segunda-feira, 26 de julho de 2010

“Eu cortei a primeira árvore em Marechal Rondon”


Nesta semana após a festa do município, vou publicar algumas reportagens que produzi para um jornal especial de 50 anos, publicado pela Editora O Presente. Segue, abaixo, a entrevista com Osvaldo Heinrich, um dos três pioneiros que primeiro se instalaram no que veio a ser a cidade de Marechal Cândido Rondon.

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“Eu cortei a primeira árvore em Marechal Rondon”


Os passos são lentos. A fala é arrastada. O corpo, aos 81 anos, não esconde a saúde agora frágil. Da varanda da casa simples onde mora, Osvaldo Heinrich (foto) contempla com satisfação o desenrolar de uma história que ele começou a escrever há 60 anos: a história do município de Marechal Cândido Rondon, que em 25 de julho comemora 50 anos de emancipação político-administrativa.

“Eu cortei a primeira árvore”, lembra Osvaldo Heinrich, que no dia 07 de março de 1950 empunhou o machado e desferiu o golpe que ficou marcado para sempre como o mito fundador de Marechal Cândido Rondon, município que não cansa de enaltecer as virtudes, em especial o trabalho e a coragem, de seus pioneiros. Aos poucos, o gesto de Osvaldo foi cada vez mais sendo repetido pelos novos aventureiros e famílias que chegavam para iniciar uma nova vida na vila que florescia em meio a uma densa floresta no extremo-Oeste do Paraná.

Chegada


Osvaldo Heinrich chegou ao que viria a se tornar a cidade de Marechal Cândido Rondon em 22 de novembro de 1949. Aos 20 anos, ele ficou entusiasmado com os relatos do pai, que cerca de três meses antes esteve na região, a convite de Willy Barth, diretor da Colonizadora Maripá, para conhecer á área onde a empresa pretendia iniciar uma nova comunidade.

O pai de Osvaldo voltou para a cidade da família, Panambi (RS) e contou o que viu. Foi então que Osvaldo, solteiro na época, decidiu se aventurar nessa área não civilizada do Oeste do Paraná, juntamente na companhia de Erich Ritscher e Antônio Rockenbach, que também participaram da derrubada da primeira árvore.

Conforme Osvaldo, foram praticamente quatro meses vivendo sozinhos na floresta, dormindo no chão cercados pelos perigos da floresta, que os três homens pareciam desconsiderar. “De Toledo para cá era só mato, mas não era perigoso”, afirma o pioneiro.

Uma vez iniciada a derrubada da mata, os três desbravadores abriram uma clareira de 12,5 alqueires na região onde hoje está instalada a delegacia rondonense. Concluído o trabalho, começaram uma plantação de milho e de mandioca, sendo que as ramas, para iniciar o mandiocal, Osvaldo teve que buscar em Porto Mendes.

Caminhadas

A distância de outras localidades era um desafio e tanto para aqueles que estavam construindo a nova cidade. “Caminhei demais”, afirma Osvaldo, referindo-se aos dias em que andava por horas e horas seguidas a pé para ir até Toledo ou Porto Britânia (Pato Bragado) em busca de mantimentos. “Para ir até Toledo eram dois dias de caminhada, sozinho”, recorda.

Os primeiros tempos eram difíceis. Água eles obtinham das inúmeras fontes e riachos. O prato de praticamente todos os dias era um só: feijão e arroz. Porém, a caça era abundante: anta, paca, cotia, porco do mato, veado e outros animais. “Dentro do mato era só barulho de tanto bicho”, conta o pioneiro.

Como se pode perceber, o trabalho e as dificuldades eram muitas e a diversão, rara. Até porque, segundo ele, no início havia realmente poucas pessoas vivendo na nova vila.

Osvaldo casou com Adelina Vorpagel, já falecida, com quem teve quatro filhos: Nelson, Ilton, Rudi e Melani, que deram ao pai nove netos e dois bisnetos.

Memorial

Seis décadas depois de sua chegada, Osvaldo sente orgulho da cidade que começou a construir na companhia de amigos: “moro aqui há 60 anos. Ninguém imaginava que Marechal Cândido Rondon ficaria desse tamanho. A cidade cresceu, tem prédio, se desenvolveu. Trabalhei demais na vida. Mas a cidade está bonita. Eu estou feliz”.

