sábado, 21 de abril de 2012

21 de abril: Dia da Loja de Disco


Surgido na Inglaterra em 2007, o Record Store Day (Dia da Loja de Disco) chega hoje à sua quinta edição. Criado em um momento de forte crise da indústria fonográfica, resultado da disseminação da troca gratuita de arquivos MP3 na internet, o Dia da Loja do Disco se tornou uma espécie de marco de resistências das empresas que insistem em manter as portas abertas vendendo CD’s e vinis para um público restrito.

Mas a situação já esteve pior. Dados mostram que nos últimos anos está havendo uma retomada do comércio de discos. E o principal responsável por isso, quem diria, são os vinis, os antigos bolachões, que a partir da metade dos anos 90 quase desapareceram das lojas em todo o mundo. Só não morreram por causa de um minguado grupo de aficionados que jamais trocou a qualidade de áudio e também visual do vinil pelo CD.

Cada vez mais importante, o Dia da Loja de Disco se tornou realmente uma data especial para músicos e fãs de música, principalmente nos Estados Unidos e Inglaterra. Nestes dois países, centenas de artistas preparam lançamentos especiais e limitadíssimos (a maioria em vinil) para serem vendidos especialmente na data.


Este ano, foram preparados 417 lançamentos para o Dia da Loja do Disco, contra 250 no ano passado. E um detalhe: todo esse material é comercializado em lojas independentes. Nada de megastores ou coisas do gênero. Além disso, é comum artistas realizarem na data sessões de autógrafos e pequenos shows em lojas. Tudo isso para despertar novamente o hábito das pessoas frequentarem as lojas de discos ou despertarem a curiosidade daqueles que jamais pisaram em uma.

No Brasil, ainda não existe nada parecido. Porém, o mercado de discos de vinil também tem crescido aos poucos. Tanto que há cerca de dois anos foi reativada a única fábrica, a Polysom, no Rio de Janeiro. Esta semana, por exemplo, o Los Hermanos anunciou que toda sua discografia será relançada exclusivamente em vinil, em uma caixa pra lá de caprichada.

Na nossa região, o vinil também é comemorado. Hoje (será coincidência?), a CATVE FM de Cascavel anunciou o seu novo programa. Trata-se do Programa Clube do Vinil, que promete levar ao ar colecionadores para falar sobre seus vinis preferidos (veja aqui).

E você, sabe como é feito um disco de vinil?  

Veja este vídeo preparado exclusivamente pela turma do Record Store Day, que mostra todo o processo, desde a prensagem dos bolinhas de vinil até o empacotamento final do disco. Vale a pena conferir!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Layne Staley e o clichê patético do rock star


“Mas nós somos nossa própria raça superior/ Os chapados, os viciados e os loucos”

- Layne Staley (1967-2002), na canção Junkhead


Hoje, 05 de abril, completam-se 10 anos da morte de Layne Staley. Para os mais novos ou para quem já é chegado na casa do 40 para cima, provavelmente um Zé Ninguém. Mas, quem era moleque no início dos anos 90 e curtia rock, logo saca a importância do sujeito.

Staley foi o vocalista do Alice in Chains, grupo que ao lado de Nirvana e Pearl Jam formou a tríplice coroa do grunge, a última grande cena do rock que nasceu em Seattle para ganhar o mundo no começo dos anos 90. A banda gravou apenas três discos, dois EPs e um acústico MTV.

Com uma mistura de hard rock clássico com Black Sabbath, com destaque para a voz de timbre forte e marcante de Staley e para os riffs poderosos de guitarra de Jerry Cantrell – que juntos dividiam os créditos das composições –, o Alice In Chains teve nas drogas pesadas o seu combustível criativo para escrever algumas das canções mais pé-na-fossa de todos os tempos.

Contudo, se as drogas levaram o Alice in Chains ao estrelato, elas também cobraram o preço e levara a banda para lona numa velocidade impressionante.

Primeiro foi o baixista da formação original, Mike Starr, que foi chutado para fora do grupo logo após a gravação de “Dirt”, de 1992. A razão: o vício dele em heroína (Mike Starr morreu em decorrência das drogas em 2011). Depois do baixista, a porca torceu o rabo para os lados de Layne Staley. Não que antes disso ele não fosse usuário. Só que por um tempo o cantor segurou a onda, até ser devastado pela heroína.


