sábado, 26 de março de 2011

Nevilton: uma banda brasileira


Há duas semanas, recebi no meu programa de rádio (Garagem 95, que vai ao ar pela Difusora FM todos os sábados, das 18h00 às 20h00) a banda Nevilton. Ainda desconhecidos por aqui, esse trio é considerado uma das maiores revelações do rock brasileiro de 2010. Tanto é que a revista Rolling Stone considerou o disquinho de estreia do grupo o 4º melhor do ano passado e a faixa "O Morno", a segunda melhor música.

Para se ter ideia do peso dessa escolha da revista Rolling Stone, é como se fulano de tal fosse escolhido pela revista Veja como um dos políticos do ano. O que Veja representa para o povão de uma maneira geral, a Rolling Stone tem um peso igual para a música brasileira. E o que é mais surpreendente de tudo é que o Nevilton é aqui de Umuarama, cidade praticamente vizinha de Marechal Cândido Rondon.

Após a participação no Garagem 95, a banda Nevilton se apresentou em Toledo, onde concedeu uma nova e mais longa entrevista, que está disponibilizada logo abaixo.

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Nevilton: uma banda brasileira

“nossa cidade é tão pequena
e tão ingênua
estamos longe demais
das capitais”


Nos já distantes anos 80, Humberto Gessinger e sua banda Engenheiros do Havaí fizeram poesia sobre o drama que pode ser para um jovem viver afastado dos grandes centros urbanos, estando, portanto, distante das virtudes e pecados oferecidos pelas metrópoles.

O reclame foi registrado na faixa “Longe Demais das Capitais”, sendo o sujeito longínquo a cidade de Porto Alegre. A música pode até fazer sentido, se pensarmos que a capital gaúcha, de certo modo, não tem aquela grandiosidade toda de uma São Paulo da vida... Mas, em todo o caso, os versos de “Longe Demais das Capitais” nunca serviram tão bem como para descrever a epopeia da banda Nevilton.

Surgido em 2007, em pouco mais de três anos de atividade o grupo teve uma ascensão inimaginável para uma banda nascida em Umuarama, cidade localizada na região Noroeste do Paraná, interiorzão do Estado. Com cerca de 100 mil habitantes, a cidade está a cerca de 600 Km de Curitiba, tão distante da capital que é muito mais fácil e rápido chegar ao Paraguai pela Ponte Ayrton Senna, na cidade de Guaíra, viajando apenas 150 Km.

Sem qualquer tradição roqueira, Umuarama é regionalmente conhecida pelas suas festas de peões e de sertanejos universitários, tribos que têm muito mais a ver com a principal vocação econômica da cidade, a bovinocultura de corte. É desse cenário improvável que surgiu a principal revelação do rock nacional em 2010, que com apenas um EP com cinco músicas (“Pressuposto”, lançado em fevereiro do ano passado) recebeu elogios rasgados da crítica, fez aparições frequentes na MTV, conquistou lugar nos palcos dos principais festivais independentes do país e foi até mesmo foi escalada para abrir o recente show do Green Day em São Paulo. Como se não bastasse, teve coroada a trajetória do EP “Pressuposto” pela revista Rolling Stone, que elegeu o disquinho como o quarto melhor lançamento nacional de 2010 e a faixa “O Morno”, a segunda melhor música.

Formado por Nevilton (voz e guitarra), Lobão (baixo e backing vocals) e Chapolla (bateria e backing vocals), o grupo está preparando as malas para mudar-se para São Paulo. Sem pressa, mas confiando no próprio taco, o Nevilton leva na bagagem um disco novo já gravado, esperando apenas a melhor hora/proposta para lançá-lo. E, quem sabe, cumprir a missão da banda que, segundo eles afirmam na entrevista a seguir, “é não deixar o samba morrer”.

Estava nos planos da banda ter uma ascensão tão rápida a partir do lançamento do EP “Pressuposto”?
NEVILTON (N):
Todo o trabalho que a gente vai fazendo é sempre querendo cada vez mais repercussão e chegar mais longe. Mas, não tínhamos uma meta de ficar entre os melhores discos... O lance foi fazer com muito carinho para que se diferenciasse dos outros discos. O EP tem músicas legais, com uma textura legal. O pessoal viu que estávamos ralando mesmo para o disco sair. Aliado aos shows e muito trabalho, conseguimos ótimas repercussões, acima do que tínhamos esperado.

A banda ainda mora em Umuarama, mas está preparando a mudança pra São Paulo. É uma coisa meio louca isso que está acontecendo com o Nevilton, até porque Umuarama não tem nenhuma tradição roqueira...
(N):
Em Umuarama houve poucas bandas de rock. A banda que mais conseguiu repercussão, a Hipnoise, foi no final dos anos 90 e começo de 2000 e que era a banda que o Lobão tocava. Essa banda tocou muito na região, mas a ênfase era nos covers de bandas alternativas como Pixies, Weezer. Acho que isso foi parte do processo até que surgisse uma banda que fizesse um som autoral e que mergulhasse de cabeça no trabalho. Espero que o nosso trabalho, não só pra Umuarama, mas para outras cidades interioranas, que não têm essa cultura, que o nosso trabalho possa servir de exemplo para mais bandas de cidades menores trabalharem com garra e irem pra cima que as coisas vão acontecendo. É parte por parte, tijolo a tijolo.

Mudou alguma coisa pra banda em Umuarama ou impera a regra que santo de casa não faz milagre?
(N):
Rola muito disso de santo de casa não fazer milagre. Mas nossa preocupação não é fazer milagre em Umuarama, nem em Cianorte (cidade do baterista Chapolla). A gente continua fazendo um show ou outro lá. A repercussão junto às pessoas que sempre acompanharam o nosso trabalho não mudou. Acontece de ir em alguns lugares aleatórios e o pessoal diz que já te viu no jornal, na TV e que não imaginava isso quando a gente só tocava na garagem ou no bar lá da cidade. É legal ver como a abrangência aumenta até numa visão micro, uma visão local, na cidade.