Osvaldo Heinrich, assim como Erich Ritscher e Antônio Rockenbach, estão especialmente homenageados no Memorial dos Pioneiros, encomendado pela Acimacar e esculpido pelo artesão rondonense Hedio Strey. A obra fica exposta no Centro de Eventos durante a ExpoRondon. Osvaldo Heinrich participou da cerimônia de inauguração do memorial, ocorrida na noite de quinta-feira (22).


(Cristiano Viteck, O Presente - 50 anos de Marechal Cândido Rondon _ JULHO/2010)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A arte de fotografar a natureza


“O meu trabalho é voltado para a conscientização sobre o meio ambiente. Tentar, através da fotografia, transmitir informações sobre a necessidade de preservarmos a única casa que a gente tem. Entender que a gente faz parte e não que é dono do planeta.” É assim que o curitibano Zig Koch define a motivação que o levou a ser um dos fotógrafos mais renomados do Brasil quando o assunto é registrar imagens da natureza. Diplomado em Arquiteta e Urbanismo em 1982, exerceu o trabalho de arquiteto por apenas quatro anos, até que, em 1986, Koch decidiu dedicar-se exclusivamente à fotografia, arte que já lhe era uma paixão desde a adolescência.

Hoje, Zig Koch possui em seu currículo trabalhos para grandes revistas brasileiras, como Veja, Caminhos da Terra, Viagem e Turismo, Elle, Ícaro, Manchete, Horizonte Geográfico, entre outras, as quais reproduziram em suas páginas inúmeras imagens captadas pelo fotógrafo ao longo de incontáveis viagens pelo Brasil, Europa, África e Estados Unidos. Zig Koch também conta com uma série de trabalhos para órgãos ligados ao governo e entidades não governamentais, além de fazer parte de mais de uma dezena de livros, diversos calendários e peças publicitárias de caráter nacional e internacional.

Segundo Koch, desde que começou a fotografar o seu foco sempre foi a flora, a fauna e paisagens. “Como eu gostava muito de natureza, em 1982, fiz o primeiro curso de observação de aves, provavelmente do Brasil. Neste curso tinha um módulo que era fotografia. Eu já fotografava e fiz esse curso para entender melhor as fotos de natureza que eu estava fazendo. Para entender o objeto das fotografias que está fazendo você tem que estudar o meio ambiente”, ensina Zig Koch, que também ministra palestras e promove cursos de fotografia.

Ao longo dos quase 25 anos de trabalho como fotógrafo profissional, o curitibano montou um arquivo com cerca de 170 mil fotos (entre cromos e imagens digitais). Uma pequena parte delas, cerca de 15 mil, está disponível no site criado pelo fotógrafo (www.naturezabrasileira.com.br).

Entre os trabalhos realizados, alguns dos que ele considera mais interessantes foram realizados para a WWF, famosa entidade voltada para a conservação da natureza. Ao todo foram seis expedições ao Pantanal e à Amazônia. “Dessas, a expedição para o Parque Nacional do Juruena (MT) acredito que tenha sido a melhor em vários sentidos, desde as possibilidades de fotografia, a estrutura muito bem montada, com caminhão, carro, barco, avião, helicóptero. Isso possibilitava uma mudança muito rápida de foco de fotografia, ainda mais na Amazônia, onde tudo é muito longe, muito difícil. Sempre é um trabalho de risco.”

Conhecer para amar


Antes de decidir seguir a carreira como fotógrafo profissional, Zig Koch comenta que, com o seu trabalho como arquiteto atuante na área de planejamento urbano, a ideia dele era fazer ações que beneficiassem muitas pessoas. Nesse sentido, ele acabou percebendo que um problema era a falta de conhecimento das pessoas sobre o meio ambiente. Isso porque, vale lembrar, na década de 80 os assuntos ligados à natureza não estavam tão em evidência como nos dias atuais.

Intuitivamente, Zig Koch acreditava que através das imagens seria possível levar às pessoas mais conhecimentos sobre o meio ambiente e, dessa forma, estimulá-las a terem uma atitude mais consciente a respeito da natureza. Na opinião do fotógrafo, “as pessoas amam o que conhecem. Se elas começam a perceber que existe uma relação de vida entre as pessoas e o meio ambiente e que isso traz um benefício grande para a gente, o comportamento delas com a natureza pode ser diferente. Esse é o mote do meu trabalho até hoje. Muita gente pensa que as pessoas e o meio ambiente são coisas separadas e cada um tem que ficar no seu espaço. Mas as coisas não têm uma separação física. Tudo é meio ambiente.”