“Dirt”, o melhor trabalho do Alice in Chains, é um disco sobre depressão e drogas, as duas coisas que sempre acompanharam o vocalista desde a adolescência. Nascido em 1967, ainda criança ele assistiu a separação dos pais, a partir de quando passou a ser criado somente pela mãe e irmãs. Daí para frente a história dele é praticamente o clichê do garoto que encontrou nas drogas e na música o seu ponto de fuga.

Deu que o Alice in Chains se tornou famoso, mas nem isso serviu para alegrar um pouco mais a vida do vocalista. Mais dinheiro, mais drogas! E quanto mais drogas, maior o buraco. “Down in a Hole” (Fundo do Poço) é o título de um canção de “Dirt”, na qual um desalentado cantor resmunga: “Dentro de um buraco e eu não sei se posso ser salvo/ Veja meu coração, eu o decorei como um túmulo”. Apenas dois versos sombrios entre os muitos espalhados pelo disco que ajudaram a construir a (má) fama – no bom sentido - de “Dirt”.

O último disco de estúdio do grupo, que levava apenas o nome da banda saiu em 1995. Não que fosse ruim, mas já não tinha o mesmo brilho dos trabalhos anteriores. Devido aos vícios de Layne Staley, a banda praticamente não se apresentava mais ao vivo. Exceção feita poucas vezes, como no dia 10 de abril de 1996, quando o grupo se reuniu para gravar o seu “Unplugged MTV”. Uma excelente performance do cantor, para surpresa dele e colegas de banda.


Daí em diante foi só ladeira abaixo. A banda entrou em um ostracismo sem tamanho. Cada vez mais dependente, Layne Staley foi vivendo sempre mais e mais isolado. Reencontrou o pai após anos, com quem então, além de ter começado a dividir o apartamento, também passou a compartilhar seringas para usar drogas.

Nessa degradação, Layne Staley viu o pai morrer em razão dos vícios. Depois a namorada pelo mesmo motivo.

O corpo do cantor foi encontrado pela polícia no dia 20 de abril de 2002. Segundo a necropsia, a data provável da morte foi 15 dias antes, em 05 de abril. Recluso, as pessoas só deram falta dele quando um cheiro desagradável começou a sair do apartamento do músico e o advogado dele estranhou que há vários dias o artista não movimentava a conta bancária.

A vida de Layne Staley é o clichê patético do rock star. Pobre com talento, fica famoso, se afunda nas drogas e morre. Basta citar Kurt Cobain, “colega” do grunge, que coincidentemente também se matou num dia 05 de abril, porém oito anos antes da dose fatal que apagou o vocalista do Alice in Chains para sempre.

Foi-se o homem, fica sua marca. E Layne Staley deixou a dele. A principal dela é “Dirt”. Um disco um tanto quanto esquecido pelas novas gerações. Mas não por isso menos clássico.

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(*) Em 2009 o Alice in Chains voltou a excursionar com um novo vocalista, Willian Duvall, e um novo disco, "Black Gives Way to Blue".

sábado, 24 de março de 2012

A vida nos bosques ou como tentar ser alguém melhor


"Por mais mesquinha que seja a sua vida, aceite-a e viva-a; não se esquive a ela nem a trate com termos duros. Ela não é tão ruim quanto você. Ela parece tanto mais pobre quanto mais rico você é. Quem vê defeito em tudo verá defeitos até no paraíso. Ame sua vida, por pobre que seja”.

Um livro que todo mundo deveria ler. Publicado em 1854, as ideias presentes em “Walden: ou a vida nos bosques”, do estadunidense Henry Thoreau (1817-1862), talvez sejam hoje ainda mais atuais do que na época em que foram escritas.

Ler essa obra é ser nocauteado da primeira à última página, tamanha a força dos pensamentos e quantidade de verdades (que poucos ousam dizer ou têm sequer a inteligência de pensar!) que ele despeja para cima do leitor. Sem ter como ou sem querer se defender, o leitor se entrega a uma leitura que a cada página estimula qualquer sujeito sensato a tentar ser uma pessoa melhor e mais feliz, por meios bem diferentes do que é entendido como o convencional.

