quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Os 20 melhores discos de 2011 – PARTE 2

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STROKES – “ANGLES”

Depois de cinco anos de espera, os Strokes retornaram com um disco de inéditas. E como era de se esperar, fãs e crítica se dividiram entre “é uma porcaria completa” ou “é a banda voltando a viver um bom momento”. Eu fico no meio disso tudo e defendo que “Angles” não é isso tudo, mas é infinitamente melhor do que o chatíssimo “First Impressions of Earth”, de 2006. No seu retorno, os Strokes chegaram causando comoção com “Under Cover of Darkness”, o primeiro single. E mostraram que tinham fôlego para mais: “Taken for a Fool”, “Machu Picchu” e “You’re So Right” são as faixas top do disco.

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LOU REED & METALLICA – “LULU”

Taí um disco odiado por 99,9% dos fãs do Metallica e, com relação aos fãs de Lou Reed... Bem, como o próprio cantor comentou, eles não existem mais desde 1975... Mas “Lulu” é uma viagem completa, com Lou Reed cantando (falando?) naquele seu estilão monótomo, acompanhado pela barulheira do Metallica. Lançado como um CD duplo, o disco traz 10 músicas. Duas delas com 11 minutos, uma com 19, e outra na média de cinco a oito minutos. Um desafio pra qualquer um ouvir do começo ao fim. Ninguém entendeu nada. Mas rock não é pra entender. Se quiser entender, vá pra escola!

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NEVILTON – “DE VERDADE”

Esse era esperado com ansiedade desde 2010. O trio Nevilton, da cidade de Umuarama (PR), é uma das grandes revelações da música brasileira. Influenciados por uma mistura de sons que inclui Chico Buarque e Pavement, os meninos fazem um som todo torto, com letras uns mil andares acima da média dos músicos brasileiros. “De Verdade” foi lançado como download gratuito pelo projeto Trama Virtual e traz 14 músicas. As preferidas: “A Máscara”, “Tempos de Maracujá”, “Por um Triz” e “Delicadeza”, esta com um clip muito bacana. Indelicadeza é não gostar desse disco...

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TOM WAITS – “BAD AS ME”


Outro artista que deu as caras depois de um longo tempo sem gravar. “Bad as Me” é o primeiro disco em sete anos do estadunidense Tom Waits, cantor pouco conhecido por aqui, mas um ícone nos EUA e Europa. Polka, jazz, blues, rock, country... Os estilos musicais de Tom Waits não têm limites e esse senhor de 62 anos não fez feio em “Bad as Me”. Tom Waits é da estirpe dos artistas que, quanto mais velhos, melhor ficam.
Com sua voz marcante, o cantor destila a sua poesia beat em forma de música com uma vitalidade impressionante.

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STEPHEN MALKMUS & JICKS – “MIRROR TRAFFIC”

Querido papai do céu, obrigado por iluminar o espírito e mandar cargas intensas de inspiração a Stephen Malkmus! Depois de sua ótima estreia como artista solo em 2001, finalmente o vocalista do Pavement voltou a fazer um disco que realmente interessa. “Traffic Mirror” é talvez o álbum mais acessível da carreira do cantor, que decidiu polir as viagens sonoras e jams entediantes de seus últimos trabalhos para se concentrar apenas em ótimas melodias pop e na típica mordacidade de suas letras. Até crítica política ele se prestou a fazer em “Senator”, sem deixar de incluir os simples cidadãos na alfinetada:

“I know what the senator wants
What the senator wants is a blow job
I know what everyone wants
What everyone wants is a blow job”


Genial...

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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Os 20 melhores discos de 2011 - PARTE 1

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Quem gosta de rock não pode reclamar: 2011 foi um ano cheio de grandes discos, seja de velhos conhecidos ou de novos nomes. O blog selecionou 20 discos que considera essenciais. A lista segue em quatro partes (cinco em cada post), com direito a link para baixar os álbuns. Então, acompanhe aí e faça a festa com músicas que valem a pena!


FOO FIGHTERS - “WASTING LIGHT”

Sétimo álbum da carreira do Foo Fighters, “Wasting Light” é também um dos mais pesados, embora jamais se afaste da veia pop da banda. Produzido por Butch Vig, que já havia trabalhado com Dave Grohl na produção do clássico “Nevermind”, do Nirvana, está álbum também conta com a colaboração de Krist Novoselic, que toca baixo em “I Should Have Know”. Considerado por muitas revistas e sites especializados como http://www.blogger.com/img/blank.gifum dos melhores discos do ano, “Wasting Light” traz 11 faixas, com destaque para “Walk”, “White Limo” e “Rope”.

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VACCINES – “WHAT DID YOU EXPECT FROM THE VACCINES”

Álbum de estreia dessa banda de Londres, apontada como uma das grandes surpresas do ano. O falatório sobre a banda começou quando eles lançaram o single “Wreckin’ Bar (Ra Ra Ra)”. Logo depois assinaram contrato para o lançamento de um álbum, do qual se seguiram outros sucessos como “Post Break-up Sex”, “If You Wanna” e “Blow It UP”. Apontados pela crítica como uma mistura bem dosada de Ramones, Strokes, The Smiths e Arctic Monkeys, o Vaccines convence logo na primeira audição.

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BEADY EYE – “DIFFERENT GEAR, STILL SPEEDING”


Quando Noel Gallagher mandou tudo pro espaço e implodiu o Oasis, em 2009, o vocalista Liam Gallagher reuniu o resto da banda nesse novo projeto chamado “Beady Eye”, que lançou o seu primeiro disco no início de 2011. “Different Gear, Still Speeding” é um disco de rock and roll clássico, influência por – adivinhem? – pelas bandas sessentistas. Seria simples dizer que é o Oasis sem as ótimas baladas escritas por Noel Gallagher, mas é isso mesmo. “Millionaire”, “The Roller” e "For Anyone” dão o tom exato do que o disco de estréia do Beady Eye.

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BOMBAY BYCICLE CLUB – “A DIFFERENT KIND OF FIX”

Formado em 2005, o Bombay Bycicle Club é mais uma das boas surpresas vindas de Londres. Não se pode dizer que foi um dos nomes mais lembrados em 2011. Mas, o Bombay Bycicle Club mostrou que tem moral para uma carreira bastante sólida. “A Different Kind of Fix” é o terceiro álbum da banda e traz duas ótimas faixas: “Shuffle” e “Lights Out, Words Gone”. Já foram acusados pelos detratores de ser uma banda sem sal, que faz música de elevador. Bobagem... “A Different Kind of Fix” é bom do começo ao fim.

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BLACK KEYS – “EL CAMINO”

Em uma década, o Black Keys lançou sete álbuns, um número invejável para qualquer artista. Agora, invejável é jamais perder o fôlego e ainda ter a capacidade de produzir um discaço com “El Camino”, lançado há poucas semanas. Punk blues, garage rock, indie rock, várias são os estilos onde se pode enquadrar o Black Keys, caso isso tivesse alguma importância. “El Camino” é disco de festa e faixas como “Lonely Boy”, “Sister” e “Hell of a Season” são uma boa pedida pra começar a apreciar essa delícia sonora.

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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ele dormiu com Joey Ramone


O livro nem é tão novo assim. Foi publicado pela primeira vez em 2009 nos Estados Unidos. Mas esperei um bom tempo achando que a obra seria lançada no Brasil, mas nada. Vai ver as editoras estavam e estão ocupadas demais lançando biografias interessantes de subcelebridades como Jeisi Arruda, enquanto essa ótima história sobre a vida do cantor dos Ramones aguarda na fila até que algum editor se dê conta que está perdendo dinheiro.

Como isso não aconteceu até agora, o jeito foi importar um exemplar de “I Slept with Joey Ramone: a family memoir” (Eu Dormi com Joey Ramone: uma memória de família). Ao contrário do que possa parecer pelo título, não se trata de um livro escrito por alguma groupie ou ex-namorada do cantor, mas sim pelo irmão de Joey, Mickey Leigh, que contou com a ajuda do jornalista Legs McNeil, autor da bíblia punk “Mate-Me Por Favor”, para produzir as 400 páginas dessa biografia, lançada pela Editora Touchstone.

Joey Ramone é o nome artístico de Jeffrey Hyman (ou simplesmente Jeff, para os familiares), que se tornou mundialmente famoso cantando na pioneira banda punk estadunidense Ramones, de 1974 a 1996. Joey Ramone morreu em 2001, aos 49 anos, vítima de câncer linfático contra o qual lutou durante sete anos.

Mickey Leigh, irmão caçula de Joey, se propôs em “I Slept...” a abrir o álbum de recordações da família Hyman para os fãs dos Ramones ao redor do mundo. Mas, não se engane. Não se trata de uma ovação em tempo integral ao irmão famoso. Pelo contrário, Mickey se esforça para traçar um perfil bastante sincero de Jeff Hyman e não do astro Joey Ramone. E isso permite que você descubra que o vocalista dos Ramones podia ser em um momento a pessoa mais generosa do mundo e, em outro, um filho da mãe completo. E quem melhor do que o irmão caçula para revelar isso?

Tendo dormido com Joey no mesmo quarto durante 20, Mickey discorre fácil sobre a infância e adolescência dos dois. As angústias com a separação dos pais, a morte do primeiro padrasto, as brincadeiras na vizinhança pacata de Forest Hills, em Nova York, a paixão pelo rock and roll que ambos cultivaram desde que ouviram no rádio a música La Bamba, de Richie Vallens , ainda na década de 50. E claro, também o perrengue pelo qual sempre passou a família Hyman, que se tornou ainda pior quando Joey, que desde bebê sempre teve saúde frágil, passou a manifestar sintomas do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), uma doença psicológica que o acompanhou por toda a vida, o qual faz a pessoa repetir infinitas vezes uma mesma ação sem uma explicação lógica para isso.

Devido ao TOC, aos 20 anos de vida Joey já era dado como um inválido, recebendo pensão do governo por ser incapaz de desenvolver qualquer trabalho que lhe garantisse o sustento. E seria assim até o fim da vida dele se o rock and roll não existisse. Por incrível que pareça, Joey e outros três desajustados novaiorquinos chamados Johnny, Dee Dee e Tommy formaram os Ramones, que se tornou uma das bandas mais importantes da história do rock. E Mickei Leigh, ele próprio um músico (sem sucesso), acompanhou de perto a ascensão do irmão “inválido” até se tornar um astro da música.

No livro, Mickey Leigh descreve como os dois tomaram rumos diferentes em suas vidas. Se alguém na família tinha alguma chance de se tornar um astro no mundo da música, esse alguém era o irmão mais novo: menos feio, melhor musicista, sem transtornos de qualquer tipo. Mas foi o irmão esquisito quem se deu bem. Apesar disso, Mickey e Joey se deram bem por um longo tempo, pelo menos até a década de 90, quando as brigas normais entre irmãos foram um pouco além do razoável.

