terça-feira, 13 de setembro de 2011

O Sul é o meu país


O movimento o “Sul é o meu país” voltou a promover um debate regional para difundir suas ideias e buscar conhecer o que pensam as populações do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul a respeito de uma possível separação desses três Estados para dar origem a um novo país. Com quase 20 anos de existência, o movimento andava meio esquecido, mas retorna agora com um novo fôlego, com várias matérias na imprensa e eventos em algumas cidades, tendo como uma das grandes metas imediatas promover um plebiscito a respeito dessa questão.

Segundo a carta de princípios, destacados no site do movimento (www.patria-sulista.org), existem razões políticas, tributárias, geográficas, culturais, econômicas, sociais, morais e históricas que justificam a separação dos três Estados do Sul do resto do Brasil. Defendendo que essa não é uma luta recente, na mesma carta é descrito que:

“(...) nossos ancestrais já empunharam a bandeira da Independência e da Autonomia. A República Juliana e a República Rio-Grandense são testemunhas seculares de que não estamos fazendo nada de novo, apenas dando vazão ao centenário ideal de autodeterminação que vem sendo cultivado pelo nosso povo. A Guerra do Contestado, a Revolução Federalista de 1893, a Revolução de 1930, a República de Lorena e a eclosão de outros movimentos políticos ocorridos nas diversas regiões que compõem os três Estados sulistas, nos legam a consciência de que a falta de Autonomia, sempre foi objeto de insatisfação sulina, seja plena ou parcial, motivo pelo qual entendemos que somos a continuação de história inacabada, que nos outorgou fortes exemplos de que somos herdeiros de uma personalidade aguerrida e que sabemos lutar para defender nossos ideais.”

A história do nosso país revela que o desejo de fragmentação do Brasil em países menores já existia antes mesmo da independência, em 1822. Ainda no final do século XIX, a Inconfidência Mineira pode ser um exemplo de movimento semelhante. Depois, quando o Brasil-Colônia se aproximava cada vez mais do momento de exigir a sua independência de Portugal, a questão da unidade territorial já era uma grande preocupação dentro do processo. Dez anos antes do grito de “independência ou morte” dado por D. Pedro I às margens do Rio Ipiranga, José Bonifácio, que entrou para a história como o patriarca da independência, já previa que “amalgamação muito difícil será a liga de tanto metal heterogêneo, (...) em um corpo sólido e político” – uma alusão às gritantes diferenças econômicas, culturais e políticas que já havia entre as regiões do Brasil (muitas delas existentes até os dias atuais).

E assim foi. Tão logo proclamada a Independência, D. Pedro I teve que agir energicamente para manter unido o novo país, já que a princípio apenas as províncias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais apoiaram e aderiram ao novo Império. Bahia, Maranhão, Piauí, Pará e Amazonas se insurgiram contra a proclamação da Independência, já que os portugueses e muitos dos brasileiros que lá viviam julgavam muito mais interessante o Brasil continuar sendo colônia de Portugal. Depois, em 1824, Pernambuco, Ceará, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte uniram-se na Confederação do Equador, que buscava também a separação daquela região do recém criado país. Essas rebeliões foram contidas por D. Pedro I, o que não aconteceu com o Uruguai, que conseguiu sua independência do Brasil em 1828. Tal fato inspirou os insurgentes da Revolução Farroupilha (1835-1845), que por uma década lutaram pela criação da República Rio-Grandense. Além dessas, outras revoltas se seguiram ao longo do século XIX, todas derrotadas.

O movimento “O Sul é o meu país” pode ser entendido como uma retomada desses ideais separatistas das primeiras décadas do Brasil independente. Ele confirma o que José Bonifácio disse há quase 200 anos a respeito da dificuldade de amalgamar tanto “metal heterogêneo” em um único e grande país. No papel, o Artigo 1º da Constituição de 1988 diz que a República Federativa do Brasil é “formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal”. Unido juridicamente, politicamente e por alguns fatores culturais – como a língua –, em outros tantos aspectos o nosso país é de fato fragmentado. Daí que não gera tanto espanto que surja um movimento como o que defende a separação dos três Estados do Sul, que no fim das contas parte do mito do Sul Maravilha, que propaga que esta parte do Brasil é responsável em grande medida pelo sustento das demais regiões do país, menos desenvolvidas.

Polêmico o assunto é. Difícil é essa história toda avançar apenas na conversa. Revolução não se faz por decreto. E o que pode sobrar em vontade dos sulistas de ver a região separada do resto do país, falta em coragem para encarar uma guerra civil para tornar esse sonho realidade. O movimento rende uma boa discussão e pode servir como forma de pressão por um retorno mais justo de recursos diante do que o Sul gera de arrecadação para o país, se muito. Pelo menos por enquanto, ninguém precisa guardar a camiseta da seleção brasileira no fundo da gaveta. Mas vamos concordar que a discussão é boa...

3 comentários:

  1. por mais que de certa forma eu goste dessa idéia de tornar o sul um país de 1º mundo, acho eu que é algo em vão esse movimento, pois só com palavras nada irá adiantar
    como citado, ninguém tem coragem de fazer frente a uma guerra civil

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  2. além de que isso atenta contra o princípio do pacto federativo, cláusula pétrea presente na Constituição... totalmente em vão esse movimento

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