Nessa época do ano em 2010, vocês estavam lançando o EP lá em Umuarama e meses depois estavam tocando pelo Brasil e inclusive abrindo um show para o Green Day em São Paulo. Como lidar com isso?
(N):
A gente também não sabia... A gente só vai fazendo e querendo fazer cada vez mais. Ano passado, janeiro, fevereiro foram meio parados pra gente. Mas ainda em 10 de fevereiro a gente lançou o disco e nisso já estávamos em São Paulo e saímos em turnê, que já vinha sendo planejada desde dezembro de 2009 junto com o pessoal do Fora do Eixo, que é uma plataforma que tem trabalhado com muitas bandas para aumentar as atividades culturais em vários pontos do país. Cada coisa que vai acontecendo a gente curte muito. Mas, vamos sempre devagar porque a gente sabe que nada vai ser pra sempre assim, com gostinho de novidade. Mas, olha o que a gente é? A gente não é nada ainda. Temos muito que fazer e essa é a motivação.

Quando vocês lançaram o disco e começaram a receber o retorno na forma de críticas positivas da imprensa, de pessoas interessadas no trabalho do Nevilton, como foi isso?
(N):
A triagem inicial foi ver os veículos onde as pessoas falam de música nova, descobrir uns programas bacanas de rádio... Mandamos o disco para vários lugares e acabou virando uma bola de neve. Alguns lugares-chave começam a falar e vários outros vão na onda mesmo, porque viram que saiu a resenha na Rolling Stone, que saiu na Noize e isso vai virando uma cauda longa, assim... num jeito inocente de falar.

Várias bandas têm surgido no Brasil fora do eixo de São Paulo, como Vanguart, o Macaco Bong, mas ainda assim são bandas centradas em capitais de seus Estados de origem. Mas, entre essas, o Nevilton é a que está realmente longe demais das capitais.
LOBÃO (L):
A gente tentou não se prender a esses conceitos. Mesmo no interior, se não tinha lugar pra tocar, a gente fez. Se o lugar pra tocar era longe e a van era muito cara, a gente foi de carro. A gente tinha um Uno, o saudoso Átila...
(N): Viajamos pra Palmas, no Tocantins, 2.300 km de Umuarama a Palmas, dois dias na estrada pra chegar lá e tocar com Pato Fu, Ratos de Porão... Depois saiu no Estado de Tocantins, talvez o jornal mais bacana de Tocantins, uma puta resenha legal dizendo que quem brilhou na noite foi o Nevilton... Algumas coisas assim que a gente viajou, tocou com garra e conseguiu uma repercussão legal. Isso abre portas para outros festivais chamarem...
(L): Vindo de uma cidade pequena, a gente teve que aprender tudo, desde tocar e produzir as músicas, administrar a banda, fazer as artes gráficas, mexer com as mídias sociais. Se a gente estivesse em uma cidade grande teríamos os amigos que fariam. Então, isso foi muito importante pra gente, que hoje consegue fazer sozinho o que uma equipe faria. Com esse know-how de fazer tudo, é possível otimizar a nossa profissão pra atingir o nosso objetivo com mais clareza.
(N): Do jeito que a gente está falando parece uma entrevista de negócios. Mas, é um negócio inteiramente punk, nós mesmos fazendo a história...

Vocês estão frequentemente tocando em São Paulo, onde tem incontáveis bandas batalhando um espaço pra tocar. Vocês foram bem recebidos no começo ou teve um certo bairrismo?
(L):
Não me lembro de ter sentido isso... Muito pelo contrário. Até por a gente ser do interior, rola um interesse maior... Fomos muito bem recebidos, ficamos na casa de bandas de lá, usamos equipamentos delas.

Antes de formar a banda, em 2006, Nevilton e Lobão foram morar um tempo em Los Angeles, nos Estados Unidos. Qual era a ideia de vocês quando se mudaram pra lá? Era aprender como funciona o mercado musical de lá ou o quê?
(L):
A ideia foi ficar fluente no inglês. E que bom que a gente conheceu a cultura norte-americana e o music business. Assim como a gente tem aqui os cursos do Senac, Sebrae, cursos de microempresas, eles têm monografias, livros sobre music business. Isso é uma coisa muito interessante! A gente trabalhou pra caramba também fora da música. Conseguimos ver o show business funcionando porque a gente também trabalhou em eventos. Então, esse negócio de ir pra lá aprender inglês acabou refletindo diretamente na nossa questão musical. Trabalhamos em estruturas de shows enormes, como do Guns n’ Roses...

Como vocês foram trabalhar num show do Guns n’ Roses?
(L):
O nosso emprego era ser segurança de eventos.

O Nevilton de segurança? (risos)
(L):
(risos) O Nevilton botava uma ordem na casa que você tinha que ver! Deixava um costeletão e uma cara de mau! (risos). A gente trabalhou tanto na frente recepcionando o público como no backstage, toda a movimentação de iluminação, estrutura física, coisa louca cara!
(N): Eu tava sempre muito bem armado com um rádio amador e um farolete. Eu podia chamar reforço a qualquer hora!
(L): A gente trabalhou no Oscar também! Vimos vários tipos de eventos, de vários níveis diferentes e percebemos que o negócio é ser profissional. Trabalhando profissionalmente, não tem como dar errado.

E o primeiro álbum, em que pé está o novo trabalho?
(N):
Está pronto.
(L): Está gravado, masterizado, capa feita. Só falta resolver o lançamento.

Alguma gravadora ou selo interessado?
(L):
Propostas existem. Tem gente que procura, quer saber, mas não desenvolve... A gente quer lançar legal, com boa distribuição... Não adianta fechar qualquer negócio só pra lançar.
(N): Por isso que ele está pronto há algum tempo e a gente não lançou. Mais cedo ou mais tarde a gente lança. Estamos fazendo bastante shows, tendo boa repercussão, temos um clip pronto pra lançar logo e estamos em pré-produção de um outro clip. Tem muito o que rolar, então não há pressa. E mesmo que o disco seja lançado só por nós, vamos tomar todos os cuidados para que seja divulgado de uma maneira legal e que consiga chegar a todos os lugares. A gente vai fazer bonito...