No início dos anos 90, Mickey estava completamente ferrado financeiramente. Sua carreira como músico nunca decolou. Pobre, vendia maconha para os amigos para poder sobreviver e, inclusive, acabou preso por isso. Quando os Ramones fecharam um bom contrato com a cerveja Budweiser para usar a música “Blitzkrieg Bop” em uma propaganda de televisão, Mickey viu a oportunidade de ganhar algum dinheiro, o qual ele entendia ter algum direito, já que colaborou na gravação da música em 1976, embora nunca tenha recebido créditos e nenhum centavo por isso.

A investida de Mickey, além de não garantir um só dólar, criou um abismo enorme entre ele e Joey Ramone, que se estendeu durante todos os anos 90, intercalado apenas por reaproximações breves que sempre acabavam em novos e piores desentendimentos. Na biografia, em certos momentos se tem a impressão de que Mickey deixa transparecer um certo rancor ou inveja pelo sucesso irmão mais velho. Mas o autor tenta apagar essa impressão justificando que nunca quis ser um Ramone, mas que, claro, sonhava em ter uma banda de sucesso como The Who ou os Beatles, que sempre inspiraram os dois na adolescência quando ainda tocavam juntos no porão de casa.

Porém, o agravamento do câncer aproximou os irmãos meses antes da morte de Joey. Por um capricho do destino, Mickey estava junto dividindo o palco com o irmão em uma espelunca de Nova York em dezembro de 2000, naquela que acabou sendo a última apresentação do cantor dos Ramones, que na época se preparava para lançar o seu disco solo. Dias depois, após escorregar numa calçada e quebrar a bacia, Joey foi internado e começou a perder a sua batalha contra o câncer.

E não deve ter sido fácil para Mickey transpor para o livro toda aquela situação dramática de estar vendo o irmão se esvaindo aos poucos, até dar o último suspiro, segundos após ouvir a canção “In a Little While”, do U2, no início da manhã da segunda-feira de 15 de abril de 2001. “Ele se foi com a canção, eu pensei, para aquele lugar aonde as canções vão depois que elas são tocadas – onde quer que isso seja”, escreveu Mickey, evidentemente emocionado.

“I Slept With Joey Ramone” é um prato cheio para os fãs dos Ramones e amantes do rock em geral. Embora pipoquem em todos os cantos livros e documentários sobre a banda, é a primeira vez que a intimidade de Joey Ramone é tão exposta. Talvez Joey, sempre discreto com sua vida pessoal, não aprovasse o livro. Pelo menos, não da forma e com certos detalhes nele revelados (quem diria que Joey Ramone tivesse brigas de horas com sua mãe para poder usar a maquiagem e as roupas dela no auge do glam rock no início dos anos 70?).

Mas, acredito nas boas intenções de Mickey, que fora a bobagem de fazer alguns shows por aí hoje em dia cantando músicas dos Ramones em “tributo” ao irmão, convence os leitores que fez este livro com o coração.

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VEJA VÍDEO COM MICKEY LEIGH E LEGS McNEIL FALANDO SOBRE "I SLEPT WITH JOEY RAMONE"

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Meia Noite em Paris: uma lição sobre onde está a felicidade


Quem disse que Woddy Allen fez de “Meia-Noite em Paris” um dos melhores filmes de sua carreira, não estava errado. O filme foi lançado no comecinho do ano, mas para nós que moramos longe demais das capitais,na maioria das vezes o negócio é ter que aguardar e torcer para que o DVD chegue às locadoras. E “Meia Noite em Paris” valeu à pena esperar.

Temos que concordar que todo filme de Woody Allen é bem mais legal quando ele, além de dirigir, também atua, o que não é o caso aqui. Desta vez é o ator Owen Wilson, conhecido pelas comédias pastelão, que surpreende (esforçando-se para imitar os trejeitos de interpretação de Allen) no papel do protagonista. Ele interpreta Gil, um bem pago roteirista de cinema de Hollywood, mas que está frustrado pela futilidade de seu trabalho. O sonho de Gil é se tornar um escritor de livros respeitado.

Gil está em viagem a Paris com sua noiva Inês (Rachel McAdam) e os pais dela, que desaprovam o noivado. Inês é do tipo bonita e rica, mas ordinária, que mantém um interesse meramente catedrático por artes em geral. Muito diferente de Gil, que tem um espírito de artista, se assim posso dizer.

Enfim, para não entregar toda a história toda, digo apenas que de que forma surreal Gil embarca em uma inexplicável viagem no tempo e acaba, durante várias noites, conhecendo toda a famosa geração de artistas de 1920, que, conforme Hemingway registrou em famoso livro, fez de Paris uma festa.

Além do escritor autor de “O Velho e o Mar”, Gil conhece Scott Fitzgerald, T.S. Elliot, Picasso, Luis Buñuel, Gertrude Stein, Cole Porter, Salvador Dali, entre tantos outros. Para Gil, encontrar essas pessoas era a realização de um sonho! Afinal, era lá em Paris e naquela década que alguns dos artistas mais famosos do século XX estavam começando a entrar para a história.


Em “Meia-Noite em Paris”, Woody Allen trata de um tema que deve ser recorrente na vida de cada um de nós todos: a disposição nostálgica de imaginar que outros tempos sempre foram melhores do que agora, mesmo época que a gente nunca viveu e tomou conhecimento somente através dos livros,fotos, do cinema ou da TV.

Vivendo no século XXI, a década de 1920 era uma época dourada para Gil. Contudo, a ironia do filme está justamente quando os personagens dos artistas do início do século XX desdenham da própria época. Para eles o bom mesmo seria ter ser vivido na Paris da na segunda metade do século XIX, período conhecido como a Belle Époque. Para o essa turma da bela época, o melhor teria ser vivida em outro tempo mais antigo e assim sucessivamente...http://www.blogger.com/img/blank.gif

O insight de “Meia-Noite em Paris” é uma lição: a vida é sempre insatisfatória, independente de onde quando se viva. Então relaxe e esqueça esse negócio de pensar que “naquele tempo é que as coisas eram boas”. A felicidade está aqui e agora, basta desejá-la. O filme é otimismo puro, algo surpreendente na filmografia de Woody Allen, em que a ironia e o pessimismo geralmente dão o tom.

Um grande filme, sem sombra de dúvidas. E não se preocupe se você tem maior, menor ou nenhuma intimidade com os personagens de “Meia-Noite em Paris”. É claro um conhecimento mínimo que seja torna tudo mais legal, mas não é fundamental. Bacana mesmo é perceber para a centelha de genialidade espírito-filosófica contida nessa obra-prima de Woody Allen.

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terça-feira, 29 de novembro de 2011

As barbas do imperador


Semanas atrás, comentei aqui no Blog do Viteck a respeito do acervo da Biblioteca Cidadã Alice Weirich, no bairro São Lucas, aqui em Marechal Cândido Rondon. Inaugurado este ano, o espaço possui ainda um acervo modesto, mas com títulos muito interessantes nas mais diversas áreas.

E um dos “tesouros” da biblioteca é o livro “As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos”, da antropóloga Lilia Moritz Schwarcz. Já havia lido recentemente outro livro dela, chamado “O Sol do Brasil”, no qual ela escreveu – em um texto intenso e denso – sobre a Missão Francesa, grupo de pintores que desembarcou no Brasil no início do século XIX e que retratou a vida na corte e a natureza exótica do nosso país sob a perspectiva do olhar europeu.

Em “As Barbas do Imperador”, publicado em 2008 (Editora Companhia das Letras, 624 páginas), Schwarcz escreve uma biografia do segundo e último rei do Brasil. Tema por demais esmiuçado já em tantos livros escritos sobre D. Pedro II em mais de um século, o interesse da autora nessa biografia é contar a vida do imperador, principalmente, através do imaginário monárquico da época, “percebido justamente por meio da análise de rituais, costumes e tradição”, relata Schwarcz.

E é a própria autora que instiga o interesse do leitor a respeito da vida de D. Pedro II que “de órfão da nação se transforma em rei majéstico; de imperador tropical e mecenas do movimento romântico vira rei cidadão, para finalmente imortalizar-se no mártir exilado e em um mito depois da morte, com vistas não a recuperar tanto a sua história, mas antes sua memória, ou melhor, a seleção de determinadas memórias nacionais”.

D. Pedro II reinou no Brasil de 1840 a 1859. Órfão de mãe, o pequeno Pedro – com apenas cinco anos - foi deixado no Brasil pelo pai D. Pedro I, que voltou a Portugal nove anos depois de ter proclamado a independência do Brasil. Aos 15 anos, naquele que ficou conhecido como golpe da maioridade, D. Pedro II assumiu o trono em um período turbulento, em que esforços contínuos eram necessários para evitar a desfragmentação territorial diante de conflitos como a Revolução Farroupilha.

O Brasil, na época, era uma monarquia rodeada por repúblicas latinas, recém emancipadas da Espanha. Aliás, o Brasil foi o único país das Américas que se transformou em monarquia após a independência. Então a monarquia já sendo associada a uma instituição ultrapassada, ao longo de sua vida D. Pedro II se esforçou para vender ao mundo a imagem de um Brasil moderno, ao mesmo tempo que enaltecia aspectos de um império exótico. Exemplo disso foi o enaltecimento da figura do índio como símbolo do Brasil, assim como o café é o fumo, produtos de exportação do país.

O imperador também incentivou a pesquisa histórica, a educação e as artes, com a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a Academia Imperial de Belas-Artes e o Colégio Pedro II. D. Pedro II sempre se esforçou por associar a sua imagem a de um homem culto e estudioso, o que o levou a arroubos de imodéstia, como quando afirmou que a “ciência sou eu”. Mas, em um reino formado em sua grande maioria por analfabetos, a erudição de D. Pedro II era algo bastante singular, ainda mais se comparado ao pai, que entrou para a história como alguém mais interessado nas batalhas e nas mulheres do que nos livros.

Em “As Barbas do Imperador”, Schwarcz descreve ainda como era ser nobre no Brasil, as festas populares, relata a quase obsessão de D. Pedro II em derrubar do poder Solano Lopez durante a truculenta Guerra do Paraguai (1864-1870). A autora também destaca as três viagens que o imperador realizou ao redor do mundo, onde conheceu os Estados Unidos, a Europa e o Egito, entre outras regiões do globo.

