adequado é aquilo que faz bem para os dois.

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Veja a entrevista da sexóloga Eliane Rose Maio no programa Jô Soares, em 10 de maio de 2011.

PARTE 1:
http://www.youtube.com/watch?v=vS2U9McbQoo&feature=player_embedded

PARTE 2:
http://www.youtube.com/watch?v=_ZZycStY78c&feature=player_embedded

sábado, 3 de março de 2012

Entrevista com o presidente do movimento "O Sul é o Meu País"



“Nosso movimento é herdeiro da tradição guerreira do Sul”


Nos dias 17 e 18 de março, um evento na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, em Florianópolis, vai marcar os 20 anos de fundação do movimento “O Sul É o Meu País” (www.meusul.net), que tem como um dos seus principais objetivos a união do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul para formar um novo país. Hoje (03), em Curitiba, está acontecendo um encontro regional do movimento, a exemplo de outros que vem acontecendo nos três Estados em questão. Por telefone, entrevistei na tarde de ontem (02) o presidente do movimento, jornalista e professor Celso Deucher, para uma reportagem do jornal O Presente. Na ocaisão, ele detalhou as metas e ações que estão sendo desenvolvidas. Natural de Brusque (SC), o presidente criticou o sistema federativo brasileiro que, na opinião dos separatistas, fere a liberdade e suga as riquezas dos Estados. Segundo Deucher, o movimento “está muito fortalecido com a entrada de um grande número de pessoas que estão descontentes com a situação que se encontra o Brasil”.

O movimento “O Sul é o Meu País” está comemorando 20 anos. Nesse período, por um longo tempo pouco se falou abertamente sobre ele. Por que essa retomada da discussão?

Nos 20 anos nós nunca paramos de trabalhar. Ocorre que, por volta de 1993, o governo federal veio para cima de outro movimento no Rio Grande do Sul, o República dos Pampas, por causa de algumas declarações do líder daquele movimento e que a Globo reproduziu. Com isso o governo veio para cima de todos nós. No nosso caso, não sofremos tanto pelo fato do movimento já ser registrado, dentro da lei. Mas arrefecemos o trabalho, demos uma segurada. Começou-se a fazer um novo trabalho em busca de novos associados e a partir do ano passado, principalmente, começamos a voltar à ativa na rua, com panfletagem, manifestos, debates e o trabalho voltou a aparecer na imprensa. Em nível externo nós estamos voltando à ativa agora, mas internamente continuamos trabalhando desde março de 1992.

Por que, agora, buscar novamente mostrar o movimento na mídia?

Porque agora o movimento está muito fortalecido com a entrada de um grande número de pessoas que estão descontentes com a situação que se encontra o Brasil. Na década de 90 nós estávamos saindo do regime militar e tínhamos a nova Constituição. A gente tinha esperança que com a nova Constituição as coisas fossem mudar. Mas, o que sentimos é que não mudou praticamente nada em relação à representação parlamentar, à distribuição dos impostos. Brasília continua centralizando ainda mais os poderes, ainda mais a questão econômica e a disparidade regional nossa é uma coisa gritante.

Quais são as principais motivação do movimento, além da separação do Sul do resto do país?

“O Sul é o Meu País” é um movimento de discussão da ideia de autodeterminação do povo sulista. Como autodeterminação compreende-se alguns vieses, sendo um deles a separação. Eu, pessoalmente, sou separatista. Acredito num Sul independente. Mas, dentro do movimento há pessoas que acreditam numa confederação de Estados e em manter o Brasil como ele está. No entanto, dando autonomia para os Estados, como é o estilo americano, suíço e tantos outros. Se mantém a unidade, mas dentro da diversidade dos Estados. Do ponto de vista da maioria dos que estão no movimento, essa situação é só temporária. A confederação seria um passo para se chegar à separação. Nós não pregamos a luta armada ou qualquer outro meio que não seja o pacífico para chegar ao objetivo máximo que é a criação de um país.
Reprodução

O movimento tem o apoio de senadores e deputados do Sul que podem levar adiante essa discussão no Congresso Federal?