Abrir o show do Green Day ajudou bastante na divulgação da banda?
(L):
Tocar pra 30 mil pessoas e abrir o show do Green Day foi bastante emocionante. E a repercussão foi boa. Os fãs do Green Day que viram a gente, alguns adoraram outros não. Mas mesmo quando rolou papo negativo na internet, foi bom porque tinha gente que ia lá e defendia. É legal quando as coisas saem do nosso poder e a gente não controla mais. Dá um pouco de medo porque temos que pensar mais no que estamos fazendo. Mas é legal saber que tem gente que hoje conhece a nossa banda por causa dessa aparição no show do Green Day.

As influências da banda são diversas...
(N):
Ainda mais agora, com o Chapolla na banda, a salada está completa...
CHAPOLA: Eu tenho muito da escola do hardcore, mas também muita coisa de rock, como Led Zeppelin, Queens of The Stone Age, Foo Fighters... E depois que eu entrei na banda comecei a ouvir mais coisas brasileiras. Estou ouvindo até Alceu Valença!
(L): Eu tive uma formação alternativa dos anos 80, 90: Superchunk, Pixies, Pearl Jam... Mas eu tenho muito dos anos 50 também e eu tento mixar isso.
(N): O Lobão me fez gostar de Pink Floyd também. A gente gosta também de jazz e um monte de bebop estranho... Eu gosto de muita música brasileira, principalmente falando a respeito de letras. Temos ótimos letristas no Brasil como Belchior, Fagner, Chico Buarque, Zé Rodriguez, Zé Geraldo, Alceu Valença. E gosto também de muito rock and roll, da guitarra do Jimmy Page, Jimi Hendrix, Clapton, B. B. King... Ao mesmo tempo gosto desde de Tom Jobim ao Pavement, as guitarras malucas dos Smiths, Modest Mouse, Cake... A gente sempre está escutando várias coisas...

Hoje, então, vocês já conseguem definir que tipo de banda é a Nevilton, ou vocês ainda estão descobrindo isso? Que rumos musicais a banda deve seguir no futuro?
(N):
A definição de gênero seria uma banda brasileira. Talvez uma banda brasileira de rock... Com relação ao futuro da banda, talvez a resposta seja a mesma se você tivesse perguntado isso pra mim há três anos ou um ano atrás: é trabalhar cada vez mais e tentar fazer cada vez melhor as coisas pra não decepcionar a galera que já nos acompanha e, ao mesmo tempo, cativar mais pessoas para chegar sempre em mais lugares. A missão é não deixar o samba morrer!

terça-feira, 1 de março de 2011

Entrevista: jornalista André Trigueiro, da Globo News


Entrevista que realizei com o jornalista André Trigueiro, da Globo News, do Rio de Janeiro. Ela está publicada na última edição da revista Amigos da Natureza. Na conversa, ele fala sobre o trabalho dele como jornalista que dedica grande parte de seu trabalho para as questões ambientais.

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“O discurso desenvolvimentista dissociado da sustentabilidade caducou no século passado”

Há quase duas décadas, o jornalista André Trigueiro vem dedicando grande parte do seu trabalho a temas ligados ao meio ambiente. Repórter e apresentador do “Jornal das Dez” e editor-chefe do programa "Cidades e Soluções", ambos da Globo News, Trigueiro também é professor do curso de Jornalismo Ambiental da PUC-RJ e autor dos livros “Mundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em Transformação” e “Espiritismo e Ecologia”, além de também ter sido coordenador editorial e um dos autores do livro “Meio Ambiente no Século XXI”.

Nesta entrevista, o jornalista – que, em 2008, recebeu a Medalha de Mérito Pedro Ernesto, a mais importante comenda do município do Rio de Janeiro – critica a forma alarmista como a mídia muitas vezes divulga os assuntos ligados ao meio ambiente, defende a necessidade de superar o atual modelo de desenvolvimento e explica que religião e ecologia podem andar juntas.


Quando e por que o senhor começou a se dedicar ao jornalismo ambiental?
A cobertura da conferência internacional da ONU sobre meio ambiente e desenvolvimento, a Rio-92, foi muito marcante para mim. Ficou muito claro que esse era um assunto inevitável, do momento. Eu me senti completamente inebriado. Fui buscar formação fora do jornalismo, em grupos de estudos, em livros para entender e reportar melhor aquilo que eu estava julgando entender. Isso num momento em que ainda havia preconceito sobre o tema, que era um assunto periférico. Com muita alegria, nessas quase duas décadas eu tenho acompanhado a mudança muito clara na forma como assunto é percebido pela mídia. Hoje, esse assunto, por conveniência ou convicção, se tornou importante. Agora, eu não me sinto muito confortável no rótulo de jornalista ambiental. Me sinto mais confortável me assumindo como jornalista interessado nos assuntos da sustentabilidade. Também não sou defensor de uma editoria de meio ambiente na atividade jornalística. Eu prefiro entender que os assuntos da sustentabilidade alcançam todas as editorias.

A imprensa brasileira ainda está aprendendo como trabalhar os temas do meio ambiente?
É um processo. A gente já esteve mais atrasado, com uma visão mais provinciana, até ultrapassada eu diria. Uma dificuldade de entender que a dimensão ambiental vai além da proteção dos recursos naturais. Esse é o ponto de partida, mas transcende e vai na direção dos comportamentos, estilos de vida, padrões de consumo, modelos de desenvolvimento e de civilização. O olhar da gente é fragmentado culturalmente. Na escola, temos as disciplinas segmentadas e, na faculdade, isso se agrava. As áreas do saber e do conhecimento são fracionadas e muito autossuficientes. Isso não é pensar sistemicamente. Essa é uma das causas dessa crise ambiental sem precedentes. Esse olhar fragmentado da realidade. E a realidade não é fragmentada.

Cada vez mais a mídia tem tratado do meio ambiente. Mas, em muitos casos, o faz de forma alarmista, impondo o medo em relação ao futuro. Essa é a melhor maneira de informar as pessoas sobre as questões do meio ambiente?
Sensacionalismo não combina com credibilidade. Um dos assuntos fundamentais na minha profissão é a calibragem que precisa existir entre como reportar a crise sem esvaziar a perspectiva da mudança. As pessoas precisam se sentir não apenas como parte do problema, mas também como parte da solução. Como você salientou, há um risco de causar uma prostração nas pessoas, pois elas acabam desestimuladas em relação ao futuro. Quando você perde a esperança, você perde tudo. Isso é muito sério porque o jornalismo não pode ser pensado apenas em termos lógicos e racionais. O jornalismo tem uma dimensão emocional, a qual é pouco trabalhada. Uma das questões que precisam ser refletidas no jornalismo no século XXI é justamente o cuidado com a forma como se reportam certos assuntos. É preciso ter a ética do cuidado. Quanto mais sensacionalista for uma mídia na cobertura dos assuntos ambientais, menos credibilidade ela tem. O recurso do jornalismo pobre é a apelação. O desafio que está colocado para o profissional de comunicação é ser claro o suficiente para demonstrar para as pessoas o senso de urgência, mostrar que não basta mudar, tem que mudar rápido.