E, como não poderia deixar de lado, a autoria vai a fundo na questão da escravidão, que era praticamente o modo de trabalho responsável pela produção das riquezas do Brasil, mas ao mesmo tempo era motivo de repulsa ao país em nações mais avançadas, que combatiam a escravidão. Curioso notar que, embora se colocasse como um homem moderno, D. Pedro II pouco fez de fato para acabar com o regime escravagista. Quem o fez foi a sua filha, princesa Isabel, que em 1888 assinou a Lei Áurea.

A alforria concedida sem qualquer direito de indenização aos donos de escravos foi o catalisador do golpe que derrubou a monarquia e implantou a república no país, em 1889. É bem verdade que os debates entre republicanos e monarquias já se estendia há décadas. Mas, com o avançar da idade de D. Pedro II, havia uma espécie de acordo ou sentimento de que a república seria implantada tão logo ocorresse a morte do monarca. Mas isso mudou, com a Lei Áurea.

Proclamada a república em 15 de novembro de 1889, dois dias depois o Imperador e sua família eram banidos do Brasil. Dois anos mais tarde, o imperador morreria em Paris, onde viveu uma vida modesta sustentado por doações de amigos e tendo como únicos bens uma edição original de um livro de Camões e um travesseiro cheio de terra do Brasil. Situação que ao longo dos anos só aumentou o mito do imperador, que logo após ser deposto recusou uma indenização proposta pelo novo governo republicano, no valor de 5 mil contos de réis, o equivalente hoje a cerca de R$ 2 bilhões.

Aliás, é na guerra entre monarquistas e republicanos que o livro de Schwarcz mostra-se mais intenso. Na guerra pública através das revistas da época, republicanos caricaturavam D. Pedro II como um senhor velho, com a sua longa barba branca, que só lhe aumentava a aparência de velho. Daí a associar a figura do imperador com o modelo antiquado da monarquia foi um simples passo dado pelos republicanos.

Interessantíssima é a reabilitação histórica do imperador no início do século XX, que tem como melhor exemplo Rui Barbosa, autor da lei que bania o imperador do Brasil e que, anos depois era um ferrenho defensor de que os restos, mortais de D. Pedro II, hoje enterrados em Petrópolis (RJ), fossem repatriados, diante da importância que o imperador teve para a história do país.

Ler “As Barbas do Imperador” é percorrer um período em que não só o Brasil, mas o mundo ocidental como um todo estava passando por um rápido processo de transformação. E é interessante perceber como a personalidade máxima do país se comportava em meio a essas mudanças. De certo, um homem de mil faces que jamais foi unanimidade, seja durante o reinado ou após a morte. E é esse homem, “despido” de sua coroa e dos demais símbolos da monarquia que Schwarcz nos revela nesse livro tão instigante.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Monumento às avessas


Há poucos dias vi no balneário de Santa Helena algo que chama a atenção não tanto pela beleza (que é pouca), mas pela estranheza (que é muita). Trata-se do “Monumento à Árvore”, um conjunto de oito troncos enormes de espécies de árvores que havia em abundância na região até poucas décadas atrás, como o ipê-roxo.

Acredito que a intenção de quem teve a ideia até fosse boa. Mas, homenagear a natureza colocando árvores mortas parece algo muito contraditório. Diria até infeliz...

Árvore é símbolo e representação da vida. Então, não seria muito mais lógico, naquele espaço, plantar mudas dessas mesmas espécies de árvores para que lá elas crescessem, verdes e vistosas, para que pudessem ser apreciadas pela nossa e próximas gerações?

Assim, da forma como está, o “Monumento à Árvore” me parece muito mais uma lembrança triste do quando ainda somos irracionais no que diz respeito ao cuidado com natureza. Um legítimo monumento à estupidez de todos nós...

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Caminho do Colono: nova luta pela reabertura




Reabertura do caminho no Parque Nacional do Iguaçu foi discuta em audiência pública na sexta-feira (11), em Serranópolis do Iguaçu

Celi Locks é moradora de Serranaópolis do Iguaçu. Desde agosto deste ano, ela reside em uma casa que fica ao lado do Parque Nacional do Iguaçu, no exato local onde iniciava o Caminho do Colono, um trajeto de 17 quilômetros em meio à mata e que terminava na margem do Rio Iguaçu onde, por balsa, era possível atravessá-lo e chegar a Capanema, na região Sudoeste do Estado.

Na casa onde Celi mora, o irmão dela mantinha uma lanchonete, ponto de parada para muitos que cruzavam o Caminho do Colono. O estabelecimento fechou, já que não havia mais sentido mantê-lo em um local onde ninguém mais passa, desde que há 10 anos a estrada foi fechada em uma ação enérgica da Polícia Federal, Exército e agentes de institutos governamentais ligados ao meio ambiente.

Mesmo uma década depois e com o mato já tendo tomado conta do antigo caminho, Celi vive situações inusitadas. Segundo ela, dia sim dia não alguns desavisados batem na porta da casa dela, pedindo informações sobre onde fica o Caminho do Colono, pois querem seguir viagem rumo so Sudoeste do Estado e para o Sul do país. Quando Celi explica que a estrada foi fechada, a única alternativa dos motoristas é dar a volta e contornar o parque por uma trajeto de cerca de 200 km, que poderia ser alcançado em apenas 17 km, se o Caminho do Colono ainda existisse.

Para os motoristas desavisados, para Celi e para muitos dos moradores de Serranópolis do Iguaçu e região, o sonho é que um dia o Caminho do Colono volte a unir as duas regiões do Estado, que hoje estão praticamente divididas pelo Parque Nacional do Iguaçu. Agora, esse sonho ficou um pouco mais perto de se tornar realidade.

Isso porque aconteceu na manhã de sexta-feira (11), na Casa da Cultura de Serranópolis do Iguaçu, a oitava audiência pública (a primeira fora de Brasília) da comissão especial da Câmara Federal para debater o projeto de lei nº 7.123/2010, de autoria do deputado federal Assis do Couto. Visando a reabertura do trajeto, ele propõe a criação da estrada-parque Caminho do Colono.

Na audiência, que esteve tomada por moradores e lideranças regionais, estiveram presentes o parlamentar autor do projeto; o presidente da comissão especial, deputado federal Eduardo Sciarra; o vice-presidente, deputado federal Dilceu Sperafico; e o relator, deputado federal Nelson Padovani. Os deputados estaduais Ademir Bier, Elton Welter e Professor Lemos também participaram, assim como o presidente da Associação dos Municípios do Oeste do Paraná (Amop), prefeito de Corbélia, Eliezer Fontana; o presidente do Conselho dos Municípios Lindeiros, prefeito de Entre Rios do Oeste, Elcio Zimmermann; os prefeitos de Serranópolis do Iguaçu, José Sehn; de Capanema, Milton Kafer; de Missal, Adilto Ferrari; e de São Miguel do Iguaçu, Armando Polita, entre outras autoridades.

Projeto

Segundo o deputado federal Assis do Couto, a proposta por ele apresentada impõe uma série de restrições quanto ao uso da estrada-parque. Entre elas, a proibição de circulação de veículos pesados e o tráfego de veículos no período da noite. Essas e outras medidas seriam para reduzir ao máximo os danos ambientais.

Ele justificou o projeto explicando que com a proposta pretende-se, pelo menos, tentar no Congresso Federal aprovar uma lei que ponha fim aos conflitos e criar uma perspectiva positiva de desenvolvimento para as regiões Sudoeste e Oeste do Estado. “Não se trata de abrir uma nova estrada, mas utilizar o mesmo traçado, que não será asfaltado. Queremos no máximo pedra irregular. O projeto propõe diretrizes para uma estrada diferente. Nós pensamos uma estrada com todos os cuidados ambientais possíveis. Temos alternativas capazes de atender as demandas ambientais”, afirmou o parlamentar, que frisou que “nós queremos uma oportunidade para que os turistas possam visitar o parque e para que nossos filhos possam conhecer a mata nativa”.

Trabalhos

Na abertura da audiência pública, o presidente da comissão especial, deputado federal Eduardo Sciarra, explicou que o projeto tem sido trabalhado de forma democrática. Ao mesmo tempo, garantiu que o debate não é um confronto com a Justiça. “Pelo contrário. Nós estamos discutindo essa matéria pela Casa de Leis máxima do Brasil. Esse é um assunto que ao longo dos anos foi discutido com muita paixão e emoção. Além de manter a paixão, nós precisamos trazer a razão para a discussão. E isso nós vamos buscar através do entendimento. Nós queremos abrir um espaço de diálogo. A criação da estrada-parque só acontecerá se nós buscarmos um entendimento de forma democrática”.

A respeito das audiências já realizadas em Brasília, Sciarra informou que nesses encontros a comissão já ouviu representantes da biodiversidade, pesquisadores, acadêmicos, juristas e demais especialistas. De acordo com o deputado, até o momento a questão tem evoluído bem. “Haverá mais algumas audiências públicas até que tenhamos maturidade para discutir o relatório que será apresentado pelo deputado federal Nelson Padovani. Nós imaginamos que até o final de fevereiro a gente tenha condições de apresentar e votar, no máximo, em março esse relatório na comissão especial”, prevê.

Sciarra chama a atenção para um detalhe sobre os trâmites, uma vez que o projeto tem caráter conclusivo. “Isso significa que, aprovado na comissão especial, ele vai automaticamente ao Senado. Não precisa passar nas outras comissões. Existem mecanismos regimentais que podem fazer com que ele vá para o plenário da Câmara, mas se não houver nenhum recurso ele vai diretamente ao Senado, onde pode demorar muito tempo para ser votado se não produzirmos um entendimento. Penso que a discussão do Código Florestal permitiu um avanço nesse entendimento do desenvolvimento sustentável. É fundamental que se abra a discussão para colocar todos os aspectos.

Acreditamos que seja possível transformar o projeto em lei através do diálogo”, afirma o presidente da comissão especial.

Cautela

O deputado federal Dilceu Sperafico, vice-presidente da comissão especial, demonstra bastante cautela, principalmente diante do entusiasmo de muitos moradores da região com a nova perspectiva de ser reaberto o Caminho do Colono. “Não posso afirmar que a estrada será aberta. O que posso dizer é que é um avanço muito grande conseguir criar uma comissão especial dentro do Congresso Nacional para fazer um estudo sobre a viabilidade da abertura da Estrada do Colono. Eu posso dizer à população que sou favorável à abertura e vou trabalhar nesse intuito. Acho que tem que haver muita consistência no estudo que vai ser apresentado. Ouvir todos os lados, para que evidentemente não seja feito um engodo para enganar a população”, ressaltou.

