sábado, 3 de março de 2012

Entrevista com o presidente do movimento "O Sul é o Meu País"



“Nosso movimento é herdeiro da tradição guerreira do Sul”


Nos dias 17 e 18 de março, um evento na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, em Florianópolis, vai marcar os 20 anos de fundação do movimento “O Sul É o Meu País” (www.meusul.net), que tem como um dos seus principais objetivos a união do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul para formar um novo país. Hoje (03), em Curitiba, está acontecendo um encontro regional do movimento, a exemplo de outros que vem acontecendo nos três Estados em questão. Por telefone, entrevistei na tarde de ontem (02) o presidente do movimento, jornalista e professor Celso Deucher, para uma reportagem do jornal O Presente. Na ocaisão, ele detalhou as metas e ações que estão sendo desenvolvidas. Natural de Brusque (SC), o presidente criticou o sistema federativo brasileiro que, na opinião dos separatistas, fere a liberdade e suga as riquezas dos Estados. Segundo Deucher, o movimento “está muito fortalecido com a entrada de um grande número de pessoas que estão descontentes com a situação que se encontra o Brasil”.

O movimento “O Sul é o Meu País” está comemorando 20 anos. Nesse período, por um longo tempo pouco se falou abertamente sobre ele. Por que essa retomada da discussão?

Nos 20 anos nós nunca paramos de trabalhar. Ocorre que, por volta de 1993, o governo federal veio para cima de outro movimento no Rio Grande do Sul, o República dos Pampas, por causa de algumas declarações do líder daquele movimento e que a Globo reproduziu. Com isso o governo veio para cima de todos nós. No nosso caso, não sofremos tanto pelo fato do movimento já ser registrado, dentro da lei. Mas arrefecemos o trabalho, demos uma segurada. Começou-se a fazer um novo trabalho em busca de novos associados e a partir do ano passado, principalmente, começamos a voltar à ativa na rua, com panfletagem, manifestos, debates e o trabalho voltou a aparecer na imprensa. Em nível externo nós estamos voltando à ativa agora, mas internamente continuamos trabalhando desde março de 1992.

Por que, agora, buscar novamente mostrar o movimento na mídia?

Porque agora o movimento está muito fortalecido com a entrada de um grande número de pessoas que estão descontentes com a situação que se encontra o Brasil. Na década de 90 nós estávamos saindo do regime militar e tínhamos a nova Constituição. A gente tinha esperança que com a nova Constituição as coisas fossem mudar. Mas, o que sentimos é que não mudou praticamente nada em relação à representação parlamentar, à distribuição dos impostos. Brasília continua centralizando ainda mais os poderes, ainda mais a questão econômica e a disparidade regional nossa é uma coisa gritante.

Quais são as principais motivação do movimento, além da separação do Sul do resto do país?

“O Sul é o Meu País” é um movimento de discussão da ideia de autodeterminação do povo sulista. Como autodeterminação compreende-se alguns vieses, sendo um deles a separação. Eu, pessoalmente, sou separatista. Acredito num Sul independente. Mas, dentro do movimento há pessoas que acreditam numa confederação de Estados e em manter o Brasil como ele está. No entanto, dando autonomia para os Estados, como é o estilo americano, suíço e tantos outros. Se mantém a unidade, mas dentro da diversidade dos Estados. Do ponto de vista da maioria dos que estão no movimento, essa situação é só temporária. A confederação seria um passo para se chegar à separação. Nós não pregamos a luta armada ou qualquer outro meio que não seja o pacífico para chegar ao objetivo máximo que é a criação de um país.
Reprodução

O movimento tem o apoio de senadores e deputados do Sul que podem levar adiante essa discussão no Congresso Federal?

É difícil trabalhar com a classe política que nós temos, inclusive a nossa do Sul. Tem muita gente boa dentro da classe política, mas a maioria, e a sulista também se encaixa no mesmo sentido, são pessoas que não têm idoneidade suficiente para reclamar uma questão como a do nosso movimento. Grande parte da classe política se sustenta dentro do atual sistema. Enquanto o Estado continua centralizado, enquanto o dinheiro está indo para Brasília e é distribuído para apadrinhados políticos desse e daquele lado, esse pessoal vai ser contra a ideia de separar o Sul. Temos vereadores, prefeitos e alguns deputados que nos apóiam, mas são apoios muito discretos e nós evitamos trazer essas pessoas para dentro do movimento.