É difícil trabalhar com a classe política que nós temos, inclusive a nossa do Sul. Tem muita gente boa dentro da classe política, mas a maioria, e a sulista também se encaixa no mesmo sentido, são pessoas que não têm idoneidade suficiente para reclamar uma questão como a do nosso movimento. Grande parte da classe política se sustenta dentro do atual sistema. Enquanto o Estado continua centralizado, enquanto o dinheiro está indo para Brasília e é distribuído para apadrinhados políticos desse e daquele lado, esse pessoal vai ser contra a ideia de separar o Sul. Temos vereadores, prefeitos e alguns deputados que nos apóiam, mas são apoios muito discretos e nós evitamos trazer essas pessoas para dentro do movimento.


O senhor afirmou que os políticos do Sul não se diferenciam muito daqueles do resto do país. Então, adianta separar o Sul se nesse novo país continuaríamos a ter os mesmos políticos nos três Estados da região?

Isso se resolve com uma coisa que não é simples de se fazer, mas ela tem que ser feita paulatinamente, principalmente com a educação. Nós temos uma classe política do jeito que temos porque votamos nela. Somos co-responsáveis por estes que estão aí no poder. O movimento prega que sejamos cidadãos conscientes. Temos que trabalhar a cabeça do cidadão para votar em gente descente, com ética, com espírito público. Temos no Sul, e em outras regiões do Brasil também, prefeitos e vereadores, políticos que têm esse espírito.

Uma pesquisa realizada pelo movimento no ano passado em Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre, mostrou que na capital paranaense, ao contrário das outras duas, a maioria dos entrevistados era contra a separação, além de haver um grande número de indecisos. O movimento conseguiu identificar por que isso ocorre em Curitiba?

Nós temos um projeto de consultas populares, dentro de critérios científicos, iniciado no ano passado. Queremos mostrar para os governos qual é a verdadeira aprovação que existe dessa ideia. Começamos nas três capitais e nunca tivemos grande aprovação, principalmente em Curitiba e Florianópolis. Os avaliadores da nossa pesquisa em Curitiba disseram que boa parte dos aposentados votava contra, com medo de perder a aposentadoria, o que era um absurdo porque era só uma pesquisa. Muitos entrevistados também eram funcionários do governo federal.

Quais são os próximos passos do movimento?

Temos metas para os próximos quatro anos. Nas 48 cidades da região Sul com mais de 100 mil habitantes temos grupos formados de 10 pessoas. Em cada uma dessas cidades eles irão montar um grande grupo de apoio ao movimento. No dia 04 de agosto, faremos uma grande manifestação nessas 48 cidades. O dia 04 de agosto é a data de morte da grande heroína sulista Anita Garibaldi, que muita gente conhece. Era uma pessoa simples que se transformou em uma heroína por lutar por um país independente aqui no Sul.

“O Sul é o meu País” segue a inspiração de movimentos ocorridos na região como a Revolta Farroupilha e a Guerra do Contestado?

Pouca gente sabe, mas o nosso movimento surgiu no Paraná, nos idos de 1600, quando os índios das missões do Guayrá começaram a lutar contra os bandeirantes, contra o Brasil, na verdade. O cacique Guairacá, do Paraná, é um dos homens lendários do movimento porque ele começou essa defesa da terra sulina. Mais tarde, no Rio Grande do Sul, o Sepé Tiaraju também abraçou a causa. Esse sentimento aflorou com muita força na Revolução Farroupilha, depois na própria Guerra do Contestado, que era uma luta de divisas, mas por outro lado se transformou em luta separatista porque o governo central nunca deu bola para aquela gente. Depois veio a Revolução Federalista, com o cerco da Lapa. Todas essas revoluções demonstram que o sulista não é um cara que se entrega fácil. Não é só chegar aqui e explorar a gente e levar o nosso dinheiro, autonomia e liberdade que nós não fazemos nada. O nosso movimento se considera herdeiro dessa tradição guerreira do Sul. Nós somos aqueles que continuam com aquelas ideias e continuamos lutando. Os descendentes de escravos ou de imigrantes que vieram de Portugal, Açores, alemães, italianos, poloneses, enfim, todos os povos que chegaram aqui, hoje podem se sentir um povo porque houve uma luta comum e nós queremos um futuro comum. Isso nos transforma em um povo.