- (Cristiano Viteck, revista Amigos da Natureza - Junho/2010)

FOTO: Zig Koch

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Histórias que se perdem...


Não sabemos nada de nossa história, ou sabemos muito pouco. A ficha caiu esta semana em que estou fazendo uma série de reportagens para um jornal especial sobre os 50 anos de Marechal Cândido Rondon, que circula na próxima semana. Trata-se de um pequeno punhado de entrevistas que nem de longe cobre tudo o que de interessante aconteceu em Marechal Cândido Rondon desde 1950. Na verdade, é uma gota d’água em meio ao oceano.

Na linha da história, o nosso município é um bebê. Para se ter ideia, o primeiro homem que veio aqui fazer as medições iniciais de terra ainda está vivo. O mesmo acontece com um monte de outros personagens, ilustres e anônimos que estão por aí, com suas passagens de vida fervilhando no caldo da memória, esperando serem registradas antes que se apaguem definitivamente.

É fato que muito se escreveu e se pesquisou sobre o passado da nossa cidade, principalmente nos últimos anos. Muitos desses trabalhos estão lá, guardados (pra não dizer esquecidos), nos arquivos do curso de História da Unioeste. Outros trabalhos foram publicados em forma de livro – e aqui vale o reconhecimento a Venilda Saatkamp, Robson Laverdi, Jadir Zimmermann, Ana Paula Wilmsen, Maria Cristina Kunzler, Valdir Gregory, Udilma Weirich, Tarcísio Vanderlinde e outros mais que se dedicaram e ainda se dedicam a preservar os fragmentos de nosso passado.

Mas tem espaço para muito mais. Nesse momento em que Marechal Cândido Rondon comemora seu cinquentenário, seria ideal pensar seriamente na criação de um fundo municipal para financiar pesquisas de cunho histórico, quem sabe em uma parceria com o curso de História da Unioeste. Esse mesmo fundo poderia bancar também a publicação desses materiais em livros, em filmes, em fotos e no que mais for possível.

O jeito de gerenciar é o de menos. O que não podemos é deixar que as nossas histórias simplesmente se apaguem. E nisso o poder público tem um papel fundamental... É obrigação dele, e de todos nós, preservar as nossas memórias e identidades...

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Na foto, a primeira prefeitura de Marechal Cândido Rondon, em 1961.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A caçada ao assassino de Lincoln


Concluí a leitura de um dos livros mais bacanas que já caíram nas minhas mãos nos últimos tempos. “A Caçada ao Assassino de Lincoln: 12 dias que abalaram os EUA”, de autoria do advogado estadunidense James L. Swanson. Originalmente publicado em 2006, foi lançado no Brasil um ano depois, pela editora Record. Está a venda pela bagatela de R$ 9,90 nas Livrarias Curitiba.

Como o título já deixa claro, a obra, um calhamaço de 500 páginas, reconstitui o assassinado do presidente Abraham Lincoln, ocorrido na noite de 14 de abril de 1865, no Teatro Ford, em Washington. Era uma Sexta-feira Santa e o então presidente norte-americano regozijava-se ainda com a vitória dos Estados do Norte sobre os do Sul na Guerra da Secessão, que dividiu o país de 1861 a 1865 e acabou poucos dias antes do assassinato do então líder da nação.

Décimo sexto presidente dos Estados Unidos, Lincoln foi morto por um único tiro certeiro disparado à queima roupa de dentro do camarote presidencial pelo ator John Willes Booth, enquanto o presidente assistia a uma peça. Desgostoso com o fim da escravidão, abolida por Lincoln em 1863, Booth já havia meses antes articulado o sequestro do presidente, sem sucesso. O ator decidiu matá-lo após ficar enfurecido quando ouviu um discurso, no qual o presidente afirmava que concederia direito de voto aos negros. Três dias depois do anúncio, Booth disparava o tiro fatal, em uma trama rapidamente articulada e que contava com outros comparsas encarregados de prestar ajuda na fuga ou de promoverem os assassinatos simultâneos do vice-presidente e do secretário de estado William Henry Seward, estes sem sucesso.

