quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Casa Gasa pode fechar por falta de recursos


Instituto responsável pelo local não está conseguindo honrar compromissos com proprietária do imóvel

Um dos pontos turísticos mais conhecidos e procurados de Marechal Cândido Rondon pode fechar as portas. Trata-se da Casa Gasa, localizada no centro da cidade e que é ponto de visitação devido à sua arquitetura única e também pela curiosidade inspirada pela vida de quem a construiu, o alemão Heribert Hans Joachin Gasa – que faleceu em 2003.

Mantida pelo Instituto Cultural Casa Gasa, a entidade não tem conseguido cumprir as cláusulas contratuais firmadas com a proprietária do imóvel, a viúva Dorothea Kocko Gasa, que atualmente reside em Prudentópolis (PR). Esta semana ela esteve em Marechal Cândido Rondon e manteve conversa com o presidente do instituto, professor e historiador Valdir Gregory. Na oportunidade, ela ponderou que, caso não seja possível viabilizar o que está previsto em contrato, ela pretende dispor do local para outra atividade.

Dois fatos têm causado descontentamento à proprietária. O primeiro é o valor que recebe de aluguel, considerado baixo para a realidade local. O segundo é a deterioração do imóvel por falta de manutenção adequada. Como membra que também é do Instituto Cultural Casa Gasa, Dorothea, com demais integrantes da entidade, tem trabalhado em conjunto em busca de uma solução para o imbróglio. Contudo, ela e o presidente são enfáticos em afirmar que, no momento, a solução obrigatoriamente passa por um apoio financeiro maior por parte do poder público municipal.

Histórico

O Instituto Cultural Casa Gasa foi formalizado em 2006 com o objetivo de gerir o conjunto patrimonial do imóvel, incluindo os móveis, equipamentos e acervos deixados por Heribert Gasa. Além disso, o instituto tem como meta desenvolver atividades culturais e incentivar o turismo.

A ideia inicial era que a Casa Gasa fosse mantida com aos recursos provenientes da arrecadação dos ingressos para visita ao local (R$ 2,50 para estudantes e idosos e R$ 5 para os demais) e do aluguel do espaço para realização de eventos culturais e de entretenimento. Só que essa arrecadação tem sido pequena: em média R$ 500 por mês.
Diante da dificuldade, o Instituto Cultural Casa Gasa formalizou um convênio com a prefeitura em 2010, na qual esta se comprometeu a auxiliar com um repasse financeiro, que este ano é de R$ 20 mil (dez prestações de R$ 2 mil).

Com este montante, o Instituto paga o aluguel do imóvel (R$ 1 mil), as contas de água e luz, o salário do estagiário que atua no local e os pequenos serviços de manutenção que frequentemente são necessários.

Contudo, Gregory destaca que estes recursos não são suficientes para que seja feita toda a manutenção necessária. E o resultado disso está diante dos olhos de quem visita a Casa Gasa. Na área externa, os vândalos já destruíram paredes, janelas, além de sujarem o local. Não é difícil, por exemplo, achar garrafas de bebida vazias e camisinhas usadas. Até facas já foram encontradas.

Dentro da Casa Gasa são as ações do tempo e da natureza que causam os maiores danos. Um exemplo disso são os cupins, que estão destruindo os tacos de uma das salas do subsolo. Para agravar ainda mais a situação desse cômodo do imóvel, um vazamento na rede de água do município comprometeu as paredes do subsolo.

Outros pontos que merecem atenção urgente são a rede elétrica e os encanamentos do imóvel, assim como partes do telhado, que precisam de reforma.

Conforme Gregory e Dorothea, esses são exemplos da situação crítica em que se encontra atualmente a Casa Gasa. Há que se considerar, também, que o valor que é pago de aluguel está cerca de 30% abaixo do previsto no contrato, que era de até R$ 1,5 mil.

“Do jeito que está, compensa fechar a Casa Gasa e transformar o local em outro negócio, em comércio. Antes de abrir a Casa Gasa, muitos fizeram propostas. Mas, como tinha tanto material deixado por Gasa e havia o interesse da sociedade, a gente partiu pra esse lado, achando que seria mais fácil. Mas, é muito complicado porque o imóvel é particular e o Instituto é público”, explica Dorothea
.
Aliás, o fato da Casa Gasa ser um imóvel particular é um fator que tem dificultado as negociações visando o repasse de dinheiro público para mantê-lo. “A gente sabe dessa dificuldade”, diz Gregory.