De acordo com ele, a luta pela criação da estrada-parque deverá ser uma batalha longa, mas ele se diz otimista e compara: “há 12 anos começamos a trabalhar pela liberação dos transgênicos. Nós tivemos muitos obstáculos, mas insistimos com seriedade e responsabilidade, e hoje ninguém mais fala em transgênico. Ele é uma realidade. Assim, nós queremos trabalhar essa questão da Estrada do Colono”.

Relatório

Por sua vez, o deputado federal Nelson Padovani, relator da matéria, garante que o seu trabalho será pautado pela imparcialidade, embora menifeste que seu desejo é que o projeto de criação da estrada-parque seja aprovado. “Eu tenho o mesmo sentimento do povo daqui. Só que o sentimento não vai para o relatório. O relatório tem que ter sustentação. Nós temos que ver o porquê abrir essa estrada, ver o que ela vai trazer de benefício. Estamos com todas as informações e estamos preparados para fazer o melhor relatório para que possamos deixar os dois lados (ambientalistas e defensores da abertura) contemplados”.





quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Casa Gasa pode fechar por falta de recursos


Instituto responsável pelo local não está conseguindo honrar compromissos com proprietária do imóvel

Um dos pontos turísticos mais conhecidos e procurados de Marechal Cândido Rondon pode fechar as portas. Trata-se da Casa Gasa, localizada no centro da cidade e que é ponto de visitação devido à sua arquitetura única e também pela curiosidade inspirada pela vida de quem a construiu, o alemão Heribert Hans Joachin Gasa – que faleceu em 2003.

Mantida pelo Instituto Cultural Casa Gasa, a entidade não tem conseguido cumprir as cláusulas contratuais firmadas com a proprietária do imóvel, a viúva Dorothea Kocko Gasa, que atualmente reside em Prudentópolis (PR). Esta semana ela esteve em Marechal Cândido Rondon e manteve conversa com o presidente do instituto, professor e historiador Valdir Gregory. Na oportunidade, ela ponderou que, caso não seja possível viabilizar o que está previsto em contrato, ela pretende dispor do local para outra atividade.

Dois fatos têm causado descontentamento à proprietária. O primeiro é o valor que recebe de aluguel, considerado baixo para a realidade local. O segundo é a deterioração do imóvel por falta de manutenção adequada. Como membra que também é do Instituto Cultural Casa Gasa, Dorothea, com demais integrantes da entidade, tem trabalhado em conjunto em busca de uma solução para o imbróglio. Contudo, ela e o presidente são enfáticos em afirmar que, no momento, a solução obrigatoriamente passa por um apoio financeiro maior por parte do poder público municipal.

Histórico

O Instituto Cultural Casa Gasa foi formalizado em 2006 com o objetivo de gerir o conjunto patrimonial do imóvel, incluindo os móveis, equipamentos e acervos deixados por Heribert Gasa. Além disso, o instituto tem como meta desenvolver atividades culturais e incentivar o turismo.

A ideia inicial era que a Casa Gasa fosse mantida com aos recursos provenientes da arrecadação dos ingressos para visita ao local (R$ 2,50 para estudantes e idosos e R$ 5 para os demais) e do aluguel do espaço para realização de eventos culturais e de entretenimento. Só que essa arrecadação tem sido pequena: em média R$ 500 por mês.
Diante da dificuldade, o Instituto Cultural Casa Gasa formalizou um convênio com a prefeitura em 2010, na qual esta se comprometeu a auxiliar com um repasse financeiro, que este ano é de R$ 20 mil (dez prestações de R$ 2 mil).

Com este montante, o Instituto paga o aluguel do imóvel (R$ 1 mil), as contas de água e luz, o salário do estagiário que atua no local e os pequenos serviços de manutenção que frequentemente são necessários.

Contudo, Gregory destaca que estes recursos não são suficientes para que seja feita toda a manutenção necessária. E o resultado disso está diante dos olhos de quem visita a Casa Gasa. Na área externa, os vândalos já destruíram paredes, janelas, além de sujarem o local. Não é difícil, por exemplo, achar garrafas de bebida vazias e camisinhas usadas. Até facas já foram encontradas.

Dentro da Casa Gasa são as ações do tempo e da natureza que causam os maiores danos. Um exemplo disso são os cupins, que estão destruindo os tacos de uma das salas do subsolo. Para agravar ainda mais a situação desse cômodo do imóvel, um vazamento na rede de água do município comprometeu as paredes do subsolo.

Outros pontos que merecem atenção urgente são a rede elétrica e os encanamentos do imóvel, assim como partes do telhado, que precisam de reforma.

Conforme Gregory e Dorothea, esses são exemplos da situação crítica em que se encontra atualmente a Casa Gasa. Há que se considerar, também, que o valor que é pago de aluguel está cerca de 30% abaixo do previsto no contrato, que era de até R$ 1,5 mil.

“Do jeito que está, compensa fechar a Casa Gasa e transformar o local em outro negócio, em comércio. Antes de abrir a Casa Gasa, muitos fizeram propostas. Mas, como tinha tanto material deixado por Gasa e havia o interesse da sociedade, a gente partiu pra esse lado, achando que seria mais fácil. Mas, é muito complicado porque o imóvel é particular e o Instituto é público”, explica Dorothea
.
Aliás, o fato da Casa Gasa ser um imóvel particular é um fator que tem dificultado as negociações visando o repasse de dinheiro público para mantê-lo. “A gente sabe dessa dificuldade”, diz Gregory.

Apoio

Procurado pela reportagem, o secretário municipal de Indústria, Comércio e Turismo, Arlen Güttges, garantiu que a prefeitura tem feito e fará tudo aquilo que está dentro de suas possibilidades para ajudar o Instituto Cultural Casa Gasa.

Mas, ele pondera que “temos que lembrar que as ações do Turismo não ficam restritas só a Casa Gasa. Porque aí outros vão querer ajuda também. Todos os pontos turísticos vão pedir recursos para nós”. Conforme o secretário, de todas as empresas e entidades que integram o Núcleo de Turismo rondonense, é a Casa Gasa quem recebe mais recursos.

Güttges ressalta a importância para o setor turístico e cultural que o espaço tem para Marechal Cândido Rondon, mas lamenta que, da forma como ele existe hoje, não consiga se manter com arrecadação própria. “É um ponto turístico importante. Só que tem que ser uma via de mão dupla. Ela também tem que se manter, porque só a prefeitura colocar dinheiro, isso é complicado. É diferente do Museu de Porto Mendes, por exemplo, que temos a obrigação de manter porque é um patrimônio público”, destaca.

Questionado se a prefeitura teria disposição de adquirir o imóvel se a proprietária o colocasse à venda, o que não é o caso, o secretário diz que interesse haveria. Só não teria dinheiro, até porque a prefeitura está na eminência de implantar o hospital municipal. “Adquirir a casa não seria prioridade”, garante.

Alternativas

Segundo Valdir Gregory, a entidade tem arriscado alternativas para viabilizar o Instituto, de forma que ele não fique tão dependente do dinheiro público. Inclusive, uma negociação estava para ser fechada para que no local fosse instalado um empreendimentos ligado ao setor de gastronomia. Porém, por problemas particulares de um dos interessados, a negociação foi paralisada. Com o aluguel que o Instituto cobraria pelo uso de parte da Casa Gasa, seria possível mantê-la funcionando e ainda realizar as melhorias necessárias.

Outra alternativa, mais difícil, seria buscar recursos junto aos órgãos estaduais e federais. Porém, isso demanda dedicação quase integral para criar os projetos e para acompanhar os trâmites. Como todos os membros do Instituto Cultural Casa Gasa realizam trabalho voluntário em favor da entidade e atuam em outras atividades profissionais, é pouco o tempo disponível para assumir essa função também.

Até o final do ano, representantes do Instituto Cultural Casa Gasa e a proprietária terão que se reunir com os governantes municipais para negociar a renovação do convênio com a prefeitura. Caso não entrem em acordo, o futuro da Casa Gasa enquanto ponto turístico fica ameaçado.

“Eu era muito cobrada desde que o Gasa faleceu e quis dar essa contribuição, tendo pelo menos o imóvel conservado. Mas, se não tiver perspectiva de arrumar e de garantir a manutenção, não é viável manter a Casa Gasa”, enfatiza Dorothea.

A casa e o criador

Heribert Hans Joachin Gasa nasceu em 14 de março de 1920, na cidade alemã de Breslau, e faleceu em Marechal Cândido Rondon em 10 de março de 2003. Sua vida foi marcada por muitas histórias. Gasa viveu os horrores da Segunda Guerra Mundial, depois de ser convocado pelo exército alemão. Em 1961 veio para o Brasil, fixando moradia em Marechal Cândido Rondon, onde trabalhou como ótimo, fotógrafo e cientista.

Em 1965 comprou o terreno onde construiu a sua ousada residência. A atual Casa Gasa foi planejada e decorada pelo seu proprietários, que promoveu um amplo sincretismo arquitetônico. O diferencial deste espaço são seus traços arquitetônicos, a decoração, além de passagens secretas e portas e armários falsos.

A Casa Gasa demorou 20 anos para ser concluída. Ela conta com 38 cômodos, inclusive um subsolo em dois níveis.

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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Sul é o Meu País: carta do presidente


Recebi ontem e-mail enviado por Celso Deucher (foto), presidente do Movimento O Sul é o Meu País e Secretário Geral Gesul - Grupo de Estudos Sul Livre, a respeito de texto publicado no blog em 13 de setembro (http://blogdoviteck.blogspot.com/2011/09/o-sul-e-meu-pais.html), sobre o movimento separatista. Segue a carta para conhecimento de todos:

Acabo de receber através do amigo Alvaro Caregnato Salvaro, nosso grande amigo ai em Marechal Cândido Rondon, a matéria/artigo que o amigo escreveu sobre o Movimento O Sul é o Meu País. Bravo caro Cristiano. Ótima abordagem do assunto. Felicito o colega historiador pelas citação de José Bonifácio. Já o Padre Vieira também dizia que este país "no tamanho que está é ingovernável".

Discordamos fraternalmente apenas da afirmação de que "na conversa" não se vai longe. Por ser um Movimento pacífico, acreditamos com todas as nossas forças que é possivel sim, buscarmos nossa independencia sem guerra civil. Afinal, temos que acreditar que a humanidade já está cansada de tanta guerra. Que leve alguns anos a mais, mas certamente compensará, pois ao final, temos certeza, o bom senso vai prevalecer e seremos os melhores amigos e parceiros comerciais dos demais povos brasílicos.

Abaixo lhe envio uma matéria das últimas que largamos para a imprensa sobre a ação que realizamos nas capitais Sulistas no mês que findou.

Receba meu fraternal abraço e meu respeito como jornalista e historiador.