Nos debates sobre o meio ambiente existe, em muitos momentos, uma polarização entre o homem e a natureza. Passar a perceber o homem como parte da natureza é um dos desafios atuais?
Temos que entender o universo como um conjunto de fenômenos interligados, interdependentes e que interagem o tempo todo. O homem nunca se separou do meio ambiente e essa é uma ilusão que alcançou significado e projeção a partir do desenvolvimento científico. A ciência é uma ferramenta muito importante de percepção da realidade. Mas a metodologia científica, a forma de explicar a vida e o universo nos projetou numa direção equivocada. A humanidade não pode se perceber dissociada do meio em que está inserida. O preço que se paga por essa falsa dualidade é enorme. Não podemos colocar meio ambiente e desenvolvimento em lados opostos. Quando falamos de mundo sustentável, estamos falando de novos valores, de uma nova cultura. É um novo olhar sobre o meio que nos cerca. Por exemplo, o lixo que você produz em casa não é assunto da prefeitura somente. É assunto teu! E a Política Nacional de Resíduos Sólidos, recém aprovada depois de tramitar 20 anos no Congresso, estabeleceu a verdade. Lixo não é assunto só de quem tem o ônus de coletar os resíduos na rua. É assunto de quem gera e de quem fabrica. Ou seja, responsabilidades compartilhadas. Essa é uma visão moderna. Eu diria que hoje estamos melhores do que já estivemos, mas ainda tem muitos degraus para subir.

O caráter econômico parece sempre ser o norte principal das ações políticas e empresariais. É possível buscar o desenvolvimento sustentável sem que ocorram perdas econômicas?
Não sei e não sei se alguém sabe. Nós estamos testando o desenvolvimento sustentável. Isso significa que estamos tentando conjugar diversos interesses em uma mesma bússola que aponta a mesma direção. O desenvolvimento sustentável é aquele que atende ao interesse econômico, é socialmente responsável e tem harmonia na relação com o meio natural. Nós estamos experimentando isso. Agora, se esse é o único caminho, eu não sei. Eu tenho muito interesse em acompanhar debates que não usam apenas o desenvolvimento sustentável como única saída, mas que falam, por exemplo, de retirada sustentável, de decrescimento. Teoricamente, é possível explicar que o crescimento da economia nem sempre gera benefício social e ambiental. Então, nem sempre o crescimento deveria ser a meta, por mais surpreendente que isso possa parecer. Essa perseguição implacável do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) tem sido muito criticada. É um momento muito interessante que estamos testemunhando. Até aqui, o desenvolvimento sustentável soa como a ideia mais inspirada. Mas, daí afirmar categoricamente que essa é a solução, eu não tenho motivos para endossar isso. É preciso ter muita humildade para reconhecermos que não houve tempo suficiente para saber qual a melhor maneira de promover a mudança.

O senhor é autor do livro “Espiritismo e Ecologia”. Trabalhar juntos o lado espiritual e o meio ambiente é uma proposta bastante interessante.
Todas as grandes tradições religiosas se preocupam em explicar essa crise. No site do Dalai Lama, o assunto que mais reúne textos é justamente a sustentabilidade. Há dois anos, o Papa Bento XVI elevou à categoria de pecado o dano ambiental. O tema da Campanha da Fraternidade dos católicos deste ano é “florestas”, em sintonia com a ONU que elegeu este o Ano Internacional das Florestas. Aqui no Brasil, as religiões afro-brasileiras dependem de recursos da natureza para sobreviverem. Por sua vez, a forma como se estruturou o espiritismo de Allan Kardec 150 anos atrás tem várias questões muito modernas no sentido de defender pontos de vista que são caros aos ecologistas e ambientalistas. Existe toda uma teologia ambiental que diversas tradições estão construindo ou ajustando. As informações já estão nas escrituras ou nos textos referenciais dessas doutrinas. Só que rabinos, padres, pastores, pensadores espíritas, lideranças budistas estão oxigenando esses textos de forma a emprestar sentido para um novo contexto. Eu sou espírita e tive muito prazer em tentar identificar esses elementos comuns entre a doutrina espírita e o pensamento ecológico.

Buscar a mudança do atual modo de vida é o grande desafio da humanidade no século XXI?
A mudança virá e isso já está acontecendo em escala global. Para mim não faz sentido acreditar em outra tese que não a da mudança inevitável. Pelo menos estamos percebendo um cuidado em não replicar o nível de destruição da natureza que a gente vem testemunhando desde o pós-Guerra. Esse discurso “desenvolvimentista” dissociado da sustentabilidade caducou no século passado. A mudança de cultura está sendo muito bem semeada e isso vai eclodir de forma irreversível. Se isso vai levar 50 ou 100 anos faz muita diferença. Nem nossos avós e nem nossos pais se depararam com a situação que estamos vivendo hoje no seguinte sentido. As decisões que tomarmos coletivamente nos próximos anos será absolutamente determinante na qualidade de vida das gerações futuras. A pergunta é: quanto tempo levaremos, e não temos muito tempo é bom frisar, para que coletivamente a escolha que a nossa civilização faz seja na direção certa? A direção certa é a que repensar os valores da sociedade de consumo, que não apregoa a opulência como condição do sucesso, que estabelece critérios no uso dos recursos naturais.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Um estranho no ninho


Fim de semana passado, por acaso acabei ouvindo, depois de muito tempo, “Tijolo na Vidraça”, uma coletânea de três CDs que reúnem 29 canções do cantor Marcelo Nova, tanto em carreira solo como frente à banda Camisa de Vênus. Pensei: “caramba, não se fazem mais bandas de rock como antigamente!”.