Apoio

Procurado pela reportagem, o secretário municipal de Indústria, Comércio e Turismo, Arlen Güttges, garantiu que a prefeitura tem feito e fará tudo aquilo que está dentro de suas possibilidades para ajudar o Instituto Cultural Casa Gasa.

Mas, ele pondera que “temos que lembrar que as ações do Turismo não ficam restritas só a Casa Gasa. Porque aí outros vão querer ajuda também. Todos os pontos turísticos vão pedir recursos para nós”. Conforme o secretário, de todas as empresas e entidades que integram o Núcleo de Turismo rondonense, é a Casa Gasa quem recebe mais recursos.

Güttges ressalta a importância para o setor turístico e cultural que o espaço tem para Marechal Cândido Rondon, mas lamenta que, da forma como ele existe hoje, não consiga se manter com arrecadação própria. “É um ponto turístico importante. Só que tem que ser uma via de mão dupla. Ela também tem que se manter, porque só a prefeitura colocar dinheiro, isso é complicado. É diferente do Museu de Porto Mendes, por exemplo, que temos a obrigação de manter porque é um patrimônio público”, destaca.

Questionado se a prefeitura teria disposição de adquirir o imóvel se a proprietária o colocasse à venda, o que não é o caso, o secretário diz que interesse haveria. Só não teria dinheiro, até porque a prefeitura está na eminência de implantar o hospital municipal. “Adquirir a casa não seria prioridade”, garante.

Alternativas

Segundo Valdir Gregory, a entidade tem arriscado alternativas para viabilizar o Instituto, de forma que ele não fique tão dependente do dinheiro público. Inclusive, uma negociação estava para ser fechada para que no local fosse instalado um empreendimentos ligado ao setor de gastronomia. Porém, por problemas particulares de um dos interessados, a negociação foi paralisada. Com o aluguel que o Instituto cobraria pelo uso de parte da Casa Gasa, seria possível mantê-la funcionando e ainda realizar as melhorias necessárias.

Outra alternativa, mais difícil, seria buscar recursos junto aos órgãos estaduais e federais. Porém, isso demanda dedicação quase integral para criar os projetos e para acompanhar os trâmites. Como todos os membros do Instituto Cultural Casa Gasa realizam trabalho voluntário em favor da entidade e atuam em outras atividades profissionais, é pouco o tempo disponível para assumir essa função também.

Até o final do ano, representantes do Instituto Cultural Casa Gasa e a proprietária terão que se reunir com os governantes municipais para negociar a renovação do convênio com a prefeitura. Caso não entrem em acordo, o futuro da Casa Gasa enquanto ponto turístico fica ameaçado.

“Eu era muito cobrada desde que o Gasa faleceu e quis dar essa contribuição, tendo pelo menos o imóvel conservado. Mas, se não tiver perspectiva de arrumar e de garantir a manutenção, não é viável manter a Casa Gasa”, enfatiza Dorothea.

A casa e o criador

Heribert Hans Joachin Gasa nasceu em 14 de março de 1920, na cidade alemã de Breslau, e faleceu em Marechal Cândido Rondon em 10 de março de 2003. Sua vida foi marcada por muitas histórias. Gasa viveu os horrores da Segunda Guerra Mundial, depois de ser convocado pelo exército alemão. Em 1961 veio para o Brasil, fixando moradia em Marechal Cândido Rondon, onde trabalhou como ótimo, fotógrafo e cientista.

Em 1965 comprou o terreno onde construiu a sua ousada residência. A atual Casa Gasa foi planejada e decorada pelo seu proprietários, que promoveu um amplo sincretismo arquitetônico. O diferencial deste espaço são seus traços arquitetônicos, a decoração, além de passagens secretas e portas e armários falsos.

A Casa Gasa demorou 20 anos para ser concluída. Ela conta com 38 cômodos, inclusive um subsolo em dois níveis.

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