Celso Deucher
Presidente Movimento O Sul é o Meu País
Secretário Geral Gesul - Grupo de Estudos Sul Livre

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Separação da Região Sul venceria, segundo pesquisa do Gesul

Saber qual a opinião dos cidadãos da região Sul em relação a proposta de criação de um novo país composto apenas por Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Este foi o objetivo principal das pesquisas de opinião realizadas pelo Gesul (Grupo de Estudos Sul Livre) nas três capitais Sulistas, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.

No último fim de semana, 15 e 16 de outubro o Gesul concluiu a coleta de dados e na manhã desta segunda-feira, dia 17, divulgou os resultados finais das pesquisas que ao todo colheram uma amostra composta de 1991 eleitores das três capitais. Os números causaram surpresa até mesmo para a direção nacional do Movimento O Sul é o Meu País, única instituição na região Sul que defende a proposta de independência deste território.

Porto Alegre é a mais separatista

Desde os tempos do império, Porto Alegre tem sido uma das mais resistentes as propostas de uma possível independência do Sul. Não é atoa que ganhou do imperador o título de “mui leal e valorosa”. No entanto, segundo os dados do Gesul, isso já está se tornando coisa do passado, pois os números comprovaram que entre as três capitais, Porto Alegre é a mais separatista e a que possui o menor percentual de indecisos.

“Os números indicam que a capital gaúcha vem mudando seu perfil em relação a esta proposta ao longo do tempo, pois outras consultas da década de 1990, realizadas principalmente pelo Instituto Bonilha e pelo IBOPE indicavam que poderíamos perder num possível plebiscito naquela cidade”, avalia o presidente do Movimento O Sul é o Meu País, jornalista e professor Celso Deucher. Ele foi um dos que recebeu os resultados com surpresa, pois acreditava numa alta concentração de indecisos e numa disputa acirradissima entre os prós e contra a proposta.

Segundo os dados divulgados pelo Gesul, dos 664 portoalegrenses entrevistados, 48,20% posicionaram-se favoráveis a separação do Sul, sendo que 35,40% colocaram-se contra a proposta e apenas 16,40% ainda estão indecisos. “Ficamos todos surpresos e ao mesmo tempo felizes, pois trata-se de um resultado robusto, nos dando fortes indicativos de que com um bom trabalho naquela capital logo ultrapassaremos os 50% de aprovação. Certamente este é nosso objetivo para 2012, quando novamente pretendemos consultar os eleitores daquela capital”, diz Deucher.

Resultado apertado, mas positivo em Florianópolis

O Gesul já havia divulgado no último dia 8 de outubro os resultados da pesquisa realizada em Florianópolis onde foram entrevistados 663 eleitores e destes, 41,20% se posicionaram a favor da separação, enquanto 40,50% foram contra a proposta e 18,30% confessaram-se indecisos. “É uma vitória apertada, mas que foi muito comemorada por nós do Movimento já que as capitais sempre foram bastante difíceis de se trabalhar a questão separatista”, diz o presidente do Movimento O Sul é o Meu País.

O caso de Florianópolis segundo Celso Deucher possui indicativos importantes para uma análise mais global do fenômeno separatista na região Sul. “O nosso Manézinho da Ilha, assim como quase todos os habitantes da região litorânea Sulista, habitada majoritariamente pela etnia açoriana, historicamente mostrava certa resistência a proposta de secessão, devido a sua forte ligação a etnia portuguesa. A mídia dominante sempre tentou descaracterizar este povo chamando-os genéricamente de portugueses e portanto os mais legítimos brasileiros. Os números comprovam que isso é besteira e que independente da questão de pertença étnica, o florianópolitano decidiu-se pela sua consciência de cidadão Sulista”, avalia Deucher.

Para ele, os números da capital catarinense foram razoáveis, mas precisam melhorar muito para se chegar ao que ele reputa como sendo ideal. Para mudar este quadro, a entidade que dirige desde o ano passado, tem como meta, realizar até setembro do ano que vem um forte trabalho de divulgação da proposta em todo o município. “Na nossa próxima pesquisa tenho certeza que os números serão outros, pois já encarregamos a comissão municipal do Movimento em Florianópolis de turbinar as ações de divulgação”, diz.

Curitiba tem o maior número de indecisos


A capital paranaense também causou surpresa aos dirigentes do Movimento O Sul é o Meu País, mas desta vez pelos números negativos. É a primeira vez nas pesquisas que a proposta de separar a região Sul recebe um “não” de Curitiba. Além disso, os curitibanos são o povo mais indeciso das capitais do Sul.

Ao todo foram pesquisados 652 eleitores e os resultados foram os seguintes: 35,4% votaram a favor da proposta de separação do Sul, sendo que 36,8% declaram ser a contra da separação e 27,8% declaram-se indecisos. “Nossa proposta perdeu por apenas 1,4%, o que consideramos um percentual realmente muito pequeno, visto que a margem de erro da pesquisa é de 5%. No entanto, estes números alertaram aos nossos compatriotas daquela capital mostrando a necessidade de se fazer um grande e duradouro trabalho de esclarecimento da população em relação à questão, pois este número de indecisos indica que as pessoas ainda não conhecem nossa proposta”, diz Celso Deucher.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Histórias Íntimas: 500 anos de sexo


Em seu mais novo livro - “Histórias Íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil” (Editora Planeta, 2011, 254 p.) -, a renomada historiadora Mary Del Priore se dispõe a tratar de um assunto que interessa a todos: sexo. Aqui, os leitores são convidados e espiar pelo buraco da fechadura e conhecer como o sexo vem sendo pensado, reprimido, desvencilhado de tabus e praticado ao longo dos cinco séculos de história do nosso país. Desde as primeiras relações entre indígenas, escravos trazidos da África e portugueses colonizadores, passando pelas medidas higienistas associadas ao sexo no século XIX até questões atuais que abundam na mídia no que diz respeito ao sexo e à sexualidade, este livro se dispõe a mostrar que a teoria e a prática do que acontece entre quatro paredes (ou fora delas), vêm mudando no tempo e no espaço.

Quem diria que na época do Brasil colônia um belo par de seios fosse uma das coisas menos eróticas do corpo de uma mulher. Ou que a gordura fosse símbolo de beleza. Ou que um púbis extremamente cabeludo (enquanto que hoje quanto menos pelos, melhor) era o que poderia existir de mais sensual. Partes íntimas limpas e bem cheirosas? Isso era coisa pra broxar qualquer um no século XVII, como esclarece um poema do poeta baiano Gregório de Matos, que em meio a obscenidades aqui impublicáveis escreveu que “lavar a carne é desgraça” porque “perde a carne o sal, a graça”.

Vencidas as preliminares do período colonial, “Histórias Íntimas” desnuda os anos de 1800, um século que a historiadora definiu como hipócrita. Hipócrita porque, ao mesmo tempo em que a sociedade pregava a castidade e depois o recato no casamento, o adultério era prática comum especialmente, é claro, pelas escapadas masculinas até o bordel da esquina. Que o diga D. Pedro I, o homem que bradou “Independência ou Morte” e tornou-se nosso primeiro imperador. Além do grito da independência, o Foguinho (como era chamado pela sua amante Domitila, a Marquesa de Santos) ficou famoso também pelos seus casos fora do casamento. Para D. Pedro e demais homens do Império, manter relações em casa, com a esposa, só uma rapidinha e olha lá. E isso desde que seguindo determinadas posições permitidas pela igreja. Sexo gostoso não era coisa que se fazia com a mãe dos seus filhos. Para isso existiam as prostitutas. Esposa sentindo (ou mostrando) prazer em uma relação, nem pensar! Isso não era coisa de mulher direita.

Mas, eis que com a chegada do século XX as coisas começam a mudar. O cinema, as revistas, a indústria da moda, a propaganda, etc. , começam a transformar cada vez mais rapidamente os conceitos e a prática do sexo. Exemplo disso, um escândalo: no Rio de Janeiro começa a circular a primeira revista erótica, a “O Rio Nu”, inspirada em publicações francesas e que trazia ilustrações e histórias cheias de sacanagens.

O incentivo cada vez mais crescente às atividades físicas no início dos anos 1900 também vai alterar a percepção do que é um corpo bonito e sexualmente atrativo. Sai de cena a gordura para ganharem destaque cada vez maior os corpos sarados para serem exibidos em roupas mais ousadas. Se antes o corpo devia se escondido. Aos poucos as roupas começam a encurtar. Nas praias e piscinas de clubes, é o caso dos biquínis, que foram ficando cada mais pequenos que até cabiam na palma da mão. O conservador Nelson Rodrigues não deixou barato. Em “Histórias Íntimas”, Priore reproduz trecho de entrevista do dramaturgo em 1969 para a revista Veja. Nela, Rodrigues revela toda a sua perplexidade ao ver tantos corpos femininos quase nus sem com isso despertar maiores interesses masculinos. “A mulher mais invisível do mundo é a mulher de biquíni”, disparou. Para Priore, Rodrigues “não entendia o que via. Não se tratava de moda, mas da evolução da moral moderna”.

Moral moderna que avançou numa velocidade jamais vista depois dos anos de 1950 com a revolução sexual impulsionada pela invenção da pílula anticoncepcional. Depois da pílula, caíam por terra tabus como virgindade e sexo antes do casamento. Com seus ecos vindos da Europa e dos Estados Unidos, o feminismo e a contracultura contribuíam de vez para espalhar a revolução sexual. Os dogmas do sexo como pecado começaram a ser abertamente questionados e abandonados pela sociedade nos anos 1960 e 1970. Na contramão desse liberalismo, chegou a Aids nos anos 1980. Gerou (ainda gera!) preocupação, mas a doença não foi capaz de impedir que as pessoas hoje vivam o sexo em sua plenitude.

“Histórias Íntimas” mostra claramente que o sexo chega ao século XXI mais sem-vergonha e apelativo do que nunca. Porém, nem tudo são prazeres. Por mais que nos sintamos desencanados sobre o assunto, o sexo ainda é cercado por temas espinhosos e que abalam a sociedade, tais como homossexualidade, impotência, a violência contra a mulher, a pedofilia, a erotização dos meios de comunicação e a desestruturação familiar, já que cada vez mais o casamento é eterno enquanto dura. Sinais evidentes que em se tratando de sexo, muita água ainda haverá de passar por debaixo da ponte e que nem os próximos 500 anos deverão dar o assunto por encerrado.

Mary Del Priore faz de “Histórias Íntimas” um livro excitante, que mexe com a nossa imaginação, mas longe de apelar para a vulgaridade. Embora prazeroso, o assunto é sério. Com sua escrita simples, o livro acaba com qualquer frigidez e se abre para ser possuído tanto pelo especialista como pelo mais lascivo sujeito interessado em matar a curiosidade sobre o tema. Consumada a leitura, fica uma certeza só: cinco séculos depois das caravelas portugueses terem aportado no que ficou conhecido como Brasil, hoje estamos muito mais à vontade para gozar a vida, em todos os sentidos...