Baiano hoje quase sessentão, sempre teve uma carreira polêmica, o que lhe impediu de ter uma projeção maior na música nacional. Pra ajudar a sua fama de mau, foi parceiro de Raul Seixas, com quem fez shows e dividiu a gravação do último disco do ex-parceiro de Paulo Coelho, “A Panela do Diabo” (1989).

Embora tenha se tornado conhecido com o Camisa de Vênus na mesma época em que o rock brasileiro teve seu auge comercial nos anos 80 (quando surgiram bandas como Barão Vermelho, Blitz, Titãs, Paralamas do Sucesso, Engenheiros do Havaí e afins), Marcelo Nova nunca se sentiu muito parte dessa turma. Foi e ainda é um estranho no ninho.

Formado em Salvador em 1980, o Camisa de Vênus tinha como objetivo maior esculhambar a cultura oficial de que "a Bahia é liiiinndaaa”, colorida. A banda cuspia na cara dos turistas o mundo underground baiano que fica escondido atrás de tanto axé, fitinhas do Senhor do Bonfim e trios elétricos. Logo nas primeiras apresentações o grupo atraiu o interesse da molecada de Salvador e provocou indignação dos conservadores que, com a boca cheia de acarajé, vociferavam toda a sua fúria contra músicas como "Meu Primo Zé", "Controle Total" e "Bete Morreu".

Tamanha polêmica extrapolou os limites da Bahia e a banda se mandou pra São Paulo lançar um disco por uma gravadora independente. Em meio às gravações, a Som Livre, pertencente à Rede Globo, interessou-se pela banda e arrastou o Camisa de Vênus para debaixo de suas asas. O único porém era quanto ao nome do grupo – afinal, em 1983, ninguém ousava falar abertamente sobre o nome e sobrenome das populares camisinhas de hoje. Acreditando que o nome Camisa de Vênus traria problemas junto à censura da época, a Som Livre insinuou uma mudança. Como proposta, Marcelo Nova retrucou, em tom de deboche, que o grupo então iria se chamar Capa de Pica. A resposta da gravadora veio duas horas depois: o Camisa de Vênus estava no olho da rua.

Entre polêmicas aqui e ali, problemas com a censura e discos retirados das lojas pela Polícia Federal, o negócio é que o Camisa de Vênus estreou com um álbum homônimo pela RGE [gravadora menor, também ligada ao grupo da Rede Globo!] em 1983. Alcançou o sucesso dois anos depois, com o segundo disco, Batalhões de Estranhos. Atingiu o auge em 1986 e lançou um álbum ao vivo, chamado Viva. Passou para a multinacional Warner e lançou em dois anos outros dois álbuns, entre eles o duplo Duplo Sentido. Logo depois, encerrou suas atividades. Já em 1994, a banda promoveu um retorno com o lançamento do ao vivo Plugado e, em 1996, reapareceu com novas músicas em Quem É Você?. Não tardou a sumir, para ressurgir mais uma vez no início de 2004, sem dois integrantes originais, para a gravação deste DVD ao vivo.

A justificativa da banda para o projeto do DVD convenceu. Afinal, era inadmissível que um dos mais autênticos representantes do rock nacional não tivesse um registro próprio em vídeo, enquanto muitas bandas medíocres de hoje – e com poucos meses na estrada – já contam seus DVDs, que para ter o espaço preenchido precisam de remixes, releituras e o escambau. O Camisa de Vênus poderia ainda na época optar por um Acústico MTV, mas isso não faria justiça à sua história. O negócio tinha que ser mesmo “ao vivo” e “elétrico”, com os amplificadores no volume máximo.

E o show não poderia ser mais simbólico. Não bastasse o lançamento do DVD estar nas mãos da mesma gravadora que renegara a banda lá no seu início, o vídeo foi gravado no palco do Festival de Verão de Salvador em 2004 [na própria "cidade do axé, na cidade do pavor" como registrado na música "Controle Total"], em meio a grupos de pagode, samba e pop medíocre.

Quem viu o grupo em ação sabe que o Camisa de Vênus ao vivo é uma máquina de triturar ouvidos. Tive a sorte de ver o grupo ao vivo em Toledo (!!!) no comecinho de 1997. Umas das três melhores horas de rock que já ouvi na vida. Em 2005, assisti também outro show de Marcelo Nova em Cascavel, em 2005. Tá certo, o show foi chato, o lugar e o público mauricinho não ajudavam. Na oportunidade também entrevistei o cantor. Procurei a entrevista para postar junto com este texto, mas ela se perdeu por aí, infelizmente. Ah, também pedi pra ele autografar o seu primeiro LP da carreira solo, pra surpresa dele: “onde você conseguiu isso rapaz!?”.

Hoje Marcelo Nova continua por aí, lançando discos que só seus fãs mais fervorosos se interessam em ouvir. Suas músicas, com exceção dos antigos sucessos, não fazem parte da programação das rádios. Mas o músico segue em frente, fazendo seus shows e dando muitas entrevistas. Quer polêmica? Declarações bombásticas? Comentários ácidos? Liga pro Marcelo que ele solta a língua! Hoje, tirando o Lobão, não sei se existe outro artista renomado da música que seja tão autêntico quanto ele.

Veja aí o que ele disse pro jornalista Vladimir Cunha, em entrevista em 2008 para a MTV: “Aí não… emo é foda. Esse negócio de emo me torra a porra do saco. Pega essas bandinhas aí… tudo com aquele cabelinho, aquele… aquele sebo no cabelo, aquela seborréia... ‘Levei um chifre’, ‘ai meu cu’, ‘ai não sei o quê’… Porra, isso não é rock, meu filho. Isso é uma porra de SERTANEJO DISFARÇADO. PUTAQUEOPARIU!”.

O Brasil geralmente é injusto com quem tem algo a dizer. Mas acho que Marcelo Nova não liga muito pra isso não. Deve seguir a máxima anárquica que ele mesmo ensinou pra todo mundo num clássico do Camisa de Vênus:

“Se você não ganhou nada, não tem nada pra perder. Então bota pra fudê!”.