Nas primeiras páginas ele já define o tom do livro:

“A grande maioria dos homens leva uma vida de calado desespero. O que se chama resignação é desespero confirmado.”


Thoreau nasceu na cidade de Concord, no Estado de Massachussets. Estudou em Harvard, trabalhou na fábrica de lápis da família – onde desenvolveu uma fórmula que poderia tê-lo deixado rico, destino pelo qual ele não demonstrou o menor interesse. Também foi topógrafo e professor por um breve período. Cansou de tudo e, entre 1845 e 1847, foi morar sozinho em uma cabana de 6 m² construída por ele mesmo às margens do Lago Walden, na própria Concord.

Amante da natureza (é considerado um dos mentores do movimento ecologista) e influenciado por filosofias orientais, o escritor era um crítico da sociedade. Não conseguia entender como alguém poderia se “matar” trabalhando para acumular bens, ter sempre roupas novas paras seguir a moda, encher a pança com comida suficiente para alimentar um elefante, almejar um maior status social...

“É uma vida de tolo, como vão descobrir quando chegarem ao final dela, ou talvez antes.”

“Walden” é o resultado desses 24 meses que Thoreau viveu no meio da mata. A força motivadora era provar para os outros e para si que ninguém precisa mais do que um tiquinho de alimento, água, umas poucas peças de roupa, um abrigo, meios para acender uma fogueira e a companhia de livros clássicos. Com apenas isso e com esporádicas visitas à cidade do Concord, o escritor passou muito bem, tanto que sobreviveu para escrever o livro.

Certamente um excêntrico, muitos podem pensar, que é como os habitantes de Concord julgavam ser Thoreau. Ele tinha consciência disso, mas não dava a mínima. Thoreau se sentia bem na companhia das árvores, dos animais, dos peixes e do lago Walden, que ele acabou conhecendo como se fosse a palma de sua mão.

“Acho saudável ficar sozinho a maior parte do tempo. Ter companhia, mesmo a melhor delas, logo cansa e desgasta. Gosto de ficar sozinho. Nunca encontrei uma companhia mais companheira do que a solidão.”


“Walden” se estende por 18 capítulos, mas são o primeiro, “Economia”, e o segundo, "Onde e para que vivi", que considerei os mais importantes. São neles que Thoreau abre a nossa cabeça-dura com suas críticas ao consumismo débil (que tanto amamos!), à hipocrisia travestida de filantropia, às escolas e universidades que ensinam apenas frivolidades, ao desenvolvimento tecnológico meio sem sentido que segue frenético em busca de novidades que no fundo não servem pra nada.

Por outro lado, ensina-nos a amar a natureza, tudo isso depois de nos jogar na cara o quanto somos idiotas por perder tempo trabalhando para comprar coisas que não precisamos e por deixarmos em último plano o desenvolvimento espiritual e o verdadeiro desfrutar da vida.

Nos demais capítulos, ele se dedica a descrever seus dias vivendo nos bosques, suas observações sobre as colheitas e os animais, devaneios diversos que resultam sempre em mais ensinamentos aos seus leitores.

"Nossa vida toda é alarmantemente moral. Nunca há um instante de trégua entre a virtude e o vício. A bondade é o único investimento que nunca falha. Na música da harpa que freme por todo o mundo, é a insistência nisso que nos faz vibrar."

Impossível imergir ileso da leitura de “Walden”. Damos razão a quase tudo para Thoreau, mas também nos damos conta de como é difícil nos desprender das coisas materiais. Até parece que elas fazem parte do nosso corpo. Mas penso que vale a pena e acredito que isso deve ser um exercício praticado no dia-a-dia, para o bem de cada de cada um...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Brasiliana: cinco séculos de história do nosso país


Permanece até o dia 18 de março, no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba, a exposição da Coleção Brasiliana Itaú, um apanhado de mais de 2.130 itens e 5 mil imagens que cobrem praticamente os cinco séculos da história do nosso país. Reunido nos últimos anos de vida por Olavo Egydio Setubal (1923-2008), um dos dirigentes do banco Itaú, hoje a Coleção Brasiliana percorre o Brasil, já tendo passado por diversas capitais brasileiras. Uma oportunidade única para ver de perto um apanhado de pinturas, objetos, mapas, livros, cartas,ilustrações, etc. de profunda importância histórica.