O senhor afirmou que os políticos do Sul não se diferenciam muito daqueles do resto do país. Então, adianta separar o Sul se nesse novo país continuaríamos a ter os mesmos políticos nos três Estados da região?

Isso se resolve com uma coisa que não é simples de se fazer, mas ela tem que ser feita paulatinamente, principalmente com a educação. Nós temos uma classe política do jeito que temos porque votamos nela. Somos co-responsáveis por estes que estão aí no poder. O movimento prega que sejamos cidadãos conscientes. Temos que trabalhar a cabeça do cidadão para votar em gente descente, com ética, com espírito público. Temos no Sul, e em outras regiões do Brasil também, prefeitos e vereadores, políticos que têm esse espírito.

Uma pesquisa realizada pelo movimento no ano passado em Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre, mostrou que na capital paranaense, ao contrário das outras duas, a maioria dos entrevistados era contra a separação, além de haver um grande número de indecisos. O movimento conseguiu identificar por que isso ocorre em Curitiba?

Nós temos um projeto de consultas populares, dentro de critérios científicos, iniciado no ano passado. Queremos mostrar para os governos qual é a verdadeira aprovação que existe dessa ideia. Começamos nas três capitais e nunca tivemos grande aprovação, principalmente em Curitiba e Florianópolis. Os avaliadores da nossa pesquisa em Curitiba disseram que boa parte dos aposentados votava contra, com medo de perder a aposentadoria, o que era um absurdo porque era só uma pesquisa. Muitos entrevistados também eram funcionários do governo federal.

Quais são os próximos passos do movimento?

Temos metas para os próximos quatro anos. Nas 48 cidades da região Sul com mais de 100 mil habitantes temos grupos formados de 10 pessoas. Em cada uma dessas cidades eles irão montar um grande grupo de apoio ao movimento. No dia 04 de agosto, faremos uma grande manifestação nessas 48 cidades. O dia 04 de agosto é a data de morte da grande heroína sulista Anita Garibaldi, que muita gente conhece. Era uma pessoa simples que se transformou em uma heroína por lutar por um país independente aqui no Sul.

“O Sul é o meu País” segue a inspiração de movimentos ocorridos na região como a Revolta Farroupilha e a Guerra do Contestado?

Pouca gente sabe, mas o nosso movimento surgiu no Paraná, nos idos de 1600, quando os índios das missões do Guayrá começaram a lutar contra os bandeirantes, contra o Brasil, na verdade. O cacique Guairacá, do Paraná, é um dos homens lendários do movimento porque ele começou essa defesa da terra sulina. Mais tarde, no Rio Grande do Sul, o Sepé Tiaraju também abraçou a causa. Esse sentimento aflorou com muita força na Revolução Farroupilha, depois na própria Guerra do Contestado, que era uma luta de divisas, mas por outro lado se transformou em luta separatista porque o governo central nunca deu bola para aquela gente. Depois veio a Revolução Federalista, com o cerco da Lapa. Todas essas revoluções demonstram que o sulista não é um cara que se entrega fácil. Não é só chegar aqui e explorar a gente e levar o nosso dinheiro, autonomia e liberdade que nós não fazemos nada. O nosso movimento se considera herdeiro dessa tradição guerreira do Sul. Nós somos aqueles que continuam com aquelas ideias e continuamos lutando. Os descendentes de escravos ou de imigrantes que vieram de Portugal, Açores, alemães, italianos, poloneses, enfim, todos os povos que chegaram aqui, hoje podem se sentir um povo porque houve uma luta comum e nós queremos um futuro comum. Isso nos transforma em um povo.

2 comentários:

  1. Muito boa a reportagem... sou gaúcho e separatista, defendo as ideias de Celso Deucher... apesar de achar dificil a separação do sul, eu mantenho a fé nisso

    ResponderExcluir
  2. Também sou a favor da criação de um novo país, sou de Lages,SC, acho que chega de trabalhar para os outros.

    ResponderExcluir