terça-feira, 6 de agosto de 2013

Carter e o Diabo



 

Carter, que agora tinha maquinado um plano completo, olhou fixo por sobre o ombro de Houdini. Houdini virou-se e viu que ele olhava para o leão, o qual como se satisfeito com o espancamento de Mysterioso, estava tranquilo, a ponta da língua para fora, as patas entre as grades da jaula. Houdini olhou para o palco. De novo para o leão. Olhou para Carter, que olhava para os acessórios deixados no palco com um interesse de proprietário, e Carter pensou alto:
- Faça-me a atração principal. Que eu faça o trabalho para o qual nasci.

***

Um livro com um título bacana, uma sinopse atraente, uma bela capa, lançado por uma editora respeitável e que estava à venda por apenas R$ 4,90 dias atrás em uma grande livraria em Curitiba. Foi assim, como num passe de mágica, que tomei conhecimento da obra “Carter e o Diabo”, livro de estreia do escritor estadunidense Glen David Gold lançado em 2002 e que ganhou uma edição brasileira em 2004 pela Editora Record.

Reunindo personagens reais em situações fictícias, a história se desenrola quase toda na cidade de São Francisco (EUA), na década de 1920. O Carter do título do livro é Charles Joseph Carter, também conhecido como “Carter, o Grande”. Nascido em 1874 e morto em 1936, ele é considerado um dos maiores mágicos dos Estados Unidos à época. 

O verdadeiro mágico Charles Carter (1874-1936)

No livro de Gold, Carter é suspeito de ter assassinado o presidente Warren Gamaliel Harding poucas horas depois deste ter participado de um número arriscado do espetáculo do mágico. Na vida real, Harding morreu em condições misteriosas em 02 de agosto de 1923, no hotel onde estava hospedado na cidade de São Francisco.

Suspeito do crime, a trama principal do romance desenvolve-se com o mágico sendo perseguido por agentes federais, entre eles o atrapalhado Jack Griffin. As escapadas de Carter diante da lei são tão misteriosas quanto àquelas que ele executa em suas apresentações, o que garante um ritmo frenético de leitura. Carter ainda precisa lidar com um mágico rival, o demente e arrogante Mysterioso!

Presidente dos EUA Warren Gamaliel Harding morreu em circunstâncias misteriosas em 1923

O clima de thriller policial, contudo, é interrompido pelos saltos temporais feitos pelo autor, que não deixa de descrever várias fases da vida de Carter, passando pela sua infância e o início de seu envolvimento com os segredos da mágica até os seus anos de formação quando viajou por vários países do mundo apresentando truques que encantaram inclusive vários chefes de Estado. No romance, até mesmo para piratas o mágico teve que atuar!

Além de Carter e do presidente Harding, outros personagens reais desfilam pelo livro. É o caso, entre outros, de Harry Houdini (1874-1926), ilusionista de grande fama nos Estados Unidos por suas fugas “impossíveis” de correntes e algemas, e Max Friz, fundador da BMW. Outro nome importante na história (no livro e na vida real) é Philo Farnsworth, o inventor da televisão.

Philo Farnsworth, inventor da televisão

Com tantos nomes interessantes e descrições pormenorizadas da cidade de São Francisco, mais do que criar um romance policial, Glen David Gold também consegue traçar um painel de uma época marcada por diversas invenções e costumes que ficariam marcados na história do século XX. 

Mas, ao mesmo tempo, também assinala o fim da era dourada dos espetáculos ao vivo de mágica e de outras formas de entretenimento que perdiam cada vez mais espaço para o cinema e, algumas décadas depois, também para a televisão, que se popularizou na década de 1950.

Com uma mistura acertada entre realidade e ficção, “Carter e o Diabo” é uma leitura prazerosa que leva o leitor para um universo onde nem tudo é o que parece ser...

Pôster usado por Charles Carter para divulgar seu espetáculo na década de 1920

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Empolgante e repleto de ação, “Carter e o Diabo” – o título do livro foi tirado de um truque no qual Charles Carter duelava com o capeta para ver quem realizava a melhor mágica – pode virar filme em breve através da Warner Bros., inclusive com Johnny Deep no papel principal.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Arte, inimiga do povo



Como o jazz, estilo musical com origens nas comunidades negras e nos puteiros de Nova Orleans (EUA) no final do século XIX e início do XX, se transformou de uma manifestação popular em arte erudita algumas décadas depois? 