A exposição se divide em sete partes. São elas:


“Terra Brasilis”: é dedicada aos séculos XVI e XVII. É composto principalmente por mapas e livros de navegação originais da época. Um dos mais antigos mapas, de 1525, denomina o Brasil como Terra Papagalli ou Terra dos Pagaios. Outro item que se destaca é o Grande Atlas Blaeu, de 1664, que já apresentava mapas da costa brasileira com bastante exatidão.
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“Brasil Holandês”:
dedicado ao período que os holandeses ocuparam o Nordeste brasileiro entre 1624 e 1654. O período ficou marcado pelo grande fluxo de cientistas e artistas trazidos à região pelo príncipe Maurício de Nassau. Fazem parte da Coleção Brasiliana moedas de ouro que circulavam no Brasil Holandês, uma série de ilustrações e publicações que ressaltam o espanto dos europeus com a exuberância da natureza e os povos tropicais dessa parte da América.
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“Brasil dos Naturalistas”: com a chegada da família real portuguesa ao Brasil em 1808, uma leva de artistas, cientistas e estudiosos em geral vieram para cá também. Entre eles estavam os alemães Spix e Martius, naturalistas que se dedicaram a estudar os indígenas, a fauna e flora brasileira, catalogando e ilustrando com grande beleza e precisão os povos, plantas e aves do país. Diversos trabalhos originais destes naturalistas, que são referência até os dias atuais, integram a exposição.
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“Brasil dos Viajantes”: um dos núcleos da exposição que mais me chamou a atenção. Traz importantes pinturas e ilustrações de artistas franceses que fizeram alguns dos mais importantes retratos da Brasil na primeira metade do século XIX. As florestas, os índios, a vida nas cidades do Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, Recife, São Luís... Um amplo leque de aspectos registrados por artistas como Debret, Rugendas e Pallière, cujos trabalhos são até hoje fontes relevantes de pesquisa histórica, além de belas obras de arte.
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“Rio de Janeiro”: a capital imperial acabou merecendo um núcleo exclusivo, tamanha a quantidade de obras de arte e objetos diversos tendo ela como tema. Aqui, mais uma vez pintores e ilustradores como Debret, Barat, Rugendas, Chamberlain, entre outros, eternizaram através a vida na corte, desde a intimidade da família real até os escravos e, óbvio, a beleza e o cotidiano do Rio de Janeiro entre os anos de 1810 e 1850 quando, embora ainda pobre, pelo menos não tinha seus morros ocupados pelas favelas.
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“Memória da Cultura”: grandes momentos da história e da cultura brasileira formam este núcleo. Mais de dois séculos de literatura brasileira estão representados nas primeiras edições de livros famosos, assim como nas cartas e manuscritos de personagens célebres da nossa História. Projetos originais de Santos Dumont, um recibo assinado por Tiradentes, cartas de D. Pedro II, Marechal Floriano Peixoto, Getúlio Vargas, só para citar alguns, além de mais gravuras sobre escravidão de Rugendas e Debret, de documentos de compra e venda de escravos, passaportes e até um documento manuscrito assinado em 1498 pelo rei D. Manuel I, o Venturoso (1469-1521), que reinava em Portugal quando Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil em 1500.
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“Livros de Artistas”: edições artesanais nas quais obras originais são inseridas como ilustração para um texto. Esses livros geralmente contam com tiragem limitadíssima e são autografadas pelo autor ou artistas. A Coleção Brasiliana possui os mais importantes livros de artistas editados no Brasil de forma avulsa. Fecha a viagem pelos cinco séculos proposta pela exposição.

Para quem for a Curitiba nas próximas semanas, fica a dica. O ingresso é baratinho, apenas R$ 4 – quase uma ofensa de tão barato diante de tamanha riqueza histórica e cultural apresentada pela Coleção Brasiliana.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ele dormiu com Joey Ramone


O livro nem é tão novo assim. Foi publicado pela primeira vez em 2009 nos Estados Unidos. Mas esperei um bom tempo achando que a obra seria lançada no Brasil, mas nada. Vai ver as editoras estavam e estão ocupadas demais lançando biografias interessantes de subcelebridades como Jeisi Arruda, enquanto essa ótima história sobre a vida do cantor dos Ramones aguarda na fila até que algum editor se dê conta que está perdendo dinheiro.

