sábado, 17 de março de 2012

“A vida fala sobre sexo em qualquer situação”


Por CRISTIANO VITECK
Publicado no O Presente


Sexo. A simples palavra já basta para chamar a atenção das pessoas. Afinal, o sexo, nos seus mais amplos sentidos, está presente no dia a dia. Contudo, ele ainda está cercado de tabus, dúvidas, medos e vergonhas, embora sempre gere curiosidade e atração. E quando o sexo entra pela porta da casa, o pânico quase toma conta dos pais quando uma criança pergunta a respeito. A psicóloga, sexóloga e professora doutora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Eliane Rose Maio, trabalha com o tema há 28 anos. Autora do livro “O Nome da Coisa”, resultado da sua tese de doutorado sobre os nomes vulgares ou eufemismos dados aos órgãos sexuais masculino e feminino, Maio participou na sexta-feira (16) de palestra no Colégio Rui Barbosa, em Marechal Cândido Rondon, sobre “a importância do diálogo sobre sexualidade no contexto familiar”. Neste sábado (17), também realiza aula magna na Falurb. Em entrevista ao Jornal O Presente ela tratou de temas diversos sobre o assunto e garantiu que, mesmo cinco décadas depois da chamada revolução sexual, as pessoas ainda não aprenderam a lidar com o sexo de modo natural.

O sexo está presente em todos os meios e lugares. Então, por que é tão difícil o diálogo sobre sexo entre pais e filhos?

São os próprios bloqueios dos pais quando foram crianças. E eles vêm carregando esses bloqueios, pois com certeza não tiveram educação sexual, e trazem isso para os filhos. A palavra mais digitada no Google é “sexo” ou “sex”. Querendo ou não, a vida fala sobre sexo em qualquer situação. Claro, culturalmente de maneiras diferentes. O que para nós é uma expressão sexualizada, em outra cultura não é. E sexo vende muito. Se for olhar um outdoor de calça jeans, vai ter um casal sexualizado, semi-nu. A gente presta pouca atenção na calça jeans, pois há uma cena erotizada. Em qualquer lugar tem sexo, mas dentro da família não. O sexo está em casa, mas quando constitui-se uma família tradicional, fica velado, (o sexo) ali não acontece. Tem que se falar. As pessoas acreditam que isso tira a inocência das crianças. Não, isso tira a ignorância. É o contrário do que os pais pensam. Omite-se o tema sexo dentro de casa. E aí a criança vai aprender onde? Na rua, e a rua deseduca.

Como os pais podem romper esse bloqueio e quando é a hora de falar sobre sexo com os filhos?

Há várias maneiras de se educar sexualmente de forma inadequada. A primeira é a forma do silêncio e essa não dá mais nos dias de hoje. A segunda é aquela quando a criança pergunta o que é sexo e o pai responde que ainda é muito cedo para ela saber e que, quando chegar a hora, ele vai explicar. Quando a criança perguntou é que é a hora! A outra forma é a técnica da escapada, quando os filhos perguntam sobre sexo e os pais ficam trocando o controle remoto ou mudam de assunto. Também há a da pressa, quando explicam gaguejando. A outra é da anatomia: sexo é coisa de gente grande para fazer nenê. Eu digo sempre para a família: mostre-se perguntável. Esteja aberta ao diálogo a todo momento. Procure ajuda, há livros, palestras, tem sites importantes e busque ajuda com profissionais. A escola tem que fazer esse trabalho também, mas cientificamente. Só que os professores também têm seus interditos, não sabem trabalhar com as crianças e vão empurrando com a barriga. Educar sexualmente é como educar para qualquer outra coisa.

Os pais têm receio de que ao falar de sexo estariam incentivando o início da vida sexual?

Tudo o que eu escuto é isso. Ninguém incentiva nada se tiver clareza, confiança e respeito mútuo. A criança tem fases. De zero a um ano e meio é uma fase. De um ano e meio a três é outra e de três a seis é a fase fálica, quando a libido está nos órgãos genitais. Libido é um instinto de vida, instinto sexual, não erótico. A criança ama manipular o pênis ou a vulva como gosta de colocar o dedo no nariz, na boca, orelha. É fase. As crianças percebem que os adultos lidam inadequadamente quando elas se manipulam, então elas começam a fazer embaixo da cama, atrás do sofá. Pais: fiquem tranquilos, pelo contrário, ao falar de sexo vocês estão protegendo, ao invés de estimular.