A caçada a Booth durou 12 dias, até que acabou morto por disparo de arma de fogo dentro do celeiro de uma propriedade rural no Estado da Virgínia, durante uma tentativa de captura mal sucedida. E é justamente a fuga de Washington rumo ao Sul do país que está centrada a narrativa do escritor James L. Swanson. Claro que ele remonta, com riqueza de detalhes e com um talento impressionante para dar ritmo e emoção aos fatos, os preparativos, o momento exato do assassinato do presidente e todos os fatos que se seguiram durante a caçada, terminando a história com os enforcamentos e prisões dos cúmplices de Booth, além de um breve relato sobre a mitificação do ator-assassino durante os anos que se seguiram após a sua morte.

Como se já não bastasse o interesse natural que a história desperta, a forma como ela é retratada na obra é um estímulo a uma leitura voraz e nada cansativa das cinco centenas de páginas que formam o livro. Fluente em temas como história e cultura norte-americana, o autor consegue repassar ao leitor o clima da época retratada. Mensagens telegráficas, cavalarias, trens, barcos a vapor, estalagens... um verdadeiro bang bang da vida real. Tudo isso escrito a partir de inesgotáveis fontes de pesquisa utilizadas por Swanson, que ainda disponibiliza no livro algumas imagens e fotos das principais personagens e lugares que fizeram do assassinato e da caçada ao carrasco do presidente Lincoln um dos momentos mais marcantes da história dos Estados Unidos.

“A Caçada ao Assassino de Lincoln: 12 dias que abalaram os EUA” é leitura altamente recomendável tanto para historiadores como para leigos, interessados simplesmente em desfrutar da companhia de um bom livro. E este, certamente o é!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A cultura da hortelã no Oeste do Paraná - Parte Final


LEGENDA: Seu Zequinha: “sinto muita saudade. Isso nunca mais sai da memória da gente”.

Costumes diferentes

Em sua dissertação, Gilson chama a atenção para as diferenças nos modos de viver entre os migrantes vindos do sul e aqueles que chegaram de outras regiões do país. Uma, já apontada, é que os catarinenses ou gaúchos, em sua grande maioria, adquiram terras nos primeiros anos da colonização, enquanto que os outros quase sempre vinham para trabalhar nessas áreas como empregados, meeiros ou arrendatários.

Esse fato levava a uma situação até engraçada, porque os migrantes do sul, geralmente, pressupunham que os “nortistas” tinham vocação ou já sabiam lidar com a hortelã, o que estava longe da verdade. “É um conhecimento que eles adquiriram trabalhando, por uma questão de necessidade de sobrevivência. Pelos relatos dessas pessoas, elas não sabiam, nem conheciam o que era a hortelã”.

Outro estranhamento era a maneira de lidar com o dinheiro. “Eles não tinham muito o costume de economizar”, diz Gilson sobre os trabalhadores ditos nortistas, embasado em entrevistas feitas com migrantes tanto do sul como das outras regiões. Huberto Dörner, 66 anos e pequeno produtor que chegou em Mercedes em 1961 e que também chegou a trabalhar com a hortelã, mas numa pequena área, corrobora com a afirmação.

Músico que tocou em muitos bailes da época, Huberto entende que “o caboclo, os paulistas que vieram na ocasião aí, eles não sabiam economizar, deixar pra amanhã. Torravam o que tinham. Se tinham os últimos cinco pilas no bolso, não iam embora sem gastar e amanhã eles começam tudo de novo”. Em razão disso, além do fato de haver um grande número de pessoas na época da hortelã, ele afirma que na época “quem mais faturou foram os comerciantes de Mercedes”.

Seu Geraldo, o mineiro que trabalhava como peão na atividade, comenta que, no seu caso, “o dinheiro que às vezes a gente tinha ia passear, rapaz solteiro, sabe como que é, né! Não segura muito o dinheiro. Então, tudo que eu via eu comprava”.