É pegando essa pergunta como gancho que o professor Roger L. Taylor, da Universidade de Sussex (Inglaterra), publicou em 1978 o livro “Arte, inimiga do povo”. A obra ganhou edição brasileira em 2005 pela Editora Conrad.

Logo nas primeiras das cerca de 200 páginas, Taylor deixa claro que o livro se presta a duas coisas. Uma delas é ser uma publicação não apenas para acadêmicos, mas para leiteiros, balconistas, lixeiros, carteiros, ou seja, qualquer pessoa que se interesse pelo assunto. Mas, embora prometa um texto “fácil”, nem sempre o autor cumpre a promessa, em especial no primeiro capítulo onde discute metodologicamente os conceitos de “filosofia” e “arte” a que ele se refere no livro. Mas vale o desafio.

Já sobre o segundo objetivo, Taylor dispara:

“Para firmar minha posição da forma mais desafiadora, declaro que a arte e a filosofia são inimigas das massas. Portanto, não é minha intenção levá-las ao povo, e sim armá-lo contra elas. É por esse motivo que eu gostaria que esse trabalho fosse lido. Do jeito que as coisas estão, as massas, com uma certa vergonha, ignoram a arte e a filosofia. Quero que a população tome consciência dessas atividades e, a partir disso, assuma uma atitude de desprezo e resistência a elas.”

Conceito de arte era inexistente na Idade Média

Segundo o escritor, o conceito de arte como o assimilamos hoje era inexistente até o fim da Idade Média, quando fazer música, escrever ou pintar era uma atividade tão mundana quanto produzir um sapato ou construir uma charrete. Taylor defende que isso mudou entre os séculos XVII e XVIII na Europa, quando a aristocracia começou a entrar em crise com a ascensão da burguesia ao topo da esfera social. 

Através da supervalorização de seus costumes e símbolos, afirma o autor que nobreza criou inventou o  conceito de arte: “Dessa forma, aquilo que distinguia a classe aristocrática era mantido como algo que possuía status. Entrar nessa forma de vida era se envolver em uma atividade elevada e superior (...), a forma mais elevada e absoluta de aspiração social e individual”.

Quando a burguesia enfim se tornou a classe dominante, ela se apropriou da ideia de arte como representação do status de sua própria classe. Porém, diferente da aristocracia, que pensava a arte como reflexo ou representação da estrutura social estabelecida, Taylor afirma que a burguesia passou a considerar a beleza artística a partir “da presença ou da ausência de uma resposta psicológica, frequentemente identificada nas teorias como prazer" em relação às atividades burguesas como pintura e literatura, que não eram consideradas artes pelos padrões aristocráticos.

Essa discussão sobre a origem da arte feita pelo autor – um tanto quanto cabeluda e longe de ser uma unanimidade – foi necessária para que ele pudesse defender que a origem do conceito moderno de arte foi forjado ideologicamente. Simplificando a questão, o problema nisso, sugere Taylor, está no fato de que o aquilo que vem sendo considerado arte ou não e os critérios para essa definição é uma escolha da classe burguesa com o objetivo de reforçar e valorizar a sua forma de interpretar e organizar a sociedade. 

Insiste o professor que, embora ao longo dos últimos três séculos tenha sido criado todo um repertório, todo um “jogo de palavras” para defender a arte erudita como superior à arte popular, tudo não passa de uma farsa, do que vem a conclusão expressa no título do livro: a arte é inimiga do povo.

“A implicação mais óbvia dessa análise sugerida”, explica o autor, “é que, para aqueles que ficam de fora da vida ‘cultural’ da sociedade, não é preciso considerá-la um ideal elevado do qual se vejam excluídos por falta de talento, inteligência ou sensibilidade, tampouco se sentirem envergonhados, culpados ou arredios por causa de sua ignorância sobre o tema. Não existe ideal elevado, existe apenas o estilo de vida daqueles grupos sociais que detêm os maiores recursos financeiros dentro da sociedade”.

Então, como é que o jazz, música origem popular, se transformou em alta cultura? Inicialmente é preciso ter em conta que a cultura é dinâmica. Ela não é um monumento de pedra que resiste à passagem do tempo. A cultura está em constante transformação e circula em jogo de trocas tanto entre as classes mais abastadas como as mais populares, sendo permanentemente reconstruída. 