Como isso não aconteceu até agora, o jeito foi importar um exemplar de “I Slept with Joey Ramone: a family memoir” (Eu Dormi com Joey Ramone: uma memória de família). Ao contrário do que possa parecer pelo título, não se trata de um livro escrito por alguma groupie ou ex-namorada do cantor, mas sim pelo irmão de Joey, Mickey Leigh, que contou com a ajuda do jornalista Legs McNeil, autor da bíblia punk “Mate-Me Por Favor”, para produzir as 400 páginas dessa biografia, lançada pela Editora Touchstone.

Joey Ramone é o nome artístico de Jeffrey Hyman (ou simplesmente Jeff, para os familiares), que se tornou mundialmente famoso cantando na pioneira banda punk estadunidense Ramones, de 1974 a 1996. Joey Ramone morreu em 2001, aos 49 anos, vítima de câncer linfático contra o qual lutou durante sete anos.

Mickey Leigh, irmão caçula de Joey, se propôs em “I Slept...” a abrir o álbum de recordações da família Hyman para os fãs dos Ramones ao redor do mundo. Mas, não se engane. Não se trata de uma ovação em tempo integral ao irmão famoso. Pelo contrário, Mickey se esforça para traçar um perfil bastante sincero de Jeff Hyman e não do astro Joey Ramone. E isso permite que você descubra que o vocalista dos Ramones podia ser em um momento a pessoa mais generosa do mundo e, em outro, um filho da mãe completo. E quem melhor do que o irmão caçula para revelar isso?

Tendo dormido com Joey no mesmo quarto durante 20, Mickey discorre fácil sobre a infância e adolescência dos dois. As angústias com a separação dos pais, a morte do primeiro padrasto, as brincadeiras na vizinhança pacata de Forest Hills, em Nova York, a paixão pelo rock and roll que ambos cultivaram desde que ouviram no rádio a música La Bamba, de Richie Vallens , ainda na década de 50. E claro, também o perrengue pelo qual sempre passou a família Hyman, que se tornou ainda pior quando Joey, que desde bebê sempre teve saúde frágil, passou a manifestar sintomas do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), uma doença psicológica que o acompanhou por toda a vida, o qual faz a pessoa repetir infinitas vezes uma mesma ação sem uma explicação lógica para isso.

Devido ao TOC, aos 20 anos de vida Joey já era dado como um inválido, recebendo pensão do governo por ser incapaz de desenvolver qualquer trabalho que lhe garantisse o sustento. E seria assim até o fim da vida dele se o rock and roll não existisse. Por incrível que pareça, Joey e outros três desajustados novaiorquinos chamados Johnny, Dee Dee e Tommy formaram os Ramones, que se tornou uma das bandas mais importantes da história do rock. E Mickei Leigh, ele próprio um músico (sem sucesso), acompanhou de perto a ascensão do irmão “inválido” até se tornar um astro da música.

No livro, Mickey Leigh descreve como os dois tomaram rumos diferentes em suas vidas. Se alguém na família tinha alguma chance de se tornar um astro no mundo da música, esse alguém era o irmão mais novo: menos feio, melhor musicista, sem transtornos de qualquer tipo. Mas foi o irmão esquisito quem se deu bem. Apesar disso, Mickey e Joey se deram bem por um longo tempo, pelo menos até a década de 90, quando as brigas normais entre irmãos foram um pouco além do razoável.

No início dos anos 90, Mickey estava completamente ferrado financeiramente. Sua carreira como músico nunca decolou. Pobre, vendia maconha para os amigos para poder sobreviver e, inclusive, acabou preso por isso. Quando os Ramones fecharam um bom contrato com a cerveja Budweiser para usar a música “Blitzkrieg Bop” em uma propaganda de televisão, Mickey viu a oportunidade de ganhar algum dinheiro, o qual ele entendia ter algum direito, já que colaborou na gravação da música em 1976, embora nunca tenha recebido créditos e nenhum centavo por isso.