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O passado a gente deixa para trás


“Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...
Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!”

- Mário Quintana, em “A carta”

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Nas últimas semanas tenho sonhado com certa frequência com amigos da faculdade de Jornalismo em Ponta Grossa, que terminei já há tempo considerável. Engraçado é que sonho com eles como se estivéssemos nos encontrando nos dias de hoje (todo mundo com suas preocupações, empregos e aporrinhações do tipo, mas com a mesma cara da época em que estávamos saindo da adolescência). São geralmente sonhos daqueles malucos, sem pé e nem cabeça. Outros são igual redação de colégio: com começo, meio e fim e no meio disso tudo algum conteúdo.

Acredito que todo mundo sonha coisas parecidas com isso também. Dias atrás uma amiga disse que sonhou com o marido, já falecido. Sentiu-se como se estivesse com ele, sentiu seu abraço. Depois acordou e ficou só aquela saudade incrível. Coisa doida essa...

Os meus amigos do tempo da faculdade de Jornalismo, praticamente não os vejo mais, com raras exceções. Acontece de ver alguma matéria de alguém de tempos em tempos em algum jornal, ou ver algum na televisão apresentando uma reportagem, ou de esbarrar com o perfil de algum deles no Facebook ou coisa assim. Mas prefiro evitar maiores contatos...

Dias atrás vi que estavam programando um encontro da turma de formandos de 2000. Nada contra a ideia, mas não contem comigo. Tenho um receio absurdo desse tipo de coisa. Nostalgia e eu não fomos feitos um para o outro. E tem mais. E se aquela pessoa com quem me dava tão bem anos atrás hoje virou um chato de galochas? E se eu virei um chato maior ainda? E se a conversa ficar um troço meio forçado. Melhor não ir...

Só não pensem que não dou a mínima para essas pessoas. O problema é justamente o contrário: me importo demais com elas. Me importo tanto que quero ter todas elas guardadas na minha memória do mesmo jeito da época em que convivemos, época em que elas se tornaram uma espécie de família, já que pela primeira vez estava (estávamos!) morando fora e longe de casa. Sem pai e nem mãe por perto. Só essas pessoas, de início estranhas e, depois, tão próximas e necessárias.

Existem coisas que devem ficar guardadas só nas lembranças... Mas, isso não significa que não quero vê-los nunca mais. Quero, sim, e até torço por isso. Mas tem que ser por acaso, de uma forma inesperada. Coisa do destino, o mesmo destino que um dia nos colocou para festar, brigar, encher a cara com vinho barato, dividir a carteira de cigarro, consolar, jogar truco ao invés de estudar pra prova, sorrir, enfim, viver juntos por quatro anos de nossas vidas e depois cada um seguir seu rumo por esse mundão afora.

E se for para encontrá-los só em sonhos, que seja... Isso prova que ainda os levo vivos dentro de mim, o que é o mais importante.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Salinger: uma vida


Escrever a biografia de um escritor avesso à publicidade e entrevistas, extremamente zeloso em restringir o acesso ao público sobre o que se passava em sua vida particular e, ainda mais, que ficou praticamente recluso em sua casa em uma pequena cidade por mais da metade de sua vida. Uma tarefa difícil, mas não impossível, e foi esta a que se dedicou o estadunidense Kenneth Slawenski, que em 2004 criou o projeto DeadCaulfields.com, um site totalmente dedicado à vida do escritor J. D. Salinger. Após sete anos de intensa pesquisa, Slawenski finalizou “Salinger: uma vida”, biografia publicada originalmente em 2010, logo após a morte do autor do clássico “O Apanhador no Campo de Centeio”, ocorrida em 27 de janeiro do ano passado. No Brasil, a obra acaba de ser lançada pela editora Leya, com tradução de Luis Reyes Gil.

Jerome David Salinger é um dos maiores escritores do século XX. Nascido em Nova York em 1º de janeiro de 1919, tornou-se famoso em 1951 com a publicação de “O Apanhador no Campo e Centeio”, uma novela sobre Holden Caulfield, um adolescente expulso da escola que perambula por Nova York. Sucesso imediato quando lançado, considera-se hoje que o livro teve uma grande influência no fenômemo da adolescência rebelde da sociedade norte-americana da década de 1950, ao lado da geração beat (que Salinger criticava!), do surgimento do rock and roll e de filmes como “O Selvagem” e “Juventude Transviada”, estrelado por Marlon Brando e James Dean, respectivamente.

Antes mesmo do enorme sucesso de seu primeiro livro, Salinger era considerado um escritor promissor, tanto é que já era tratado de modo diferenciado pela famosa revista literária The New Yorker. Mas, antes de chegar até as páginas da famosa publicação, muitos contos do escritor foram editados em revistas de menor importância dos Estados Unidos. O segundo livro de Salinger é “Nove Histórias”, uma coletânea de contos publicada em 1953. Além deste e de “O Apanhador no Campo de Centeio”, Salinger publicou apenas outros dois livros: “Franny e Zoey” (1961) e “Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira & Seymor: uma introdução” (1963), que traziam textos anteriormente publicados em forma de contos pela The New Yorker, todos abordando os personagens da incomum família Glass.

O último texto publicado por Salinger foi “Hapworth 16, 1924”, que saiu também nas páginas da New Yorker em 1965. O conto, mais um sobre a família Glass, foi duramente criticado. Desde então, Salinger, com apenas 46 anos, desistiu de publicar e cada vez mais se esforçou para viver uma vida em total anonimato na sua casa na pequena cidade de Cornish, localizada a cerca de 380 quilômetros de Nova York, para onde se mudara em 1952. Avesso à mídia, recebendo em sua casa poucos amigos, o que Salinger fez até o fim de sua vida foi uma grande incógnita, fato que somente alimentou o mito em torno do escritor.

Na biografia que escreveu, Slawenski se esmera em revelar os motivos que levaram Salinger a se afastar cada vez mais do convívio público. Engana-se, por exemplo, quem pensa que o “fracasso” do último conto do escritor tenha tido maior peso na decisão dele de deixar de publicar. Ao longo do livro, Slawenski resgata, além da trajetória profissional de Salinger - um dedicado autor que exercia controle total sobre sua obra, desde a edição de uma simples vírgula até a capa de seus livros -, também a vida familiar e, principalmente, a jornada espiritual do escritor.

Instigante nesse sentido, por exemplo, é o capítulo em que Slawenski aborda a experiência de Salinger como combatente da Segunda Guerra Mundial, onde participou da famosa batalha do Dia D (06 de junho de 1944, na França) e os longos meses de combate que se seguiram até o fim do conflito, em 1945. Como não podia deixar de ser, os horrores da guerra, a morte violenta de amigos em campos de batalha, e a depressão que acometeu incontáveis soldados anos depois também afetaram profundamente a vida do escritor.

Desde seus primeiros textos, Salinger já trazia fortes traços de uma religiosidade, que do mundo real se transportava para a sua escrita e se manifestava em epifanias redentoras nas vidas de seus personagens. Conforme Slawenski, Salinger entendia cada vez mais que escrever era uma forma de oração. “Depois de O Apanhador no Campo de Centeio, o foco da ambição de Salinger mudou e ele se dedicou a produzir ficção incrustada de religião, em histórias que expunham o vazio espiritual inerente à sociedade americana”, afirma o biógrafo. Como reação ao seu desenvolvimento espiritual, Salinger acreditou ser necessário se afastar da badalação natural do estrelato, o que ele acreditava ser nocivo à sua meditação e trabalho como escritor.

Assim, quanto mais crescia a fama de Salinger, mais retirado ele ficava. Para Slawenski, “Salinger não escolheu deliberadamente se afastar do mundo. Seu isolamento foi uma progressão insidiosa que o envolveu aos poucos. Ele identificou as sombras descendo sobre ele, mas infelizmente se sentiu impotente para mudar o curso. Seu trabalho se tornara uma obrigação sagrada, e ele aceitou que aquela solidão e reclusão fossem o preço que ela exigia para ser cumprida”.

Desde quando deixou de publicar em 1965, sempre se especulou se, ao menos, ele continuou escrevendo, o que é praticamente certo. Quando da morte de Salinger, houve um frisson sobre onde estariam estes prováveis textos inéditos. Até hoje, ninguém os encontrou. Sobre isso, conforme relatado na biografia, existem as teorias mais diversas. Uma delas é que Salinger tenha enterrado seus textos em diversos pontos de sua propriedade em Cornish. Isso só reforça o sentimento de que dificilmente textos inéditos do escritor algum dia se tornem conhecidos. Salinger poderia ter publicado um novo livro quando quisesse. Ofertas não faltaram. Ele recusou todas. Junto a isso, pediu aos seus amigos que destruíssem todas as cartas por ele enviadas ao longo dos anos, em nome de sua privacidade, apagando material riquíssimo para biógrafos do autor, como Slawenski.

Mesmo diante de todos os esforços do escritor para tornar sua vida privada a mais desconhecida possível, em “Salinger: uma biografia” Slawenski produziu uma biografia de fôlego, intensa e contagiante. Certamente o biografado desaprovaria a publicação, desgostoso em ter sua vida tão exposta. Ciente disso, o biógrafo justifica humildemente a obra dizendo que ela é honesta e de coração: “Não é um pranto pelo morto. É um convite para uma saudação. Uma saudação não à memória, mas a essência de J. D. Salinger, e eu a ofereço aqui de novo a qualquer um que deseje honrar o escritor agora ou a qualquer momento nos anos que estão por vir”.

Se esta foi a proposta do livro, o biógrafo cumpriu o objetivo e, certamente, os leitores órfãos das famílias Caulfield e Glass aceitam de bom grado essa oferenda respeitosa e sem sentimentalismo de Slawenski a Salinger.

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Site do autor Kenneth Slawenski, dedicado a J. D. Salinger:
www.deadcaulfields.com

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Quebrando o Tabu: um outro olhar sobre as drogas


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se lançou em uma jornada espinhosa e polêmica: promover um debate internacional que vise incentivar formas diferentes de pensar e agir com relação às drogas. Atuando como presidente da Comissão Global de Políticas Sobre Drogas, FHC tem viajado pelo mundo, ouvindo e discutindo com especialistas, viciados, ex-usuários, traficantes, policiais, autoridades políticas respeitadas, etc.. Conforme mais se aprofunda no tema, mais ele se convence de que, da forma como as drogas são combatidas, esta é uma guerra perdida.

