quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Quebrando o Tabu: um outro olhar sobre as drogas


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se lançou em uma jornada espinhosa e polêmica: promover um debate internacional que vise incentivar formas diferentes de pensar e agir com relação às drogas. Atuando como presidente da Comissão Global de Políticas Sobre Drogas, FHC tem viajado pelo mundo, ouvindo e discutindo com especialistas, viciados, ex-usuários, traficantes, policiais, autoridades políticas respeitadas, etc.. Conforme mais se aprofunda no tema, mais ele se convence de que, da forma como as drogas são combatidas, esta é uma guerra perdida.

Uma parte desse trabalho do ex-presidente pode ser vista no documentário “Quebrando o Tabu”, recém lançado. No filme, dirigido por Fernando Andrade e tendo como um de seus produtores o famoso apresentador Luciano Huck, FHC se propõe a colocar o dedo na ferida e abrir uma discussão sobre como é possível lidar para de fato diminuir o problema o problema.

O filme inicia mostrando que desde que o mundo é mundo, as drogas sempre fizeram parte da vida das pessoas e que, portanto, sonhar com uma sociedade sem tóxicos, é utopia. Dito isso, parte-se para a Guerra às Drogas declarada pelos Estados Unidos em 1971, quando impôs tolerância zero aos usuários e traficantes de drogas ilícitas na sociedade estadunidense. Ideia que, como os Estados Unidos exercem forte influência nas Nações Unidas, acabou se espalhando por praticamente todo o planeta. Uma luta inútil pois, como temos visto nesses 40 anos desde que a Guerra às Drogas foi declarada é que, apesar de todas as prisões, apreensões e mortes, as pessoas nunca deixaram de se drogar e que o tráfico e violência nunca não parou de crescer.

É a partir desse ponto - a falência total deste modelo de combate às drogas (que no filme é confirmado pelos ex-presidentes dos EUA Jimmy Carter e Bill Clinton) - é que surge o que há de mais interessante em “Quebrando o Tabu”, que é a seguinte questão: se a repressão e a criminalização não resolvem o problema, o que fazer então? Certamente uma pergunta que sugere várias respostas e nenhuma delas definitivas. Mas existem experiências em alguns países que podem estar indicando o caminho.

Para conhecer essas respostas, FHC foi até à Holanda, Suíça e Portugal, onde políticas públicas que sugerem a descriminalização do usuário de drogas têm alcançado resultados encorajadores. Contudo, como é enfatizado no documentário, implantar tais mudanças indica também confrontar aspectos culturais e costumes de cada sociedade. De nada adianta mudar a lei, se esta não for acompanhada de educação e esclarecimento da população sobre as drogas, seus reais efeitos e consequências.

O documentário demonstra que alguns passos são importantes. Um deles é separar os tipos de drogas. Por exemplo: cocaína, crack e heroína, altamente viciantes e com potencial grande de degradação do usuário, não podem ser colocadas na mesma categoria da maconha, cujos efeitos - está se comprovando cada vez mais - são menos danosos ou no máximo equivalentes ao álcool e ao tabaco.

Aliás, a maconha recebe uma atenção especial no filme, tendo em vista que tem crescido em várias partes do mundo o movimento visando à descriminalização e até mesmo a legalização dela. É o caso de experiências da Holanda onde é possível comprar livremente maconha, seguindo algumas regulamentações que dizem respeito à quantidade e locais onde ela pode ser comprada e consumida em público. Tais iniciativas têm mostrado que a regulamentação do uso da maconha, ao invés de ser a porta de entrada para outras drogas, pode ser um impedimento para o consumo de outros tóxicos mais pesados e que são de interesse dos traficantes que o usuário consuma. O importante, então, seria afastar o usuário do traficante.

Em “Quebrando o Tabu”, são relevantes ainda os depoimentos, entre outros, do famoso médico Dráuzio Varella, que defende que os usuários de drogas devem ser tratados como doentes, e não como criminosos, e do escritor Paulo Coelho, que assume ter usado inúmeros tipos de drogas por um período em sua vida. E é dele um dos registros mais interessantes do filme. O escritor defende que não adianta dizer aos adolescentes e jovens que a droga é ruim, porque quando eles experimentarem vão perceber que a droga dá prazer. No entanto, é preciso dar informação sobre as consequências, para que as pessoas façam a escolha entre se abster ou não de tóxicos. E, como alerta Paulo Coelho, as pessoas precisam saber que, caso optem por usar determinadas drogas, podem estar abdicando do direito de decidir sobre os destinos de suas vidas, uma vez que o viciado passa a ser controlado pela droga, o que pode conduzi-lo a um caminho sem volta.

Com cerca de 80 minutos de duração, “Quebrando o Tabu” se propõe a jogar limpo com relação às drogas, sem alarde, sem preconceito, tratando o tema embasado na racionalidade. Ao contrário do que alguns possam estar imaginando, o filme não faz apologia às drogas. Apenas procura enfatizar métodos melhores para combatê-las. E por as drogas estarem nas ruas, nas escolas, no trabalho e, para infelicidade de muitos, dentro da própria casa, este documentário é obrigatório para professores, autoridades, pais, jovens, adolescentes... É um documentário para todo mundo.

Logicamente, ao fim do filme temos mais perguntas do que respostas. Deve-se liberar? Descriminalizar? Se for o caso, que drogas, para quem? Estamos preparados para isso? Quem sabe... Mas, sejamos sensatos de admitir que acabar com as drogas é impossível. Temos que nos conscientizar que existem meios de reduzir seus danos e o consumo. Basta procurar caminhos alternativos, que não apenas o de criminalizar, prender e matar quem vende e quem consome.

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Site oficial do filme:
www.quebrandootabu.com.br

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