O fim

A cultura hortelaneira exige um solo bastante rico, o que se encontrava facilmente na região. Para tanto, bastava fazer o desmatamento. Realizada essa tapa, se plantava as mudas, que estariam prontas para o primeiro corte dentro de 120 dias, em média. Assim, a planta brotava novamente e outro corte podia ser feito depois de quatro meses, o que resultava em três colheitas a cada ano. Porém, como a hortelã é uma cultura que exige muito do solo, uma área servia para a atividade por no máximo cinco anos. A partir desse período a produção começava a definhar, o que exigia a derrubada de novas áreas da mata.

Uma vez feito o corte, as plantas eram levadas para o alambique, onde se extraía o óleo. Este era o produto que as empresas compradoras estavam interessadas e pelo qual faziam o pagamento conforme o total de gramas de óleo que era entregue em cada venda.

Com o esgotamento do solo e sem mais áreas para onde expandir, ao final da década de 1970 a produção acabou se tornando inviável e foi substituída por outras atividades, entre elas, a cultura da soja, que foi intensificada. Sem terem mais onde trabalhar, uma vez que no mesmo período aconteceu a mecanização das práticas agrícolas, que reduziu drasticamente a necessidade de mão-de-obra, muitas pessoas acabaram indo embora da região. Quem ficou, teve que se adaptar à nova realidade e buscar outras alternativas de renda.

Além do colapso da economia ligada à hortelã, a cultura deixou também um enorme rastro de destruição da natureza, em um período em que já se começavam os alertas sobre a necessidade de se cuidar do meio ambiente. Conforme o historiador Gilson, na época, “a Copagril, nos seus informativos, já alertava que, junto com a produção agrícola, que necessitava de uma área cada vez maior, existia também uma preocupação com o meio ambiente”.

Atualmente, a devastação da natureza da região está muito associada ao processo de mecanização agrícola, mas antes, conforme o pesquisador, esse processo já estava em andamento. “A hortelã colaborou bastante para a devastação”, afirma o pesquisador, que revela que os próprios governos acabavam incentivando a derrubada da mata. “A partir dos relatos que eu trabalhei, foi colocado que quanto mais mato você derrubava, mais terra você estava ocupando e maior era o financiamento que podia fazer. Derrubava-se o mato até a barrancas dos rios. Queimava-se a madeira ou jogava no rio”, revela.

Daquele período, hoje restam somente as lembranças, algumas fotos ou poucos documentos espalhados por aí. Mas alguns que viveram no dia-a-dia a cultura da hortelã, como Seu Zequinha, ainda estão por aí e lembram muito bem de toda aquela história. “Foi uma época boa. Uma luta que valeu a pena. Sinto muita saudade. Ainda sonho com a lambicação da hortelã e isso nunca mais sai da memória da gente”, garante o agricultor.

terça-feira, 11 de maio de 2010

A cultura da hortelã no Oeste do Paraná - Parte 2


LEGENDA: Alambique para a extração do óleo da hortelã.

Migrantes

O ciclo da hortelã se estendeu aproximadamente de 1968 a 1978. Os compradores geralmente eram empresas japonesas, que adquiriam basicamente o óleo da planta, que era extraído pelos próprios produtores da região em alambiques, num processo conhecido como lambicagem. O produto era destinado, entre outros fins, às indústrias de cosméticos e farmacêutica.

A hortelã exigia bastante mão-de-obra. “Todo o processo era manual. Trabalhadores da época colocam que era uma atividade pesada, mas que era boa”, diz o historiador. Isso explica, em partes, o grande fluxo de pessoas que chegou à região. Em 1970, por exemplo, a população de Marechal Cândido Rondon (que na época ainda contava com os distritos de Mercedes, Entre Rios do Oeste, Pato Bragado e Quatro Pontes, todos emancipados no início dos anos 1990) era de mais de 43 mil habitantes. Conforme Gilson, “havia um movimento grande na cidade, muitos táxis, um comércio forte. Não tem comparação, mesmo agora, com toda a estrutura que se tem”. No caso de Mercedes, os números comprovam o crescimento populacional: em 1960, no distrito moravam 1.509 pessoas e, em 1981, o total havia saltado para 5.752 habitantes, população próxima à atual no município.