No processo de elevação do jazz ao nível de cultura erudita, Taylor aponta que houve um processo de desmonte do estilo musical. Das casas de moral duvidosa onde surgiu, elementos dessa música foram sendo readaptados para os grandes salões que os ricos freqüentavam. Tiraram-se os elementos mais subversivos e “dourou-se a pílula” para o gosto das elites. Essencialmente em sua origem uma música feita por negros, aos poucos músicos brancos passaram a tocá-lo nos grandes bailes animados por orquestras. Proibida em rádios, com o “clareamento” dos músicos, muitas rádios passaram a executá-las. “Quando a música começou a absorver essas formas, perdeu sua base popular”, lamenta o a autor.

Roger L. Taylor passa longe da discussão sobre a contracultura

A discussão sobre a arte como inimiga do povo é interessante. Porém, a percepção de quem lê o livro quase 35 anos após a sua publicação é que “Arte, inimiga do povo” deixou muitas lacunas em aberto, apesar dos esforços do autor em preenchê-las. Pouco o autor discute sobre as teorias da cultura de massa que tiveram ampla repercussão a partir do escritor de Theodor Adorno. 

Também seria o caso de Taylor ter dado mais atenção aos vários movimentos de contracultura surgidos ao longo do século XX e que batiam de frente com a arte erudita, podendo ser citados como exemplos os beatniks, os situacionistas, os hippies, os punks entre tantos outros. Inclusive, para quem se interessar, uma leitura que aprofunda estes e outros movimentos contraculturais é “Assalto à Cultura”, de Stewart Home, também publicado no Brasil pela Editora Conrad.

Mas, vale a leitura. “Arte, inimiga do povo” é um livro altamente recomendável por nos levar a pensar a arte não de modo tão ingênuo, mas sim como um amplo campo de lutas sociais no qual o engodo artístico é uma arma poderosa.

domingo, 21 de julho de 2013

"Eu falo música": a história fotográfica dos Ramones



Hey ho, let’s go!!! Saiu a edição em português de “Eu Falo Música: Ramones” (I Speak Music: Ramones), livro de autoria do norte-americano George Dubose, fotógrafo oficial dos Ramones.

Sabe aquela capa lindona do “Too Tough To Die”? Foi ele quem fez, assim como a de “Subterranean Jungle”, “Halfway to Sanity”, “Ramonesmania”, “Mondo Bizarro”... Enfim, muito do que os Ramones fizeram de 1983 até o fim da banda em 1996 passou pelas lentes do fotógrafo George Dubose.


Primeira sessão de DuBose com os Ramones, para a capa de "Subterranean Jungle" em 1983

A edição em português teve uma colaboração gigantesca do meu brother internético Leonardo Drumond (é flamenguista, mas é fã de Ramones, e que alivia um pouco a barra dele), que foi quem traduziu a bagaça... E por causa dele eu acabei entrando de gaiato no projeto como revisor...

Bom, no livro Dubose fala da sua relação com a banda e obviamente como foram feitas as sessões que resultaram em algumas das capas de álbuns clássicos dos Ramones e outras imagens de divulgação. Obviamente, tudo recheado com muitas fotos inéditas da banda mais legal do mundo.

O fueda é que por enquanto o livro está à venda apenas no site da Amazon

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Nas entranhas do grunge



As histórias mais conhecidas e engraçadas, assim como as mais remotas e deprimentes sobre a cena musical de Seattle (EUA) – que ganhou fama no início dos anos 1990 – estão reunidas no livro “Everybody Loves Our Town: an oral history of grunge” [Todo Mundo Ama Nossa Cidade: uma história oral do grunge], do jornalista estadunidense Mark Yarm. Editado pela Three Rivers Press, a publicação recebeu críticas elogiosas, sendo inclusive escolhida como “o melhor livro do ano” pela revista Time em 2011, o que não é pouca coisa.

O grunge pode ser considerado a última grande cena musical do rock, levada aos quatro cantos do mundo por nomes como Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e Soundgarden, apenas citando os mais famosos. E o que o jornalista Mark Yarm se propôs a fazer e o fez muito bem em seu livro foi tentar explicar como grupos acostumados a tocar em festas da vizinhança ou em pequenos clubes para algumas dezenas de pessoas se tornaram rock stars da noite para o dia e promoveram uma considerável revolução cultural não só na música, mas também na moda.

