quinta-feira, 4 de março de 2010

Ramones: estrada para a ruína


A história já foi contada milhões de vezes. Em 1974, quatro rapazes nova-iorquinos formam uma banda de rock sem nem ao menos saberem tocar direito seus instrumentos. Tentam fazer covers de seus ídolos mas as versões são tão sofríveis que logo decidem escrever suas próprias músicas, marcadas pela economia de acordes e pelo desleixo com as letras. Com algumas composições no repertório, eles assumem jaquetas de couro e jeans rasgados como uniforme e tomam emprestado o pseudônimo que Paul McCartney usava para se registrar nos hotéis. Pronto: nascem os Ramones e, com eles, inaugura-se o punk rock. Daí em diante a música pop jamais será a mesma.

Por trás desse conto de fadas, porém existia uma realidade muito mais obscura e que só acabou se revelando com o fim do grupo, no dia 6 de agosto de 1996. Drogas, álcool, frustrações, brigas, disputas por garotas e pelo controle da banda. Este era o clima vivido pelos Ramones na maior parte dos 22 anos de existência do grupo. Enfim, uma realidade muito distante daquela imagem de família feliz que os “irmãos” Ramone vendiam para a mídia e para os fãs. E é justamente sobre este lado negro da banda que os diretores Michael Gramaglia e Jim Fields apontam os holofotes no documentário "End Of The Century: The Story Of The Ramones", lançado originalmente em 2003.

Praticamente desconhecidos como documentaristas, Gramaglia e Fields mergulharam de cabeça no projeto logo após a morte do vocalista Joey, vitimado pelo câncer linfático em maio de 2001. O que de início tinha tudo para dar errado acabou se tornando o documentário mais importante já produzido sobre os Ramones, por fugir totalmente dos clichês da maioria dos documentários sobre bandas de rock. Ao invés de jogar confetes, os diretores colocam o dedo na ferida. Contando na maior parte do tempo com entrevistas registradas com exclusividade para o documentário – com exceção daquelas com o vocalista, por razões óbvias – "End Of The Century" consegue traçar um perfil cru dos Ramones, a ponto de o próprio guitarrista Johnny ter ficado perturbado quando assistiu ao vídeo pela primeira vez.

“Acho que podemos ser amigáveis uns com os outros, gostar uns dos outros, mas não conseguimos conviver nem nos comunicar”, declara o baixista Dee Dee logo no primeiro take do documentário. Pronto. Está aberta a porta para revelações extremamente pessoais e talvez nunca antes ditas – pelo menos não de forma tão explícita. “Joey não era a minha idéia de vocalista”, afirma Johnny que, mais adiante, pressionado por Gramaglia e Fields, confessa ter se importado pelo menos um pouco com a morte de Joey, o seu desafeto declarado dentro da banda.

E é justamente quando trata das relações entre o guitarrista e o vocalista que "End Of The Century" encontra o seu momento de maior tensão. Mesmo antes do fim dos Ramones, era de conhecimento dos fãs a eterna animosidade entre Joey e Johnny, que, conforme entrevistas dos demais membros da banda e de pessoas próximas aos músicos, teria começado no final dos anos 70. Em 1978, com a saída do baterista Tommy, até então o porta-voz oficial da banda, abriu-se uma lacuna pelo controle do grupo, espaço que passou a ser disputado entre o guitarrista e o vocalista. Só que a situação azedou de vez por volta de 1980, quando Johnny roubou e acabou se casando com Linda, namorada de Joey. Todos os entrevistados garantem que Joey nunca superou este trauma. Desde então a animosidade acabou se transformando em raiva e rancor jamais esquecidos pelo vocalista e pelo guitarrista, morto em setembro de 2004.

Também foi no meio daquela época conturbada que a banda gravou o seu quinto álbum, End Of The Century, produzido pelo lendário produtor Phil Spector. O que era para ser o clássico definitivo dos Ramones acabou se tornando um fiasco, uma vez que conseguiu desagradar aos fãs como também a Johnny, Dee Dee e o então baterista Marky. O único satisfeito com o disco, além do próprio produtor, foi Joey, um eterno apaixonado pela sonoridade pop dos anos 60.

Foi ainda a partir deste álbum que o guitarrista, conforme o documentário, teve a certeza que a sua banda jamais seria uma grande vendedora de álbuns e que não lhe restaria alternativa a não ser viver na estrada e gravar discos atrás de discos para garantir a sobrevivência. Já Dee Dee mostra-se incisivo e avalia que, diante dos desgastes das relações durante a gravação do álbum, End Of The Century foi, definitivamente, o começo do fim dos Ramones.

Com ênfase na primeira fase da banda, o DVD apresenta ainda uma série de depoimentos com artistas, produtores, familiares e amigos dos Ramones. Entre eles, Joe Strummer, líder do Clash, que corrobora o discurso sobre o papel decisivo que o grupo nova-iorquino teve na gestação do punk inglês. Também estão presentes John Holmstrom e Legs McNeil [criadores do fanzine/revista Punk, que acabou batizando o movimento], Glen Matlock [primeiro baixista dos Sex Pistols]; Debbie Harry [ex-coelhinha da Playboy e a loira fatal do Blondie], Kirk Hammet [guitarrista do Metallica]. Entre outros, eles dão seus depoimentos e comentam sobre a relevância dos Ramones para a história da música. Relevância, aliás, que acabou sendo tardiamente reconhecida pela própria indústria musical, que em 18 de março 2002 incluiu o grupo no Rock’n’Roll Hall Of Fame, cerca de dois meses antes da morte de Dee Dee por overdose.

Como o baixista-fundador deixou claro na sua autobiografia Coração Envenenado, lançada no Brasil pela Editora Barracuda, uma história sobre a banda jamais poderia ter um final feliz. E, de fato, não teve. Personalidades explosivas convivendo diariamente, tendo suas relações desgastadas por intermináveis turnês e excessos de todos os tipos. Os bons, os maus, os feios. "End Of The Century" está aí para mostrar tudo isso de maneira sincera e direta como só uma canção dos Ramones conseguia ser...

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