Uma das preocupações da pesquisa foi resgatar a memória daqueles que não são privilegiados na história da região, ou seja, os pioneiros que não vieram do Rio Grande do Sul ou Santa Catarina. “Muito se fala do migrante sulino como o tipo ideal para se colonizar a região. Mas, tivemos também pessoas vindas de outros lugares como Minas Gerais, Bahia, São Paulo, até mesmo do norte do Paraná. Essas pessoas, geralmente, não vieram para comprar a terra, que era o caso da maioria dos migrantes sulinos. Eles vieram em busca de trabalho. São os chamados trabalhadores itinerantes, que encontraram na nossa região as plantações de hortelã. Muitos desses migrantes trabalharam alguns anos na atividade hortelaneira e depois foram embora. Trabalhavam como arrendatários, meeiros, desenvolviam o trabalho pesado. Então, é possível perceber que não foi uma migração homogênea que veio do sul. Mas, sim, que havia pessoas vindas de várias regiões, e isso já na década de 1960”.

Geraldo Alves Gonçalves, hoje com 49 anos, é um desses trabalhadores migrantes que, paticamente por acaso, chegou em Marechal Cândido Rondon em 1974 e viu na hortelã a sua primeira oportunidade de trabalho.

Natural de Poté, Minas Gerais, Geraldo deixou o lugar em que nasceu aos 11 anos, quando mudou para a cidade de São Paulo, onde o irmão trabalhava como pedreiro. Na capital paulista vendeu picolé, entregou jornal, mas o dinheiro era pouco. Então, ainda adolescente, foi tentar a vida em Curitiba, onde não passou mais do que algumas horas até decidir vir para Marechal Cândido Rondon, acabando por se instalar em Mercedes, em 1974, época que a cultura hortelaneira estava indo muito bem.

Memórias

“Quando eu cheguei era tudo mato, que foi derrubado para o plantio da hortelã”, recorda Geraldo. Segundo ele, lidar com a cultura era um trabalho sofrido: “você tinha que derrubar o mato, queimar, fazer a muda e plantar a hortelã. Mas era um trabalho que a gente ficava mais satisfeito, porque na época trabalhava e tinha dinheiro. Hoje você trabalha e não tem. Na época, tudo que eu via eu comprava. Uma bicicleta nova, um sapato bonito que eu queria comprar eu comprava, uma roupa. Na época era muito bom, eu queria que voltasse aquele tempo que nós tinha”.

Geraldo conta que quando veio para a região, nem ao menos conhecia a hortelã. Mas, tão logo percebeu que apesar da lida dura, essa era uma atividade rentável, ele passou a trabalhar na cultura também. “Eu era pinga-pinga, parava em qualquer propriedade. Eu chegava e pedia se tinha serviço pra cortar hortelã. Aí quando tinha, eles me davam comida, me davam roupa, dormia ali mesmo e no outro dia direto de novo, até acabar a hortelã. Então quando acabava numa propriedade, ia pra outra”.

O serviço era pago por salamim (uma área de 25 m x 55 m). “Quando eu comecei a cortar hortelã, eu não sabia como fazer, cortava com enxada. Não cortava nem meio salamim por dia. Aí inventaram aquela gadanha, uma espécie de foice, daí passei a cortar um por dia, no outro dia já cortei dois e assim foi indo”.

Seu Zequinha, aquele do começo da reportagem, começou a trabalhar com a hortelã em 1971, também por acaso. Inicialmente, quando chegou em Mercedes, a idéia era cultivar milho, soja e mandioca, numa empreitada junto com o seu irmão. No início, o trabalho foi como o planejado. Em 1970, fizeram a derrubada da mata e plantaram milho, que rendeu uma boa colheita. Porém, em conversas surgiu a idéia de plantar hortelã, em área arrendada, o que causou espanto à sua esposa. “Disse ela pra mim: ‘nós vamos deixar de plantar planta pra plantar mato?’. Eu disse: “mulher, a gente faz uma experiência na vida também’”.

A atividade deu certa. Zequinha e a família cultivaram a hortelã por cerca de cinco anos. Ele lembra que a atividade dava um bom dinheiro. “Olha, rapaz, era até interessante porque, às vezes, amanhecia o dia e você tava duro igual santo de igreja. Sem dinheiro, às vezes sem comida, aí quando era pelas 10 horas, o comprador chegava e a coisa mudava, porque a gente vendia tudo à dinheiro. Era uma plantação de rendimento. Mas teve muito coitado que se saiu bem, mas não teve um grande futuro, porque achava que nunca ia acabar aquela riqueza".