“Everybody Loves Our Town” segue o mesmo método de outro livro obrigatório da história da música pop, o clássico “Mate-me por favor: uma história sem censura do punk”, escrito por Legs McNeil e Gillian McCain. Ou seja, toda a história é contada a partir de depoimentos de centenas de pessoas, sempre transcritas em discurso direto. Para seu livro, Mark Yarm realizou mais de 250 entrevistas incluindo tanto os personagens famosos como aqueles que não tiveram seu reconhecimento público, mas foram fundamentais para a origem e desenvolvimento do grunge: músicos, produtores, fotógrafos, jornalistas, executivos, empresários e quem mais tivesse algo de interessante para contar.

Jack Endino, o produtor que talvez mais tenha gravado bandas de Seattle da geração grunge, já nas primeiras páginas não esconde sua surpresa pelo fato da cidade ter se tornado por um breve tempo a Meca da música. “Ninguém pensava que houvesse a mínima chance de ter sucesso. As pessoas faziam discos pensando em agradar a si mesmas porque não havia ninguém mais para agradar, ninguém estava prestando atenção em Seattle. Era apenas um pequeno e isolado germe cultural”, define Endino.

Fazem parte dessa primeira geração nomes desconhecidos como Malfunkshun e Green River, que hoje são mais lembrados por terem em sua formação membros que anos mais tarde estariam em bandas famosas como Pearl Jam e Mudhoney.


Sub Pop

É muito provável que a cena musical de Seattle continuaria sendo um minúsculo “germe cultural” se não fosse por Bruce Pavitt e Jonathan Poneman, os fundadores do selo Sub Pop, que em 1988 começou a gravar as bandas da região. Como os próprios ironizaram no documentário “Hype!” (1996), quando começaram o selo, para atrair o interesse das bandas e do público fingiam que a Sub Pop era uma grande gravadora. Depois, com o sucesso do grunge, para manter o status de selo alternativo a ideia de Pavitt e Poneman era vender a imagem de que a Sub Pop não passava de uma empresa minúscula.

Sem grana para promover individualmente cada uma das bandas do selo, os donos da Sub Pop tiveram o insight de pagar uma viagem para o jornalista inglês Everett True conhecer a cena de Seattle. Por dias seguidos True foi generosamente abastecido pela Sub Pop com litros de álcool, entrevistou bandas e foi a shows estrategicamente agendados para parecer que Seattle tinha uma grande cena musical.

“Eu pensava em como era hilário que todo mundo mentia”, declara o jornalista no livro de Mark Yarm. O caso é que a matéria de Everett True, publicada na revista Melody Maker em março de 1989 com o título “SUB POP Seattle: rock city”, aguçou o interesse dos ingleses, que passaram a se interessar pelo que estava acontecendo em Seattle.

O “golpe” dos donos da Sub Pop havia dado certo. A ideia era simplesmente tentar reproduzir o que havia feito Jimi Hendrix duas décadas antes. Nascido em Seattle, o então desconhecido guitarrista mudou-se para a Inglaterra e lá construiu sua fama, para depois ver sua música novamente exportada aos Estados Unidos. E foi o mesmo que aconteceu com a Sub Pop e suas bandas: primeiro a fama na Europa, depois o reconhecimento do público americano.

Porém, não foi nenhum nome da Sub Pop que teve um primeiro grande sucesso. Isso coube ao Alice in Chains e sua música “Man in the Box”, presente no disco “Facelift”, de 1990. Nick Terzo, executivo da Columbia, gravadora da banda, resumiu a história de como o grunge “aconteceu” ao dizer que o Alice in Chains teve o trabalho de abrir inúmeras portas e que o Nirvana veio logo atrás.

Nirvana em outubro de 1991, logo após o lançamento de "Nevermind"

Efeito Nirvana

A partir do sucesso de “Nevermind”, o segundo álbum do Nirvana - lançado em setembro de 1991 pela gravadora Geffen Records, a história da cena musical de Seattle é bem conhecida. O grupo de Kurt Cobain derrubou Michael Jackson e Guns n’ Roses do topo da parada da Billboard. Outros grupos também alcançaram imenso sucesso e o rock alternativo, durante anos relegado a um pequeno público underground, virou a nova galinha de ouro para as gravadoras.

O sucesso afetou de modo diferente cada um da cena musical de Seattle. Conforme revelam os entrevistados em “Everybody Loves Our Town”, havia quem se esbaldava no estilo de vida “sexo, drogas e rock and roll” proporcionado pela fama repentina. Outros simplesmente não conseguiram segurar a onda. Ou pelo menos fingiam não gostar da nova condição de estrela do rock. No livro, o guitarrista Kim Thayil, do Soundgarden, comenta que a lógica dos artistas era, em muitos casos, “fingir que nós não queremos todo esse sucesso, mas que alguém está nos forçando a isso. Eu penso que todo mundo fez isso, incluindo membros da minha própria banda”.