Uma parte desse trabalho do ex-presidente pode ser vista no documentário “Quebrando o Tabu”, recém lançado. No filme, dirigido por Fernando Andrade e tendo como um de seus produtores o famoso apresentador Luciano Huck, FHC se propõe a colocar o dedo na ferida e abrir uma discussão sobre como é possível lidar para de fato diminuir o problema o problema.

O filme inicia mostrando que desde que o mundo é mundo, as drogas sempre fizeram parte da vida das pessoas e que, portanto, sonhar com uma sociedade sem tóxicos, é utopia. Dito isso, parte-se para a Guerra às Drogas declarada pelos Estados Unidos em 1971, quando impôs tolerância zero aos usuários e traficantes de drogas ilícitas na sociedade estadunidense. Ideia que, como os Estados Unidos exercem forte influência nas Nações Unidas, acabou se espalhando por praticamente todo o planeta. Uma luta inútil pois, como temos visto nesses 40 anos desde que a Guerra às Drogas foi declarada é que, apesar de todas as prisões, apreensões e mortes, as pessoas nunca deixaram de se drogar e que o tráfico e violência nunca não parou de crescer.

É a partir desse ponto - a falência total deste modelo de combate às drogas (que no filme é confirmado pelos ex-presidentes dos EUA Jimmy Carter e Bill Clinton) - é que surge o que há de mais interessante em “Quebrando o Tabu”, que é a seguinte questão: se a repressão e a criminalização não resolvem o problema, o que fazer então? Certamente uma pergunta que sugere várias respostas e nenhuma delas definitivas. Mas existem experiências em alguns países que podem estar indicando o caminho.

Para conhecer essas respostas, FHC foi até à Holanda, Suíça e Portugal, onde políticas públicas que sugerem a descriminalização do usuário de drogas têm alcançado resultados encorajadores. Contudo, como é enfatizado no documentário, implantar tais mudanças indica também confrontar aspectos culturais e costumes de cada sociedade. De nada adianta mudar a lei, se esta não for acompanhada de educação e esclarecimento da população sobre as drogas, seus reais efeitos e consequências.

O documentário demonstra que alguns passos são importantes. Um deles é separar os tipos de drogas. Por exemplo: cocaína, crack e heroína, altamente viciantes e com potencial grande de degradação do usuário, não podem ser colocadas na mesma categoria da maconha, cujos efeitos - está se comprovando cada vez mais - são menos danosos ou no máximo equivalentes ao álcool e ao tabaco.

Aliás, a maconha recebe uma atenção especial no filme, tendo em vista que tem crescido em várias partes do mundo o movimento visando à descriminalização e até mesmo a legalização dela. É o caso de experiências da Holanda onde é possível comprar livremente maconha, seguindo algumas regulamentações que dizem respeito à quantidade e locais onde ela pode ser comprada e consumida em público. Tais iniciativas têm mostrado que a regulamentação do uso da maconha, ao invés de ser a porta de entrada para outras drogas, pode ser um impedimento para o consumo de outros tóxicos mais pesados e que são de interesse dos traficantes que o usuário consuma. O importante, então, seria afastar o usuário do traficante.

Em “Quebrando o Tabu”, são relevantes ainda os depoimentos, entre outros, do famoso médico Dráuzio Varella, que defende que os usuários de drogas devem ser tratados como doentes, e não como criminosos, e do escritor Paulo Coelho, que assume ter usado inúmeros tipos de drogas por um período em sua vida. E é dele um dos registros mais interessantes do filme. O escritor defende que não adianta dizer aos adolescentes e jovens que a droga é ruim, porque quando eles experimentarem vão perceber que a droga dá prazer. No entanto, é preciso dar informação sobre as consequências, para que as pessoas façam a escolha entre se abster ou não de tóxicos. E, como alerta Paulo Coelho, as pessoas precisam saber que, caso optem por usar determinadas drogas, podem estar abdicando do direito de decidir sobre os destinos de suas vidas, uma vez que o viciado passa a ser controlado pela droga, o que pode conduzi-lo a um caminho sem volta.

Com cerca de 80 minutos de duração, “Quebrando o Tabu” se propõe a jogar limpo com relação às drogas, sem alarde, sem preconceito, tratando o tema embasado na racionalidade. Ao contrário do que alguns possam estar imaginando, o filme não faz apologia às drogas. Apenas procura enfatizar métodos melhores para combatê-las. E por as drogas estarem nas ruas, nas escolas, no trabalho e, para infelicidade de muitos, dentro da própria casa, este documentário é obrigatório para professores, autoridades, pais, jovens, adolescentes... É um documentário para todo mundo.

Logicamente, ao fim do filme temos mais perguntas do que respostas. Deve-se liberar? Descriminalizar? Se for o caso, que drogas, para quem? Estamos preparados para isso? Quem sabe... Mas, sejamos sensatos de admitir que acabar com as drogas é impossível. Temos que nos conscientizar que existem meios de reduzir seus danos e o consumo. Basta procurar caminhos alternativos, que não apenas o de criminalizar, prender e matar quem vende e quem consome.

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Site oficial do filme:
www.quebrandootabu.com.br

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Quem sabe faz ao vivo e quebra tudo no final


Eu pretendia não voltar por um bom tempo ao assunto, mas já que estamos nesta semana de Rock in Rio e o negócio é quente, então vale a pena dar uma esticada no tema.

No sábado passado (24), relembrando, o disco “Nevermind” do Nirvana completou 20 anos e para comemorar a data e arrancar mais alguns milhões de dólares dos fãs (sim, eu também caí no golpe...), também foi lançado um edição super luxuosa do disco. Entre diversas gravações inéditas, raridades e faixas ao vivo, o melhor desse pacote é o DVD “Live at the Paramount”, que já está sendo vendido por cerca de R$ 40 no Brasil, mas quem quiser também encontra bem fácil para download em blogs especializados por aí.

O DVD tem algumas particularidades que o tornam tão especial. Uma delas é que o show registra o momento exato em que o Nirvana despontava para a fama mundial. Foi gravado em 31 de outubro de 1991, em Seattle (EUA), apenas cinco semanas após o lançamento de “Nevermind”. Outro ponto é a qualidade da imagem e áudio, já que é o único show da banda registrado em película, o que resulta em um vídeo de altísssima definição. Por fim, o que faz de “Live at the Paramount” um item obrigatório para os fãs é aquilo que mais importa: a banda em ação.

Enquanto a fama do Nirvana no início dos anos 90 só fazia crescer, a qualidade de seus shows ia ladeira abaixo. Talvez alguém se lembre da banda tocando no Brasil em 1993, no hoje extinto festival Hollywood Rock. O show de São Paulo foi definido pelos próprios Kurt Cobain e companheiros como a pior apresentação da carreira do grupo.

Uma semana depois, se apresentaram no Rio de Janeiro, com transmissão ao vivo pela Rede Globo. O show foi um pouco melhor, mas ainda assim, revendo o vídeo anos depois, é deprimente assistir Kurt Cobain anoréxico, chapadaço e com um tédio indisfarçável tocando na frente de 100 mil pessoas. O cantor era o retrato exato de uma música que ele escreveu e que o Nirvana gravou chamada “I Hate Myself and I Want To Die” (“Eu Me Odeio e Quero Morrer”).

Em “Live at the Paramount” a história é bem diferente. Tocando para um público de 5 mil pessoas, Kurt Cobain, Krist Novoselic e Dave Grohl, como fica evidente no DVD, estão se divertindo pra caramba com o sucesso que estavam fazendo naquele momento com “Nevermind”.

Fisicamente Kurt Cobain estava melhor, apesar de que na época já fosse viciado em heroína, mas não estava tão detonado pela droga. Ao todo, são 70 minutos de rock tocados com vigor e com verdadeiro “teen spirit”, encerrando com a destruição dos instrumentos, como era de praxe nas apresentações do Nirvana. Coisa linda de se ver!

O Nirvana em “Live at the Paramount” é rock em estado bruto. Talvez exatamente aquilo que tantos que por esses dias criticam o festival do senhor Medina gostariam de ver Rock In Rio...

sábado, 24 de setembro de 2011

"Nevermind", do Nirvana, completa 20 anos de lançamento hoje


Ao voltar para Deus com passo hesitante,
Com as canções meio escritas e a obra inconclusa,
Que trilhas teus pés feridos pisaram,
Que morros de paz ou dor escalaram?
Que Deus tenha sorrido, pego tua mão,
E dito: “Pobre bufão, louco de paixão!”
O livro da vida é duro de entender:
Por que não continuaste na escola?


- Charles Hanson Towne, no poema “Sobre um Suicida”, de 1919.

Neste sábado, 24 de setembro, “Nevermind” do Nirvana completa 20 anos de lançamento com o indiscutível mérito de ser, desde então, o último grande disco de rock. Há dez anos, “Is This it” dos Strokes talvez até se insinuou como um clássico, mas o tempo se encarregou de minimizar a importância do álbum daqueles moleques de Nova York. Eles fizeram uma grande estreia, mas longe de causar uma revolução. Ao contrário do Nirvana, que estreou sem estardalhaço com “Bleach” em 1989 e mudou a história da música pop dois anos depois com “Nevermind”, disco que subverteu para sempre a até então intocável divisão entre o underground e o mainstream.

Não havia dúvidas que 2011 seria um ano em que a gente ia ouvir falar muito sobre o Nirvana. Dave Grohl já havia dado a dica quando anunciou que Krist Novoselic participaria do novo disco do Foo Fighters, “Wasting Light”, lançado em abril e produzido por Butch Vig, o mesmo que assinou a produção de "Nevermind". Se isso foi homenagem ou oportunismo de Dave Grohl, fica a critério de cada um decidir. Depois, é claro, as matérias da imprensa ao redor do mundo. Desde o início do ano elas já começaram a inflar o oba-oba em torno do marco dos 20 anos, que virou fuzuê de vez quando foi anunciado o mega-pacote comemorativo, que inclui na sua embalagem mais gorducha um livro com fotos raras e inéditas, quatro CDs que contêm o “Nevermind” original remixado, outro “Nevermind” com uma mixagem alternativa (e mais pesada) jamais lançada, lados B, demos e a íntegra do show que o Nirvana realizou em Seattle em 31 de outubro de 1991, capturando o exato momento em que o Nirvana estava em ascensão meteórica rumo ao estrelato mundial. Mesmo show que também é lançado agora em DVD e poderá ser comprado separadamente. Enfim, um super lançamento, que acompanha ainda edições caprichadas em vinil quádruplo ou uma versão mais modesta em CD duplo.