Sábio Marcelo...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Vida: a biografia de Keith Richards


Como se estivesse em uma longa, mas agradável e divertida conversa de boteco com um dos maiores rock stars de todos os tempos. É assim que a gente se sente lendo “Vida” – a autobiografia de Keith Richards, o famoso guitarrista dos Rolling Stones. Lançada no finalzinho de 2010 no Brasil, o livro (com mais de 600 páginas) já é um dos atuais campeões de venda. E não é para menos, afinal, o músico é uma das personalidades mais icônicas do mundo artístico do século XX. Bom, nem sei porque eu estou apresentando o cara... Afinal, estamos falando de Keith Richards!

Beirando os 70 anos, mas com um corpinho de 130, Keith Richards é um sobrevivente do rock and roll. De garoto pobre que odiava a escola, encontrou na música a sua razão de viver. Da linhagem dos blueseiros iniciada por Robert Johnson na década de 1920, o guitarrista dos Stones absorveu e aprimorou ao longo de sua carreira uma gama enorme de estilos que vão do country ao rock and roll da década de 50, passando pelo reggae e até mesmo pela disco music. Toda essa trajetória de sua formação músical é claro que é contada em “Vida”, que o guitarrista escreveu em parceria com o jornalista James Fox.

Mas, o que a gente quer saber mesmo é das festas, das prisões, dos vícios, das brigas com o parceiro Mick Jagger e dos fatos que estiveram atrás das gravações dos discos clássicos dos Rolling Stones. A gente quer saber é como Keith Richards trasformou a sua vida num inferno na década de 70 e conseguiu se safar, ao contrário de muitos dos amigos deles que ficaram no meio do caminho ao se aventurarem na brincadeira perigosa que é viver intensamente o espírito sexo, drogas e rock and roll. E Keith Richards não esconde nada, no máximo, dá a sua versão dos fatos...

Com a autoridade que a sua carreira lhe confere, no livro Keith Richards dá algumas dicas que podem ser bem úteis, tanto para uma dona de casa como para quem sonha em se tornar uma estrela de rock. Para estes, o guitarrista afirma que em primeiro lugar é preciso se dedicar muito, buscar aprender sempre as infinitas possibilidades de um instrumento, tocar sempre por prazer em primeiro lugar e, se tiver um pouco de talento e muita, mas muita sorte, quem sabe um dia pode virar uma estrela.

Para quem quer ser malaco ou bandido, o recado é o seguinte: um revólver você usa quando realmente está falando sério. Já uma faca você deve usar apenas para distrair seu oponente, que vai estar preocupado com a lâmina enquanto você está chutando as bolas dele.

Quer ser um drogado? Bom, o melhor é: não entre nessa achando que poderá sair quando quiser. Mas, se mesmo assim insistir, nunca compre drogas das ruas. Vá atrás das melhores. É devido ao fato de ter os melhores fornecedores que Keith Richards credita o fato de ainda estar vivo. As drogas mais poderosas? Heroína e crack. Melhor não brincar com elas...

Foi preso? Para se safar você precisa de duas coisas: seja amigo de pessoas importantes e influentes e, principalmente, tenha muita grana. Foi assim que ele acabou escampando da cadeia tantas vezes...

Tá a fim de matar a fome? Keith Richards dá a receita do seu prato favorito. Purê de batatas com linguiça frita. O segredo é iniciar a fritura da linguiça com a frigideira fria! E mais, do manual de sobrevivência de Keith Richards ainda vem essa outra dica. Para manter a forma, coma sempre que tiver fome. Não caia nessa de se alimentar apenas três vezes ao dia. O ideal é fazer pequenas refeições durante o dia, o que facilita a digestão e ainda ajuda manter a forma!

Está vendo, “Vida” é um livro pra todo mundo. Cabe a cada um tirar suas lições dos ensinamentos de Keith Richards. Ah, é claro que ele ainda fala de dois assuntos polêmicos. Um deles é a lenda de que certa vez ele trocou todo o sangue do seu corpo todo envenenado por drogas por sangue novinho em folha. Outro é o oba-oba que saiu na imprensa há quatro ou cinco anos, quando o guitarrista disse que cheirou as cinzas do próprio pai. Mas isso eu não revelo. Quer saber? Leia o livro.

E já que estamos falando dos Rolling Stones, vale a pena conferir o documentário “Stones In Exile”, lançado também em 2010 e que conta a história da gravação do álbum “Exile in the Main Street”: o melhor álbum do grupo, gravado de forma caótica na mansão de Keith Richards na França em 1972. Um vídeo não apenas recomendável, mas obrigatório!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Entrevista exclusiva com Leonardo Boff


Edição de dezembro da revista Amigos da Natureza está circulando e nela o leitor encontra uma entrevista exclusiva com o filósofo, teólogo e escritor Leonardo Boff. Conversei com Leonardo Boff há cerca de um mês, em Foz do Iguaçu, depois de encontrá-lo por acaso no saguão do hotel onde estava sendo realizado o Cultivando Água Boa + 8, da Itaipu Binacional. O resultado da conversa você lê nas páginas da Amigos da Natureza ou aqui no blog, logo aí embaixo. Vale a pena conferir o que pensa um dos ambientalistas mais respeitados em todo o mundo...

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“Estamos diante de uma grande crise de civilização”

Conhecido e respeitado no Brasil e em diversos países pelo seu trabalho como professor, escritor, teólogo e filósodo, Leonardo Boff também é uma autoridade quando o assunto é ecologia. Natural de Concórdia (SC), onde nasceu em 1938, a vida de Leonardo Boff sempre foi marcada pela luta em favor dos direitos humanos. E neste momento em que o mundo vive uma era de transição, em que uma mudança de atitude em relação ao meio ambiente se faz cada vez mais necessária, o pensamento de Leonardo Boff também têm sido uma referência. Autor de mais de 60 livros e agraciado em 2001 com o prêmio nobel alternativo em Estocolmo – entregue pela Right Livelihood Award – , Leonardo Boff concedeu a seguinte entrevista exclusiva para a revista Amigos da Natureza.