Pearl Jam se tornou a banda grunge de maior sucesso

Overdose grunge

Aceitando bem ou não o sucesso (ou a falta dele, para a maioria), todos tiveram que lidar com a ressaca que se abateu sobre Seattle quando a moda grunge passou. Kurt Cobain não foi o primeiro e nem o último artista a ter um fim trágico. Antes dele outros já haviam morrido por overdose de drogas ou tiveram problemas sérios, especialmente com a heroína. E é a morte por overdose do vocalista do Alice in Chains, Layne Staley, em 2002, que praticamente encerra a era grunge.

Obviamente que muitos personagens dessa geração continuam por aí. Dave Grohl, ex-baterista do Nirvana, montou a super banda Foo Fighters. O Pearl Jam continua na ativa até hoje como um dos maiores nomes do rock atual. O Soundgarden voltou a existir e atualmente excursiona com um álbum novo. O Alice In Chains também, após mais de uma década parado, retomou a carreira com um novo vocalista e já lançou dois discos de inéditas desde 2009. Jack Endino não precisou mudar de profissão como ele temia na metade dos anos 1990 e ainda é um produtor bastante requisitado e respeitado. A gravadora Sub Pop, agora parceira da Warner Bros., comemora em 2013 seu 25º aniversário, ainda gravando e revelando artistas interessantes.

Mas o grunge como um movimento agora faz parte dos livros de história, sendo o melhor deles até agora “Everybody Loves Our Town”. Está tudo aqui nas 550 páginas do livro de Mark Yarm: as origens, as brigas, as loucuras, os excessos, os sucessos e fracassos. Tudo contado pelos grandes e pequenos personagens que tiveram o privilégio de estar no olho do furacão de uma era memorável do rock and roll.

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PS.: Mark Yarm e os fãs de rock ainda aguardam que alguma editora brasileira deixe de ser idiota e publique o livro no Brasil.

Entrevista com Mark Yarm aqui

sábado, 17 de novembro de 2012

A “Autobiografia” de Neil Young



Nas últimas semanas li três biografias de dois artistas que estão entre os mais importantes da música:  Neil Young e Dave Grohl. Recém lançadas no país, as obras são recomendadíssimas para quem acompanha a cultura pop.

Os dois sobre Dave Grohl ficam para a próxima postagem. Primeiro, o livro escrito pelo próprio Neil Young, que aos 65 anos decidiu parar de beber e de fumar maconha, fatores que, como ele mesmo afirma, foram fundamentais para ele criar coragem e encontrar a motivação para escrever “Autobiografia”, título que a obra recebeu no Brasil.

Concordo que Neil Young é um artista pouco conhecido aqui pelo nosso país e muitos devem estar se perguntando “Neil quem?”. Perto de completar quase sete décadas de vida, o cantor é considerado por muitos como o último sobrevivente da geração hippie dos anos 60. Um sujeito que ainda acredita no lema paz e amor e que, mesmo com mais de 30 discos na carreira, ainda produz muito e tudo com muita qualidade. Só para provar, em 2012, acompanhado de seus parceiros de longa data da banda Crazy Horse, lançou dois discos: “Americana”, só de covers de canções “folclóricas” dos EUA, e agora em setembro, um álbum duplo só de inéditas, chamado “Psychedellic Pill”.

Para quem não conhece o trabalho de Neil Ypung, indico o disco “Greatest Hits”, lançado em 2004 e que conta com algumas das melhores canções que ele lançou entre as décadas de 60 e 90. Aí nesse disco você vai encontrar todos os motivos para amar ou odiar o cantor.


Quanto à “Autobiografia”, é importante dizer que muita gente desceu o pau no livro, afirmando que Neil Young se esquivou de muitos assuntos espinhosos da carreira ou deu pouca importância para episódios importantes, como a morte de ex-parceiros que se deixaram levar pelas drogas, ou a sacanagem de processar um jornalista que durante anos trabalhou junto com Neil Young para escrever a biografia do músico, que depois decidiu processar o autor.

Mas, entendo Neil Young. Afinal ,é da vida dele que ele escreve no livro e ele tem todo o direito de escolher o que pretende contar e o que e prefere deixar que outros biógrafos escrevam sobre ele. Escrito em forma de diário, sem nenhuma ordem cronológica ou elo de ligação entre os capítulos, o livro, para tristeza de muito, foge totalmente do clichê sexo, drogas e rock and roll. Claro que o cantor aprontou as dele ao longo da vida. Mas, no livro ele prefere deixar isso de lado, com exceção a um ou outro comentário discreto aqui e ali.