A investida de Mickey, além de não garantir um só dólar, criou um abismo enorme entre ele e Joey Ramone, que se estendeu durante todos os anos 90, intercalado apenas por reaproximações breves que sempre acabavam em novos e piores desentendimentos. Na biografia, em certos momentos se tem a impressão de que Mickey deixa transparecer um certo rancor ou inveja pelo sucesso irmão mais velho. Mas o autor tenta apagar essa impressão justificando que nunca quis ser um Ramone, mas que, claro, sonhava em ter uma banda de sucesso como The Who ou os Beatles, que sempre inspiraram os dois na adolescência quando ainda tocavam juntos no porão de casa.

Porém, o agravamento do câncer aproximou os irmãos meses antes da morte de Joey. Por um capricho do destino, Mickey estava junto dividindo o palco com o irmão em uma espelunca de Nova York em dezembro de 2000, naquela que acabou sendo a última apresentação do cantor dos Ramones, que na época se preparava para lançar o seu disco solo. Dias depois, após escorregar numa calçada e quebrar a bacia, Joey foi internado e começou a perder a sua batalha contra o câncer.

E não deve ter sido fácil para Mickey transpor para o livro toda aquela situação dramática de estar vendo o irmão se esvaindo aos poucos, até dar o último suspiro, segundos após ouvir a canção “In a Little While”, do U2, no início da manhã da segunda-feira de 15 de abril de 2001. “Ele se foi com a canção, eu pensei, para aquele lugar aonde as canções vão depois que elas são tocadas – onde quer que isso seja”, escreveu Mickey, evidentemente emocionado.

“I Slept With Joey Ramone” é um prato cheio para os fãs dos Ramones e amantes do rock em geral. Embora pipoquem em todos os cantos livros e documentários sobre a banda, é a primeira vez que a intimidade de Joey Ramone é tão exposta. Talvez Joey, sempre discreto com sua vida pessoal, não aprovasse o livro. Pelo menos, não da forma e com certos detalhes nele revelados (quem diria que Joey Ramone tivesse brigas de horas com sua mãe para poder usar a maquiagem e as roupas dela no auge do glam rock no início dos anos 70?).

Mas, acredito nas boas intenções de Mickey, que fora a bobagem de fazer alguns shows por aí hoje em dia cantando músicas dos Ramones em “tributo” ao irmão, convence os leitores que fez este livro com o coração.

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VEJA VÍDEO COM MICKEY LEIGH E LEGS McNEIL FALANDO SOBRE "I SLEPT WITH JOEY RAMONE"

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Meia Noite em Paris: uma lição sobre onde está a felicidade


Quem disse que Woddy Allen fez de “Meia-Noite em Paris” um dos melhores filmes de sua carreira, não estava errado. O filme foi lançado no comecinho do ano, mas para nós que moramos longe demais das capitais,na maioria das vezes o negócio é ter que aguardar e torcer para que o DVD chegue às locadoras. E “Meia Noite em Paris” valeu à pena esperar.

Temos que concordar que todo filme de Woody Allen é bem mais legal quando ele, além de dirigir, também atua, o que não é o caso aqui. Desta vez é o ator Owen Wilson, conhecido pelas comédias pastelão, que surpreende (esforçando-se para imitar os trejeitos de interpretação de Allen) no papel do protagonista. Ele interpreta Gil, um bem pago roteirista de cinema de Hollywood, mas que está frustrado pela futilidade de seu trabalho. O sonho de Gil é se tornar um escritor de livros respeitado.

Gil está em viagem a Paris com sua noiva Inês (Rachel McAdam) e os pais dela, que desaprovam o noivado. Inês é do tipo bonita e rica, mas ordinária, que mantém um interesse meramente catedrático por artes em geral. Muito diferente de Gil, que tem um espírito de artista, se assim posso dizer.

Enfim, para não entregar toda a história toda, digo apenas que de que forma surreal Gil embarca em uma inexplicável viagem no tempo e acaba, durante várias noites, conhecendo toda a famosa geração de artistas de 1920, que, conforme Hemingway registrou em famoso livro, fez de Paris uma festa.