Vivemos um período de transformação. Como o senhor percebe esse momento histórico de mudanças de paradigmas, em que o meio ambiente começa a ter um espaço cada vez maior?
Eu creio que há uma convicção que cresce cada vez mais no mundo de que assim como está não podemos continuar. Aquelas ideias que produziram a crise não são aquelas que vão resolvê-la. Então, temos que ter novas ideias. Isso significa uma nova relação com a natureza, que não pode ser de depredação, mas de sinergia, de respeitar os ciclos dela. E também uma nova relação com a produção, que não deve ser orientada para a acumulação e o enriquecimento de alguns. Ela tem que ser a produção do suficiente para nós e todos os demais seres vivos, que também precisam da biosfera. E que isso se faça não no espírito da competição, do mercado e na lógica da economia. Mas, no espírito da cooperação, que é a lógica da natureza, em que um ajuda o outro e todos coexistem. Temos que pensar nas gerações futuras para que nossos filhos e netos lá na frente, olhando para trás, não nos amaldiçoem porque entregamos a eles uma natureza devastada e uma terra sacrificada. Essas ideias novas têm que se transformar em hábitos, em práticas diferentes. É isso que transforma a realidade.

O século passado foi marcado pela intensificação da industrialização, que levou a essa crise que estamos vivendo agora. Para o século XXI, que tipo de sociedade pode ser construída?
Será uma sociedade que vai descobrir a casa comum, a Terra, que é um planeta pequeno, com recursos escassos e super povoado. As pessoas vão se descobrir como uma espécie de família humana, que tem que conviver junto e por isso precisa gerenciar esses recursos para que todos tenham o suficiente para viver. Uma sociedade que será uma democracia sem fim, ou seja, todos vão participar, conforme suas tradições, seus costumes, trazendo seus valores diferentes, mas tendo como convergência que nós devemos viver uma paz entre nós e preservar essa casa comum, que está muito devastada. Devemos sarar as feridas passadas e impedir as feridas futuras. Isso se faz pela ética do cuidado. O cuidado tem essa característica, ele fecha feridas e impede novas. Eu não posso praticar ações que tenham consequências destrutivas para a natureza e os outros. Será uma sociedade mais simples, que vai aprender a viver com menos e viverá melhor, com um profundo respeito por todos os seres, que têm direito de estarem conosco. Isso é um pouco sonho, mas não podemos deixar que ele fique sendo apenas um sonho. Tem que começar a realizar em cada lugar, começando pela gente mesmo. A soma dessas experiências vai permitir o salto para essa nova sociedade.

O senhor entende que as novas gerações estão tendo uma preocupação maior com a natureza?
Por todos os lados do mundo estão se fazendo experiências alternativas. Elas nascem não só da boa vontade, mas também do desespero das pessoas que vêem suas safras perdidas, as terras sendo desertificadas, a água faltando cada vez mais, as florestas desaparecendo. Então, as pessoas estão se dando conta que as condições básicas da vida são afetadas. E aí começam as novas iniciativas para sobreviver. Agora, elas ainda não conseguiram se articular para constituir uma força, um projeto. O Fórum Social Mundial é o lugar onde elas se tornam visíveis, se encontram e contam as próprias experiências. Mas isso ainda não se transformou em um discurso político para fazer frente ao discurso dominante. Mas, quanto mais cresce a crise, mais cresce o pensamento e a urgência da mudança para construir um núcleo de valores mínimos a respeito do cuidado com a vida, da responsabilidade, da compaixão com quem sofre. Ao redor de um bloco de valores vai se criar um consenso, no qual as pessoas vão se unir e impor mudanças fundamentais. Cada um tem que ser ator porque a crise é global. Cada um pode dar um pouco da sua colaboração para o benefício coletivo.

Que exemplo o Brasil pode dar para o resto do mundo com relação às questões ambientais?
O Brasil vive uma grande contradição. Nele se revelam todas as misérias do mundo: pobreza, injustiça, etc. Simultaneamente, nele se revelam todos os fatores que podem significar um futuro bom para a humanidade. Abundância de biodiversidade, florestas, de água, de energia, o maior número de terras férteis do planeta. O Brasil vive as duas coisas. É um pouco a tragédia e um pouco a esperança do mundo. Eu desejo o que renomado Ignácio Sachs deseja: que o Brasil seja uma pequena antecipação daquele mundo futuro que ele chama de A Terra da Boa Esperança. Ele coloca no centro a vida, a humanidade e a Terra. O Brasil tem condições geográficas e ecológicas para fazer esse pequeno ensaio. Depende de nós vergar os poderes públicos para uma consciência nova e fortalecer as práticas que estão nos movimentos sociais que vão nessa linha.

Em nenhuma eleição para presidente no Brasil se falou tanto em meio ambiente como em 2010. A classe política está mesmo mais preocupada em promover o desenvolvimento sustentável?
Existe o alarme ecológico, do aquecimento global. Os céticos estão se retirando cada vez mais, rendidos pelos eventos extremos que ocorrem no mundo. Por exemplo, seca no Norte do país, o Sul com ventos e tempestades que assolam as plantações, derrubam casas. Grandes secas na África, enchentes terríveis na Ásia. Esses eventos mostram que a Terra perdeu o equilíbrio e está buscando ele de volta. Esse alarme ecológico está entrando lentamente na consciência coletiva porque nós não podemos esperar. Uma coisa é dar-se conta do problema, outra é transformar isso em políticas que façam adaptações para esta situação nova, que diminuam os efeitos desastrosos que estão acontecendo por todas as partes. E a isso nós não chegamos. É um desafio do governo de Dilma Rousseff junto ao PAC incorporar o elemento ecológico. Isso não se trata só do ambiental, mas também do social, de incluir a população. São novos valores e conceitos que precisam ser incluídos. E vendo a totalidade, não só o Brasil. O Brasil, como uma província privilegiada do planeta, tem uma missão importante para o equilíbrio global.

As ONGs e movimentos sociais estão ocupando um papel importante no debate público e político. O caminho para promover as mudanças necessárias passa por eles?
A minha tese é que dos governos não podemos esperar nada substantivo porque eles são dominados pelos interesses econômicos dos grandes capitais, onde procuram um equilíbrio para sobreviver. Acredito na sociedade civil mundial, que se expressa pelos movimentos sociais, pelas mulheres, pelo MST, pelas ONGs. A humanidade tem que tomar em suas mãos o seu destino e não delega-lo a grupos de poder. Chegou o momento da nova cidadania planetária. Com essa força articulada dos movimentos sociais, pressionar os governos para que as grandes questões não sejam resolvidas no parlamento, mas no diálogo com a sociedade, em uma democracia participativa, responsável, com os representantes em contínuo diálogo com suas bases para poderem estar em sintonia com esse movimento novo da história. O que vai triunfar é aquilo que é o grande sonho das culturas andinas, que é a democracia comunitária. As comunidades se organizam, estabelecem formas de produção, equilíbrio e articulação.