Ao invés disso, prefere falar de suas paixões sobre réplicas de trem, carros antigos, a respeito do seu projeto inovador de criar um carro elétrico que dispense gasolina ou o PureTone, que pretende garantir que os arquivos digitais de música tenham uma qualidade bem maior do que o MP3 atual.

Também fala muito sobre a família. É tocante a maneira carinhosa e apaixonada como sempre se refere à sua terceira esposa e companheira de décadas, Pegi Young, e também aos filhos, dois deles com paralisia cerebral.


Mas o bacana mesmo é quando o roqueiro fala sobre sua paixão pela música, que o levou a sair de casa ainda moleque no Canadá, viver quebrado nos primeiros anos de carreira, até ter o talento reconhecido no auge da contracultura californiana na década de 60. Primeiro com a sua antiga banda Buffalo Springfield e depois como artista solo, que ainda gravou discos maravilhosos com a já mencionada Crazy Horse e também como membro do quarteto Crosby, Stills, Nash & Young, além de uma infinidade de outros músicos que já gravaram com ele. Também fez coisas sem muita importância, principalmente no começo da década de 80, quando chegou a ser processado pela própria gravadora por “produzir música atípica de Neil Young”.

Para um senhor de quase 70 anos que chegou perto da morte em 2005 por causa de um aneurisma e que já teve que dar adeus a tantos amigos que partiram antes dele, é natural que Neil Young também faça reflexões do tipo “qual o sentido da vida”. Mas, mais surpreendente é que o cara não cansa de olhar para o futuro, sempre pensando no próximo projeto, no que ainda está por vir, para a sorte dos fãs...

Editora: Globo
Ano de Lançamento: 2012
Número de páginas: 408
Preço médio: R$ 50

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Livro resgata os 180 anos da imigração alemã no Paraná




A historiografia paranaense acaba de ganhar um importante título que resgata, de forma inédita, a trajetória de um povo que teve participação decisiva na ocupação e desenvolvimento de várias regiões do Estado do Paraná. Escrita de forma conjunta por sete autores, “Imigração Alemã no Paraná – 180 anos: 1829 – 2009” é uma das principais publicações já produzidas sobre o tema da colonização do Estado e passa a ser obra de referência a respeito da história do Paraná.

A obra nasceu a partir das comemorações de 180 anos da imigração alemã no Paraná, que se estenderam ao longo de 2009. Grande parte das celebrações foi apoiada e coordenada pela Comissão de Festejos dos 180 Anos da Imigração Alemã no Paraná, cujo calendário de eventos comemorativos iniciou em 19 de fevereiro daquele ano com a maior sessão solene já realizada na Assembleia Legislativa do Paraná, que contou com a presença de autoridades brasileiras e alemãs, entre demais convidados. Diante de tamanho entusiasmo e repercussão, surgiu a proposta de publicar o livro, que agora está sendo lançado, cuja organização é de Harto Viteck, que foi o secretário executivo da Comissão de Festejos.

A publicação, com cerca de 400 páginas, está dividida em sete capítulos principais. As professoras Divinamir de Oliveira Pinto e Marli Uhlmann Portes escreveram sobre “Rio Negro: o berço da colonização alemã no Paraná”, no qual relatam a vinda dos imigrantes alemães originários da região de Trier e aldeias vizinhas, que embarcaram em junho de 1828 da Europa rumo ao Paraná, onde se estabeleceram nas terras férteis do vale do rio Negro.

O professor Marlon Ronald Fluck assina o capítulo “O núcleo alemão em Curitiba”, que começou a se desenvolver em 1833 com  alemães saídos da Colônia Dona Francisca (atual região de Joinville) e imigrantes alemães vindos da Europa. Ele se distingue dos demais núcleos do Estado por ocorrer no espaço urbano e por ser uma colonização espontânea, não oficial.

“Teuto-russos e sua história: da esperança à decepção” é o título do capítulo desenvolvido pelo professor Estevão Müller, no qual retrata as perseguições sofridas pelos povos de descendência alemã na Rússia, o que motivou a vinda para o Brasil, onde o imperador D. Pedro II decidiu recebê-los, garantindo a naturalização plena e apoio para a instalação das colônias de imigrantes, inclusive no Paraná. O mesmo autor também escreveu sobre “A história dos bucovinos no Paraná”, alemães que emigraram da Bucovina, região leste da Romênia, para a cidade de Rio Negro a partir de 1887, quando também passaram a ocupar outros espaços, como na cidade da Lapa.

