terça-feira, 18 de outubro de 2011

O passado a gente deixa para trás


“Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...
Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!”

- Mário Quintana, em “A carta”

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Nas últimas semanas tenho sonhado com certa frequência com amigos da faculdade de Jornalismo em Ponta Grossa, que terminei já há tempo considerável. Engraçado é que sonho com eles como se estivéssemos nos encontrando nos dias de hoje (todo mundo com suas preocupações, empregos e aporrinhações do tipo, mas com a mesma cara da época em que estávamos saindo da adolescência). São geralmente sonhos daqueles malucos, sem pé e nem cabeça. Outros são igual redação de colégio: com começo, meio e fim e no meio disso tudo algum conteúdo.

Acredito que todo mundo sonha coisas parecidas com isso também. Dias atrás uma amiga disse que sonhou com o marido, já falecido. Sentiu-se como se estivesse com ele, sentiu seu abraço. Depois acordou e ficou só aquela saudade incrível. Coisa doida essa...

Os meus amigos do tempo da faculdade de Jornalismo, praticamente não os vejo mais, com raras exceções. Acontece de ver alguma matéria de alguém de tempos em tempos em algum jornal, ou ver algum na televisão apresentando uma reportagem, ou de esbarrar com o perfil de algum deles no Facebook ou coisa assim. Mas prefiro evitar maiores contatos...

Dias atrás vi que estavam programando um encontro da turma de formandos de 2000. Nada contra a ideia, mas não contem comigo. Tenho um receio absurdo desse tipo de coisa. Nostalgia e eu não fomos feitos um para o outro. E tem mais. E se aquela pessoa com quem me dava tão bem anos atrás hoje virou um chato de galochas? E se eu virei um chato maior ainda? E se a conversa ficar um troço meio forçado. Melhor não ir...

Só não pensem que não dou a mínima para essas pessoas. O problema é justamente o contrário: me importo demais com elas. Me importo tanto que quero ter todas elas guardadas na minha memória do mesmo jeito da época em que convivemos, época em que elas se tornaram uma espécie de família, já que pela primeira vez estava (estávamos!) morando fora e longe de casa. Sem pai e nem mãe por perto. Só essas pessoas, de início estranhas e, depois, tão próximas e necessárias.

Existem coisas que devem ficar guardadas só nas lembranças... Mas, isso não significa que não quero vê-los nunca mais. Quero, sim, e até torço por isso. Mas tem que ser por acaso, de uma forma inesperada. Coisa do destino, o mesmo destino que um dia nos colocou para festar, brigar, encher a cara com vinho barato, dividir a carteira de cigarro, consolar, jogar truco ao invés de estudar pra prova, sorrir, enfim, viver juntos por quatro anos de nossas vidas e depois cada um seguir seu rumo por esse mundão afora.

E se for para encontrá-los só em sonhos, que seja... Isso prova que ainda os levo vivos dentro de mim, o que é o mais importante.

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