Com previsão de chegar às lojas na próxima terça-feira (27), desde quarta-feira (21) os áudios dos quatro CDs do super box já escorriam pelos blogs ao redor do mundo. E ao por os ouvidos no material, para decepção dos fãs, fica evidente que é quase tudo mais do mesmo. De interessante mesmo é o show de 31 de outubro de 1991, embora o áudio, em boa qualidade, já fosse bastante conhecido de um disco pirata de nome “Trick or Treat”. Luxo mesmo, então, só o DVD, que sai com o título “Live at Paramount” e do qual algumas partes já foram vistas no clip de “Lithium” ou no documentário “Live Tonight! Sold Out!!”. Ah, o mesmo show também já havia sido dissecado pelo jornalista André Barcinski no livro Barulho, de 1992. Sim, o filho da mãe sortudo esteve lá, gostou muito do que viu e decretou na época:

“O legal do Nirvana é que eles ainda não têm uma história. Ela está sendo contada agora. Daqui uns dez ou vinte anos, a gente vai poder falar daquela ‘loucura do final de 91’".

O Nirvana escreveu rapidamente sua história, encerrada abruptamente quando Kurt Cobain disparou um tiro contra a própria cabeça. E com tudo o que já foi escrito, visto e falado desde então, é meio chato, redundante ou mesmo difícil escrever algo de novo sobre o Nirvana. Mas num exercício de paciência, seu e meu, vamos recapitular um pouco a história.

Nevermind

A banda nasceu oficialmente no dia 19 de março de 1988. Embora Kurt Cobain e o baixista Krist Novoselic já tocassem juntos há algum tempo, foi apenas alguns meses antes de lançar o primeiro single que eles batizaram a banda com o nome definitivo. O Nirvana estreou com um álbum em 1989. “Bleach” não teve nenhuma grande repercussão, embora tenha credenciado a banda para circular livremente entre a turma alternativa. O disco também rendeu a primeira turnê européia do Nirvana que passou por pequenos clubes junto com o TAD, nome de peso maior dentro da cena rock de Seattle.

O ano de 1990 foi fundamental para a carreira da banda. Descontentes com o rendimento do baterista, a banda deu adeus a Chad Channing e chamou para o seu lugar Dave Grohl. Foi o início da formação clássica do Nirvana. Kurt também não estava satisfeito com a gravadora Sub Pop e passou a enviar dezenas de fitas demos a vários selos. Em abril de 1991, a isca foi mordida pela DGC, um braço da gigante Geffen Records, que também havia contratado algum tempo antes o Sonic Youth, um dos maiores ídolos de Kurt Cobain. A princípio a DGC não se entusiasmou com o Nirvana e apostava poucas fichas na banda.

Quando a gravadora DGC contratou o Nirvana por 290 mil dólares, valor relativamente baixo para os números da indústria musical, a gravadora não tinha planos muito ambiciosos para a banda. Num primeiro momento, a Geffen esperava vender 50 mil discos e, com o passar do tempo e com um pouco de sorte, chegassem a 500 mil unidades - se alguém na época dissesse que 20 anos depois o álbum teria vendido mais de 30 milhões de cópias seria considerado maluco!

Em maio e junho de 1991m Kurt Cobain e seu colegas gravaram o disco “Nevermind”. O orçamento inicial para a gravação era de 65 mil dólares, mas até ser finalizado o custo subiu para 120 mil dólares, valor infinitamente maior do que os 600 dólares gastos na produção de “Bleach”. O nome “Nevermind” surgiu de uma conversa entre Kurt e o baixista Krist Novoselic. Numa tradução livre, o título do disco é algo como “Deixa pra lá” ou “esqueça isso”, o que Kurt entendia ser uma metáfora para o seu estilo de vida. “Nevermind” também remetia a “Smells Like Teen Spirit”, a música que estava se tornando a mais falada durante as gravações, embora inicialmente a banda achasse que o maior sucesso seria a faixa “Lithium”.

O Nirvana dedicou um bom tempo para a produção da capa. Kurt teve a ideia de colocar um bebê (Spencer Elden, hoje com 20 anos, na época fotografado peladinho por Kirk Weddle) nadando atrás de uma nota de um dólar. Era uma piada dos músicos com relação à própria banda, que ao abandonar o selo independente Sub Pop teria se vendido ou estaria nadando atrás do dinheiro fácil das grandes gravadoras. Ao mesmo tempo, a capa geraria controvérsia ao mostrar o bebê com o pauzinho de fora.

No dia 24 de setembro de 1991 “Nevermind” chegou às lojas. Em uma semana a prensagem inicial de 50 mil cópias havia se esgotado. Um mês depois, o álbum chegou à marca das 500 mil cópias comercializadas, causando um verdadeiro furacão dentro da DGC, que passou a dedicar mais atenção ao grupo. Ainda em outubro, a MTV incluiu o clipe de “Smells Like Teen Spirit” em sua programação normal. As boas vendas continuaram e em 11 de janeiro de 1992 “Nevermind” chegou ao primeiro lugar da parada da Billboard, ultrapassando “Dangerous”, do astro pop Michael Jackson. O Nirvana havia chegado ao topo.

Junto com Nirvana, toda a cena musical de Seattle cresceu junto. Nomes como Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains tiveram um impulso imenso em suas carreiras. Outras bandas como TAD, Mudhoney ou Love Battery, que estariam condenadas ao eterno anonimato se não fosse o empurrão de “Nevermind”, certamente estariam condenadas para sempre ao anonimato. A força do segundo álbum do Nirvana, enquanto propulsor de um fenômeno cultural, ainda hoje é difícil de dimensionar ou explicar. A toda aquela ebulição deram o nome de grunge, vendido como a coisa mais cool do começo dos anos 90 para logo depois ser descartado como mais um simples capricho desgastado da indústria fonográfica quando perdeu o gosto de novidade.

Lado Girl/Lado Boy

Grande parte de “Nevermind” é fruto de um coração partido. O biógrafo de Kurt Cobain, Charles Cross, no livro “Mais Pesado Que o Céu” afirma que quatro músicas presentes no disco foram escritas pelo líder do Nirvana após o rompimento do relacionamento de cerca de seis meses entre ele e Tobi Vail, integrante da banda Bikini Kill. São elas: “Smells Like Teen Spirit”, “Drain You”, “Lounge Act” e “Lithium”. Além dessas, também “Aneurysm”, que foi lançado como um lado B e depois apareceu também na coletânea “Incesticide”.

Kurt Cobain, segundo Cross, ficou com uma dor de cotovelo tão intensa pelo fim do namoro com Tobi Vail que, prestes a iniciar a gravação do que seria “Nevermind” ponderou por um tempo em dividir o disco em dois temas. O lado Girl – só com as canções traumaticamente inspiradas por sua ex-namorada – e lado Boy, com canções mais autobiográficas de Kurt, onde poderiam entrar faixas como “Sliver” e “Sappy”. O líder do grupo desistiu da ideia cafona, mas as canções sobre Tobi Vail permaneceram espalhadas por “Nevermind”. Como é comum entre os grandes artistas, Kurt Cobain transformou seu sofrimento no melhor de sua arte.

Porém, “o ódio que ele tinha pelos outros era leve comparado à violência que traçava contra si mesmo”, escreveu Charles Cross. Por um capricho do destino, a mesma dor emocional que inspirava Kurt Cobain a crescer artísticamente, abrindo-o para composições mais pessoais e dotadas de uma agressividade genuína, também escancararam as portas rumo à ruína total do músico. Sem Tobi, o líder do Nirvana encontrou consolo na heroína. Na época do lançamento de “Nevermind”, Kurt Cobain já era um junkie de primeira grandeza e nem o sucesso, o casamento com Courtney Love e o nascimento da filha Frances Bean serviram de consolo para ele. Embora jovem, rico e com uma nova família, aos vinte e poucos anos Kurt já se sentia “entediado e velho”, como cantou em “Serve the Servants”, música que abre o disco derradeiro “In Utero” e onde Kurt relaciona todos os motivos para o suicídio que iria cometer em abril de 1994.

O filhote estropiado da ninhada

O escritor norte-americano J. D. Salinger (1919-2010) na sua novela “Seymor, uma apresentação” (de 1959), escreveu:

“Parece-me indiscutível que muita gente no mundo todo, malgrado as diferenças de idade, cultura e dotes naturais, reage com ímpeto especial, em certos casos até mesmo febril, aos artistas e poetas que, além da reputação de produzirem arte de alta qualidade, têm algo extravagantemente errado como indivíduos: um defeito espetacular de caráter ou de comportamento cívico, uma desgraça ou vício supostamente românticos – extremo egotismo, infidelidade conjugal, surdez, cegueira, sede insaciável, tosse mortal, fraqueza por prostitutas, certa parcialidade em favor do adultério ou do incesto em larga escala, queda comprovada ou não pelo ópio ou sodomia etc. etc. Deus tenha piedade dessas solitárias criaturas. Se o suicídio não encabeça o rol das constrangedoras enfermidades dos homens criativos, é impossível negar que o poeta ou artista suicida sempre mereceu uma grande dose de ávida atenção, com frequência por razões meramente sentimentais, como se ele fosse (para colocar a coisa de maneira muito mais horrível do que realmente desejo) o filhote estropiado da ninhada”.

Uma descrição que cai como uma luva para Kurt Cobain, que na carta de suicídio descreveu a si mesmo como “um bebê errático e mal-humorado”. Somente alguém que tinha algo “extravagantemente errado como indivíduo”, um legítimo “filhote estropiado da ninhada” poderia conceber “Nevermind”. O disco em si é um punhado de canções com letras formadas por colagens autobiográficas de uma infância triste, uma adolescência turbulenta, um coração dilacerado pela rejeição amorosa e uma vida adulta predestinada à autodestruição. Tudo isso potencializado pela força avassaladora de uma guitarra, um baixo e uma bateria tocados com fúria autêntica por sujeitos que até aquele momento da vida não passavam de uns completos fodidos sem nada a perder.

É na dor, na raiva e na sinceridade contidas nos 42 minutos entre o início de “Smells Like Teen Spirit” e o fim de “Something in the Way” que o disco se impõe como algo muito maior do que um punhado de canções pop. Mas também vai além e cada um dos milhões de fãs ao redor do mundo tem seus motivos para fazer deste um álbum tão especial em suas vidas. Duas décadas depois, o disco continua carregado de significados, mesmo para as gerações que nasceram depois de ele ter sido lançado e hoje insistem em ouvi-lo incansavelmente. Isso, aliado à repercussão das comemorações do 20º aniversário, mostra que “Nevermind” definitivamente se estabeleceu como um marco da cultura da rebeldia, expressivo enquanto arte e misterioso o bastante enquanto fenômeno de massa para nos fazer correr atrás de respostas para tentar entender, afinal, o que foi toda aquela "loucura do final de 91"...