“Menonitas alemães no Paraná” é o assunto desenvolvido pelo historiador Alfred Pauls. Os menonitas, que têm suas origens no movimento da Reforma Protestante da Igreja, no século XVI, na Europa, fugiram da Rússia nas primeiras décadas do século XX., por causa do regime violento de perseguições  imposto pela Revolução Comunista. No Paraná, os primeiros menonitas chegaram a partir de 1933, quando adquiriram a Fazenda Cancela, em Palmeira, onde criaram a famosa Colônia Witmarsum. Mais tarde famílias menonitas  também se estabeleceram em Curitiba e Ponta Grossa.

A professora Cláudia Portellinha Schwenberger é a autora do capítulo que trata dos “Pioneiros alemães em Rolândia”, que começaram a chegar à cidade em 1932, em um processo que foi intensificado a partir do ano seguinte, quando muitos alemães imigraram da Europa, temendo a ascensão de Hitler e a perseguição nazista contra políticos, católicos e judeus e demais cidadãos que não apoiassem o regime.

O professor Marcos Nestor Stein assina o capítulo “A Colônia Entre Rios no município de Guarapuava”, surgida em 1951, resultado do processo da diáspora ocorrido nos núcleos alemães do Leste Europeu após o final da Segunda Guerra Mundial, quando 500 famílias de refugiados, posteriormente designados de Suábios do Danúbio, vieram ao Paraná.

O último capítulo também leva a assinatura do professor Marcos Nestor Stein, em parceria com o professor Valdir Gregory. O tema por eles desenvolvido é “Migrações e germanidade: Oeste do Paraná e Marechal Cândido Rondon”. O tópico traz narrativas e discussões a respeito do povoamento desta região do Estado a partir da década de 1950, época em que diversas madeireiras e colonizadoras atuaram nesse território, estimulando a vinda do Rio Grande do Sul e Santa Catarina de migrantes descendentes de alemães.

Conforme Harto Viteck, além de marcar a passagem da data histórica, tem a tarefa de ser um referencial para que as gerações atuais e vindouras conheçam e reverenciem a memória dos antepassados, que produziram, junto com outras valorosas etnias, as transformações profundas que fazem do Paraná um dos Estados mais importantes do país.

Nesse sentido, o organizador acredita que a obra estimula ainda a reflexão e propõe um desafio. “Esperamos que a história contada neste livro sirva de exemplo e ação missionária. Se os nossos antepassados conseguiram superar grandes obstáculos e realizar tanto com tão pouco, o que podemos nós fazer de bem a nós mesmos e em favor da humanidade, tendo as facilidades da tecnologia tão avançada de hoje?”, questiona.

A publicação foi financiada com recursos da Lei de Incentivo à Cultura, com patrocínio da Souza Cruz, Copel e Caminhos do Paraná, numa realização do Ministério da Cultura e do Governo Federal, com apoio da Quixote Art & Eventos e da Editora Germânica. A obra, que não está sendo comercializada, é destinada à instituições de ensino e pesquisa, bibliotecas, museus, autoridades e órgãos de imprensa.

Para saber mais sobre o projeto, acesse o site www.imigracaoalemanoparana.com.br.


Lançamento do livro “Imigração Alemã no Paraná – 180 anos: 1829 – 2009”

09/11 - 20 horas - Marechal Cândido Rondon - Casa Gasa

19/11 - 19h30m - Curitiba - Goethe Institut

20/11 - 20 horas - Rio Negro - sede social da OAB-Rio Negro

21/11 - 20 horas - Lapa - Teatro São João

28/11- 20 horas - Rolândia - Jugendheim (Igreja Luterana)

(*) Os lançamentos na Colônia Entre Rios (Guarapuava) e Colônia Witmarsum (Palmeira) ainda serão agendadas.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Aconteceu em Woodstock



Acredito que praticamente todo mundo ouviu falar sobre o Festival de Woodstock, realizado de 15 a 17 de agosto de 1969 nos Estados Unidos e que reuniu cerca de 500 mil pessoas e grandes bandas de rock da época. Se não o maior, certamente o mais famoso festival de música em todos os tempos. 