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A cultura da hortelã no Oeste do Paraná - Parte 1


LEGENDA: Colheita da hortelã em Mercedes, no início da década de 70.

Nesta semana, será publicada em partes, aqui no blog, reportagem que publiquei na Revista Região em 2009, sobre a cultura da hortelã na região de Marechal Cândido Rondon nas década de 1960 e 1970. O assunto foi tema da dissertação do meu colega de mestrado, Gilson Backes, que realizou uma pesquisa extremamente interessante sobre a cultura da hortelã e a importância econômica e social que ela teve na região. Mas, que mesmo assim, hoje é pouco lembrada na história regional.

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Ouro verde

Capítulo quase apagado da nossa história, cultura da hortelã teve papel fundamental na economia da região na década de 1970

Por Cristiano Viteck

“Quando alguém falasse em hortelã, nós devia tirar o chapéu da cabeça e por a mão pro céu porque foi da hortelã que nós conseguimo tudo o que nós temo aqui”. Nesses tempos em que as plantações de soja e milho predominam no extremo Oeste do Paraná, a afirmação feita por José Honorato Alves, mais conhecido como Seu Zequinha, pode soar estranha para os mais jovens e, por outro lado, deve despertar uma série de lembranças naqueles que já viviam na região durante os anos de 1970.

Episódio quase esquecido da história regional, o cultivo da hortelã foi uma das atividades econômicas mais rentáveis já praticadas em Marechal Cândido Rondon e municípios vizinhos. Uma época de trabalho árduo, mas para muitos, também bastante feliz, tanto que as lembranças emocionam profundamente Zequinha (hoje com 77 anos e morador da Linha Gruta, interior de Mercedes), ao lembrar daquele período em que, ao lado da esposa – já falecida – e dos filhos, encontrou na cultura da hortelã condições de criar sua família e de adquirir a propriedade de 11,5 hectares onde reside há muitos anos.

Morando em Mercedes (na época distrito rondonense) desde 1969, vindo de Palhoça, Santa Catarina, Seu Zequinha é apenas uma entre as incontáveis pessoas que dedicaram parte de sua vida ao cultivo da hortelã.

Uma atividade que teve um ciclo rápido, de pouco menos de 10 anos, mas que provocou um grande processo migratório à região. Gente que veio do sul do país, mas também de outros estados como São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e Bahia, entre outros, em busca de uma vida melhor ou apenas oportunidades de trabalho e que, tão logo encerrou-se o período hortelaneiro, promoveu uma nova diáspora pelo Brasil afora.

Pesquisa

Relatos como o de Seu Zequinha e a curiosidade de conhecer mais sobre aquela época inspiraram o historiador de Mercedes, Gilson Backes, a dedicar-se a uma aprofundada pesquisa que resultou na dissertação “As plantações de hortelã e as dinâmicas socioculturais da fronteira: memórias, trajetórias e estranhamentos em Mercedes”, que desenvolveu no Mestrado em História da Unioeste, defendida no final de maio e bastante elogiada. A partir de uma série de entrevistas e de uma apuração junto às mais diversas fontes, Gilson conseguiu resgatar a ciclo da hortelã na região, com o mérito de colocar em evidência o elemento humano.

Ele explica que a pesquisa surgiu das conversas que tinha com os familiares, que contavam sobre o grande número de pessoas que viviam em Mercedes na época da hortelã. “Me instigou pensar como um número tão grande de famílias vivia em áreas pequenas de terra e ao mesmo tempo saber quem eram essas pessoas, que hoje o pessoal chama de nortistas. Outro fato que no princípio me chamou atenção foi o grande número de escolas que existiam no município. Na década de 1970 havia só em Mercedes 19 escolas rurais, escolas com 80, 100 alunos, 120 alunos. No Arroio Guaçu a escola chegou a ter, em 1974, mais de 200 alunos. E eu começava a pensar, ‘onde estão essas pessoas, como viviam?’”.

No levantamento de fontes, ele percebeu “que poucas pesquisas falavam da cultura da hortelã, ou quando era apresenta, ela era dada como uma atividade passageira. Ou, no máximo, se aponta o grande número populacional da época, ligado ao cultivo da hortelã. Mas foi um período importante da história da região”.