Além do escritor autor de “O Velho e o Mar”, Gil conhece Scott Fitzgerald, T.S. Elliot, Picasso, Luis Buñuel, Gertrude Stein, Cole Porter, Salvador Dali, entre tantos outros. Para Gil, encontrar essas pessoas era a realização de um sonho! Afinal, era lá em Paris e naquela década que alguns dos artistas mais famosos do século XX estavam começando a entrar para a história.


Em “Meia-Noite em Paris”, Woody Allen trata de um tema que deve ser recorrente na vida de cada um de nós todos: a disposição nostálgica de imaginar que outros tempos sempre foram melhores do que agora, mesmo época que a gente nunca viveu e tomou conhecimento somente através dos livros,fotos, do cinema ou da TV.

Vivendo no século XXI, a década de 1920 era uma época dourada para Gil. Contudo, a ironia do filme está justamente quando os personagens dos artistas do início do século XX desdenham da própria época. Para eles o bom mesmo seria ter ser vivido na Paris da na segunda metade do século XIX, período conhecido como a Belle Époque. Para o essa turma da bela época, o melhor teria ser vivida em outro tempo mais antigo e assim sucessivamente...http://www.blogger.com/img/blank.gif

O insight de “Meia-Noite em Paris” é uma lição: a vida é sempre insatisfatória, independente de onde quando se viva. Então relaxe e esqueça esse negócio de pensar que “naquele tempo é que as coisas eram boas”. A felicidade está aqui e agora, basta desejá-la. O filme é otimismo puro, algo surpreendente na filmografia de Woody Allen, em que a ironia e o pessimismo geralmente dão o tom.

Um grande filme, sem sombra de dúvidas. E não se preocupe se você tem maior, menor ou nenhuma intimidade com os personagens de “Meia-Noite em Paris”. É claro um conhecimento mínimo que seja torna tudo mais legal, mas não é fundamental. Bacana mesmo é perceber para a centelha de genialidade espírito-filosófica contida nessa obra-prima de Woody Allen.

VEJA O TRAILER

terça-feira, 29 de novembro de 2011

As barbas do imperador


Semanas atrás, comentei aqui no Blog do Viteck a respeito do acervo da Biblioteca Cidadã Alice Weirich, no bairro São Lucas, aqui em Marechal Cândido Rondon. Inaugurado este ano, o espaço possui ainda um acervo modesto, mas com títulos muito interessantes nas mais diversas áreas.

E um dos “tesouros” da biblioteca é o livro “As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos”, da antropóloga Lilia Moritz Schwarcz. Já havia lido recentemente outro livro dela, chamado “O Sol do Brasil”, no qual ela escreveu – em um texto intenso e denso – sobre a Missão Francesa, grupo de pintores que desembarcou no Brasil no início do século XIX e que retratou a vida na corte e a natureza exótica do nosso país sob a perspectiva do olhar europeu.

Em “As Barbas do Imperador”, publicado em 2008 (Editora Companhia das Letras, 624 páginas), Schwarcz escreve uma biografia do segundo e último rei do Brasil. Tema por demais esmiuçado já em tantos livros escritos sobre D. Pedro II em mais de um século, o interesse da autora nessa biografia é contar a vida do imperador, principalmente, através do imaginário monárquico da época, “percebido justamente por meio da análise de rituais, costumes e tradição”, relata Schwarcz.

E é a própria autora que instiga o interesse do leitor a respeito da vida de D. Pedro II que “de órfão da nação se transforma em rei majéstico; de imperador tropical e mecenas do movimento romântico vira rei cidadão, para finalmente imortalizar-se no mártir exilado e em um mito depois da morte, com vistas não a recuperar tanto a sua história, mas antes sua memória, ou melhor, a seleção de determinadas memórias nacionais”.

D. Pedro II reinou no Brasil de 1840 a 1859. Órfão de mãe, o pequeno Pedro – com apenas cinco anos - foi deixado no Brasil pelo pai D. Pedro I, que voltou a Portugal nove anos depois de ter proclamado a independência do Brasil. Aos 15 anos, naquele que ficou conhecido como golpe da maioridade, D. Pedro II assumiu o trono em um período turbulento, em que esforços contínuos eram necessários para evitar a desfragmentação territorial diante de conflitos como a Revolução Farroupilha.