Marco da contracultura hippie, a memória do evento já foi explorada de diversas formas através do cinema, de discos e livros. Assim, com tanto que já foi dito e visto sobre Woodstock nas últimas quatro décadas, havia alguém que pudesse trazer algo de novo? Por mais impossível que parecesse, havia sim e esse alguém se chama Elliot Tiber.

Embora até recentemente ele não fosse muito lembrado quando se falava sobre a história do festival, o sujeito foi peça fundamental para que Woodstock existisse. Recentemente, deu mais uma contribuição ao legado do evento ao publicar em 2007 o livro autobiográfico “Aconteceu em Woodstock”, que chegou ao Brasil através da editora Best Seller em 2009, mesmo ano em que virou filme homônimo dirigido por Ang Lee

Foi o acaso quem conspirou para que Elliot Tiber tivesse sua vida completamente transformada da noite para o dia em julho de 1969. Grande parte da “culpa” por essa mudança é do hippie empreendedor Michael Lang, que convenceu dois jovens milionários a bancarem um grande festival de música, oficialmente chamado “Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz e Música". 


O lugar escolhido foi a pequena cidade de Woodstock, a pouco mais de uma centena de quilômetros de Nova York. Contudo, menos de dois meses antes da realização do evento, os moradores de Woodstock decidiram caçar a licença para o festival, temendo o que um bando de hippies, drogados, promíscuos – e sabia Deus lá que outros tipos mais de degenerados – acabassem com a cidade.

Ao ler no jornal que os organizadores do festival estavam procurando outro lugar para realizá-lo, Elliot Tiber impulsivamente ligou para Michael Lang dizendo que poderia transferir o festival para onde ele morava, a pacata cidade de Bethel,a cerca de 130 quilômetros de Nova York. 

Até dar este telefonema, Elliot Tiber era um rapaz de 34 anos que dividia sua vida entre: de segunda a sexta-feira trabalhar como designer de interiores em Nova York e, nos fins de semana, ajudar a administrar o El Monaco, o falido hotel de seus pais em Bethel. Mas tudo isso ficou para trás depois do contato com Michael Lang.

Em “Aconteceu em Woodstock”, Tieber retrata aquilo que viu e viveu nos cerca de 45 dias de preparação para o festival. As milhares de pessoas que passaram a chegar em Bethel para curtir e ajudar no que precisasse na preparação do festival, as brigas dele e dos organizadores com a parte do vilarejo contrária a realização do evento, a frenética atividade sexual que rolava, as “viagens” psicodélicas, as previsões iniciais de um público de 25 mil pessoas sendo superadas sempre mais e mais, até um total de 500 mil pessoas que compareceu aos shows... 

De várias formas, logicamente esses eventos acabaram por mudar a vida frustrada da família Tieber (“a maldição dos Tieber!”, como define o autor), que de uma hora para outra viu seus eternos problemas financeiros resolvidos com a enxurrada de dólares que todo o festival levou até Bethel. No âmbito pessoal de Elliot, ele foi completamente transformado pelo espírito “paz e amor” e “faça amor não faça guerra” e, a maior mudança de todas para ele, a própria aceitação da sua homossexualidade.

“No começo, não percebi o que estava acontecendo. Afinal, papai estava ficando velho. Mas, um dia, ele sorriu pra mim, e eu percebi que ele sabia que eu era gay e que ele me amava e estava orgulhoso de mim. (...) As coisas estavam mudando tão rápido que eu não conseguia entender quem eu estava me tornando. Meu antigo eu, quem quer que essa pessoa tenha sido, estava se dissolvendo diante de meus olhos. Eu estava mais tranquilo, seguro e em paz. Todos os aspectos de minha vida haviam mudado no verão de 1969”, conta.


Ao narrar em livro a própria mudança vivida por ele derivada do Festival de Woodstock, Elliot Tiber consegue mostrar sobre os mais diversos aspectos o porquê desse evento ser tão lembrado ainda nos dias de hoje. Certamente foi um marco da contracultura norte-americana que na época se via envolvida na luta contra a Guerra do Vietnã e ampliava os horizontes do feminismo, da revolução sexual, dos direitos humanos, da luta contra a discriminação racial, as experimentações perigosas com drogas. 

Definitivamente, tempos frenéticos e deliciosamente embalados pela trilha sonora de algumas das bandas de rock mais geniais que já existiram e que o Festival de Woodstock teve a sorte de registrar... 

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LEIA entrevista de Elliot Trieber para o G1.