O senhor é um otimista ou pessimista quanto ao futuro?
Eu parto da tese que a vida é mais forte que a morte. Na atual realidade, nós estamos diante de uma tragédia cujo fim é fatal e ruim. Estamos diante de uma grande crise de civilização. A crise obriga mudanças, como uma pessoa que passa por crises muda, troca de hábitos, redefine a vida. Estamos no coração de uma grande crise e vamos sair dela, na direção de uma humanidade melhor. Não porque ela queira simplesmente, mas porque não vê alternativa. Ou ela muda ou ela morre. E muda no sentido de recolher tudo de bom que a tecnociência criou, das distintas culturas e fazer um novo ensaio civilizatório com muito mais simplicidade, mais sintonia com a natureza, mais solidariedade. Isso é possível e o futuro da humanidade vai nessa direção.

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CRÉDITO DA FOTO: Cristiano Viteck

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Afonso Ribeiro: o primeiro brasileiro


Personagem dos mais intrigantes da história do Brasil me foi apresentado ontem pelo jornalista e historiador Eduardo Bueno. Não pessoalmente, é claro, mas na leitura do livro “A Viagem do Descobrimento”, um dos três volumes que integram a coleção Terra Brasilis que Bueno publicou, pela Editora Objetiva, em 1998.

Trata-se de Afonso Ribeiro. Condenado à morte em Portugal, ele foi embarcado na expedição de Pedro Álvares Cabral que oficialmente descobriu o Brasil em 22 de abril de 1500. Por aqui, Cabral e seu comandados ficaram por 10 dias, mantendo contatos com os índios, reabastecendo os navios com água e alimentos e fazendo o reconhecimento da região que haviam descoberto.

Quando a embarcação de Cabral e toda a sua frota partiram da nova terra para seguir viagem à Índia, aqui deixaram Afonso Ribeiro e um outro degredado, cujo nome não ficou registrado na história. A missão de Afonso seria aprender a língua dos indígenas para servir de interlocutor aos portugueses quando estes retornassem à terra recém descoberta, além de averiguar se havia aqui objetos de interesse a Portugal.

Registra a história que, ao ver as embarcações se afastando da costa brasileira, Afonso Ribeiro chorou, chorou e chorou. Não é para menos: ser abandonado numa terra que ninguém sabia ao certo onde ficava, ao lado de um povo que andava nu, não falava a língua dele, tinha costumes totalmente diferentes de tudo o que Afonso havia visto na vida... Imagino os tormentos de sensações e a amargura vivida na pele por esse sujeito, abandonado à própria sorte com uma vã promessa de que, algum dia, alguém, quem sabe, viria resgatá-lo.

Mas, o improvável aconteceu. O flagelo de Afonso Ribeiro e de seu colega anônimo durou exatos 20 meses, quando uma nova expedição enviada ao Brasil pelo rei português D. Manoel resgatou o degredado. Levado para Portugal, onde teve seu crime perdoado, os relatos de Afonso Ribeiro tiveram grande importância para que o Velho Continente conhecesse um pouco mais sobre o novo mundo que havia há pouco sido descoberto. Mais do que isso, o depoimento de Afonso Ribeiro teria servido de fortes argumentos para que o navegador Américo Vespúcio defendesse (corretamente) a ideia de que as terras descobertas em 1492 se tratavam de um novo continente e não da Índia, como acreditou Cristóvão Colombo até o fim de sua vida.

Bandido, condenado e abandonado neste mundão de meu Deus. Deu a volta por cima, foi perdoado e entrou para a história. Este é Afonso Ribeiro: o primeiro brasileiro.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Hype!


Em 2011, completa-se 20 anos que toda uma cultura underground do rock norte-americano, capitaneada pelo Nirvana, tomou de assalto as paradas de sucesso ao redor do mundo, causando também uma pequena revolução na moda e no comportamento de parte significativa daquela geração de adolescentes. Conhecido como grunge, o movimento surgido na cidade de Seattle é considerado, desde então, a última grande revolução do rock – Cine, Restart e similares não contam, please...

E o retrato definitivo dessa era é “Hype!”, o documentário de 1996 dirigido por Doug Pray. Rodado ainda na ressaca que se abateu sobre o grunge com a morte de Kurt Cobain, o filme resgata a trajetória do rock em Seattle desde os anos 80 e que acabou por tornar possível o estouro do Nirvana, uma banda de uma cidadezinha próxima a Seattle que ninguém, além do produtor Jack Endino e o pessoal da gravadora Sub Pop, apostaria um único níquel furado no seu sucesso.

Com registros de shows e entrevistas de bandas “menores” da cena grunge, como Supersuckers, 7 Year Bitch e Young Fresh Fellows, ao lado de pesos-pesados como Pearl Jam, Soundgarden e Mudhoney, “Hype!” dá uma visão geral de tudo o que aconteceu no período de 1991 a 1994, quando Seattle pareceu ter se tornado a capital mundial da música e da moda. Na ressaca do sucesso (e do fracasso para aquele que não atingiram a fama), uma fila imensa de músicos dá a sua versão sobre toda aquela histeria detonada pelo disco “Nevermind”. Assim, o diretor Doug Pray conseguiu juntar os pedaços e contar o início, o auge e o fim do grunge.

De lambuja, nas entrelinhas dos 83 minutos de “Hype!” ainda dá para aprender algumas lições de como funciona a gigante indústria fonográfica, sempre a caça de novas bandas, cenas e tendências para extrair delas até o último centavo que possam render e, depois, virar as costas e fazer tudo de novo em outro lugar.

O documentário está fora de catálogo, mas vale correr atrás do download (http://arapongasrockmotor.blogspot.com/2008/07/hype-1996.html) ou procurar em algum sebo pelo VHS ou DVD.