O Brasil, na época, era uma monarquia rodeada por repúblicas latinas, recém emancipadas da Espanha. Aliás, o Brasil foi o único país das Américas que se transformou em monarquia após a independência. Então a monarquia já sendo associada a uma instituição ultrapassada, ao longo de sua vida D. Pedro II se esforçou para vender ao mundo a imagem de um Brasil moderno, ao mesmo tempo que enaltecia aspectos de um império exótico. Exemplo disso foi o enaltecimento da figura do índio como símbolo do Brasil, assim como o café é o fumo, produtos de exportação do país.

O imperador também incentivou a pesquisa histórica, a educação e as artes, com a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a Academia Imperial de Belas-Artes e o Colégio Pedro II. D. Pedro II sempre se esforçou por associar a sua imagem a de um homem culto e estudioso, o que o levou a arroubos de imodéstia, como quando afirmou que a “ciência sou eu”. Mas, em um reino formado em sua grande maioria por analfabetos, a erudição de D. Pedro II era algo bastante singular, ainda mais se comparado ao pai, que entrou para a história como alguém mais interessado nas batalhas e nas mulheres do que nos livros.

Em “As Barbas do Imperador”, Schwarcz descreve ainda como era ser nobre no Brasil, as festas populares, relata a quase obsessão de D. Pedro II em derrubar do poder Solano Lopez durante a truculenta Guerra do Paraguai (1864-1870). A autora também destaca as três viagens que o imperador realizou ao redor do mundo, onde conheceu os Estados Unidos, a Europa e o Egito, entre outras regiões do globo.

E, como não poderia deixar de lado, a autoria vai a fundo na questão da escravidão, que era praticamente o modo de trabalho responsável pela produção das riquezas do Brasil, mas ao mesmo tempo era motivo de repulsa ao país em nações mais avançadas, que combatiam a escravidão. Curioso notar que, embora se colocasse como um homem moderno, D. Pedro II pouco fez de fato para acabar com o regime escravagista. Quem o fez foi a sua filha, princesa Isabel, que em 1888 assinou a Lei Áurea.

A alforria concedida sem qualquer direito de indenização aos donos de escravos foi o catalisador do golpe que derrubou a monarquia e implantou a república no país, em 1889. É bem verdade que os debates entre republicanos e monarquias já se estendia há décadas. Mas, com o avançar da idade de D. Pedro II, havia uma espécie de acordo ou sentimento de que a república seria implantada tão logo ocorresse a morte do monarca. Mas isso mudou, com a Lei Áurea.

Proclamada a república em 15 de novembro de 1889, dois dias depois o Imperador e sua família eram banidos do Brasil. Dois anos mais tarde, o imperador morreria em Paris, onde viveu uma vida modesta sustentado por doações de amigos e tendo como únicos bens uma edição original de um livro de Camões e um travesseiro cheio de terra do Brasil. Situação que ao longo dos anos só aumentou o mito do imperador, que logo após ser deposto recusou uma indenização proposta pelo novo governo republicano, no valor de 5 mil contos de réis, o equivalente hoje a cerca de R$ 2 bilhões.

Aliás, é na guerra entre monarquistas e republicanos que o livro de Schwarcz mostra-se mais intenso. Na guerra pública através das revistas da época, republicanos caricaturavam D. Pedro II como um senhor velho, com a sua longa barba branca, que só lhe aumentava a aparência de velho. Daí a associar a figura do imperador com o modelo antiquado da monarquia foi um simples passo dado pelos republicanos.

Interessantíssima é a reabilitação histórica do imperador no início do século XX, que tem como melhor exemplo Rui Barbosa, autor da lei que bania o imperador do Brasil e que, anos depois era um ferrenho defensor de que os restos, mortais de D. Pedro II, hoje enterrados em Petrópolis (RJ), fossem repatriados, diante da importância que o imperador teve para a história do país.

Ler “As Barbas do Imperador” é percorrer um período em que não só o Brasil, mas o mundo ocidental como um todo estava passando por um rápido processo de transformação. E é interessante perceber como a personalidade máxima do país se comportava em meio a essas mudanças. De certo, um homem de mil faces que jamais foi unanimidade, seja durante o reinado ou após a morte. E é esse homem, “despido” de sua coroa e dos demais símbolos da monarquia que Schwarcz nos revela nesse livro tão instigante.