Quando os pais percebem que o filho ou filha pode ser homossexual, como eles tendem a lidar com isso?

Eu trabalho com a diversidade sexual. Luto por gente que gosta de gente. Viemos para o mundo educados culturalmente com um pensamento heterossexista. Eu brinco que quando alguém está grávida, ninguém diz: “tomara que seja gay, tomara que seja lésbica”. Eu nunca ouvi isso ainda. Eu digo: tomara que seja feliz. Que bom que é gay, que é lésbica, que é hétero. Mas o mundo é muito homofóbico e o Brasil é o país mais homofóbico. Quando se fala em gay e lésbica, a maioria das pessoas pensa na transa. Mas tem o afeto, tem a relação, tem a briga, tem tudo similiar. Mas com muita dor, porque o mundo é homofóbico.

Na mídia, é cada vez mais comum o tema ou a presença de personagens homossexuais, só que tudo de forma caricata...

É que falar de gay, loira, português, gaúcho, negro... Muitos dão risada, mas para outros, isso é preconceito. Essa caricatura é para dar um tom engraçadinho. Mas tem muita gente morrendo só porque é engraçadinho. Tudo o que é diferente a gente não está preparado. Transgênero, transsexual, travesti, drag-queen causam impacto e se caricatura isso nos meios de comunicação para dar risada, audiência. Isso me entristece como gente e como profissional.

Os pais têm muita preocupação em relação à internet. Ela é um problema?

Quem tem um diálogo legal diria ao filho que ali tem um monte de coisa que os pais não gostariam que os filhos vissem, explicando que a prostituição, o filme pornô são venda e compra; explicaria que os nossos corpos não são para vender e comprar e que por isso são contrários que os filhos vejam. Se tiver um diálogo legal, o adolescente vai perceber que não precisa invadir o cérebro com coisas inadequadas. Então, a serenidade tem que estar atrás de tudo isso, sempre.

É comum nas famílias os pais estimularem os meninos ao sexo e as meninas não. Por que os pais tendem a agir como se a filha fosse assexuada, que precisa ser reprimida?

No livro que eu escrevi tem 408 sinônimos ou eufemismos para pênis. Para vulva 494. Quase todos para o homem, tirando de criancinha – piu-piu, passarinho – são todos pesados. De mulheres, são todos suaves. Há por trás disso uma educação sexista. Então esse “assexuada” é no sentido “não explore”, “não olhe”, “não mexa”, mas o menino pode. Há uma educação totalmente diferenciada, de divisão de papeis de gênero que diz que a mulher é toda romântica, que precisa de afeto e carinho, mas os homens não. Isso é para puro controle. Isso é milenar, para manter a mulher presa, gestando, cuidando da casa, então é melhor que ela seja assexuada. Mas isso está mudando.

Temos hoje duas ou três gerações depois da revolução sexual dos anos 1950 e 1960. De lá para cá, as pessoas aprenderam a conviver melhor com o sexo, a ter relações melhores?

Não. Infelizmente a mudança foi muito pequenininha, por isso eu sou favorável à educação sexual nas escolas no maternal. Nada na quarta série, sétima série, ensino médio, fazer feira de ciências de DST e aquelas coisas.

Existe o certo e o errado em sexo?

Psicólogos odeiam essa coisa de certo e errado. O que te faz bem e faz bem para a outra pessoa é totalmente adequado. Se você tem uma boa educação sexual desde pequeno, na adolescência você só irá reafirmar isso e então na fase adulta você pode se perguntar “o que é o adequado ou inadequado para mim?”. Quando para obter prazer eu tenho que ofender, machucar o outro, isso não é adequado. Adequado é aquilo que faz bem para os dois.

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Veja a entrevista da sexóloga Eliane Rose Maio no programa Jô Soares, em 10 de maio de 2011.

PARTE 1:
http://www.youtube.com/watch?v=vS2U9McbQoo&feature=player_embedded

PARTE 2:
http://www.youtube.com/watch?v=_ZZycStY78c&feature=player_embedded

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