quarta-feira, 13 de abril de 2011

ENTREVISTA: Jorge Samek, diretor geral da Itaipu Binacional


“O Brasil continuará tendo uma matriz limpa para produção de energia elétrica”

Por CRISTIANO VITECK

Nomeado há oito anos pelo então presidente Lula para assumir a direção geral brasileira da Itaipu Binacional, Jorge Samek é hoje um dos especialistas do sistema elétrico brasileiro, tanto é que a nova presidenta, Dilma Roussef, decidiu pela permanência dele no cargo. Uma função de grande responsabilidade, afinal, Itaipu é atualmente a maior usina hidrelétrica do mundo em geração de energia. Construída no Rio Paraná, em Foz do Iguaçu (PR) – na fronteira com o Paraguai - e com uma potência instalada de 14 mil MW de potência instalada, Itaipu fornece 16,4% da energia consumida no Brasil e atende a 71,3% da demanda paraguaia.
Nesta entrevista para revista Amigos da Natureza, Jorge Samek fala sobre os principais desafios do setor energético brasileiro, aborda o desenvolvimento e expansão de fontes alternativas e aborda a importância da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, entre outros assuntos. Otimista no que diz respeito à produção de energia no país, ele declara: “O Brasil está numa posição absolutamente privilegiada em relação ao restante do mundo.”

O setor energético brasileiro tem acompanhado a tendência de outros setores produtivos que é de interferir cada vez menos no meio ambiente?
No mundo moderno não há como viver sem ter energia. O Brasil está numa posição absolutamente privilegiada em relação ao restante do mundo, pois mais de 90% da energia produzida vem da água. Boa parte dos países tem sua matriz substanciada em carvão para produzir energia elétrica. Nós temos a matriz energética mais limpa de todos os países com grande importância econômica. Nossa matriz energética é 15 vezes superior a dos 20 países mais ricos do mundo. E novas coisas vêm avançando. A questão da biomassa, por exemplo: a cana. Todo o bagaço da cana está se transformando em energia. Junto a isso ocorre o desenvolvimento de aerogeradores, que utilizam a energia eólica. O Brasil deu um salto! Nos últimos leilões de energia eólica já estão dotando o Brasil com mais de 3 mil megawatts. Isso é a somatória de toda a potência hidrelétrica somada do Rio Iguaçu. Existe ainda uma pesquisa desenfreada para aproveitar a energia solar, que acredito que dentro de algumas décadas vai ser o caminho em que mais vamos trabalhar. Além disso, existe o caso da Bacia do Paraná 3, onde está inserida a Itaipu Binacional: esta região possui grandes criações de suínos e de aves, geradoras de enormes quantidades de dejetos e que podem ser um problema ou uma solução. Nós estamos dando uma solução. Não vai demorar para que todos os produtores rurais estejam produzindo a sua própria energia. Eu sou muito otimista: acredito que o Brasil continuará tendo uma matriz limpa para produção de energia elétrica. E na energia de um modo geral, o país tem o programa mais bem sucedido do mundo que é o Próalcool. Em 2010, pela primeira vez, o Brasil usou mais álcool (55%) do que gasolina (45%). Boa parte dos nossos carros são flex. Estamos trabalhando com biodiesel: todo diesel consumido no Brasil já conta com 5% de óleo vegetal, mistura que diminui demais as emissões de gases poluentes. Essas são ações visando proteger o meio ambiente.

O que impede que o Brasil utilize mais as energias eólica e solar?
Única e exclusivamente a questão do preço. A energia solar, por exemplo, é em torno de dez vezes mais cara que a hidráulica para se produzir. Então temos que fazer essa pergunta: a população pode ter uma energia mais cara nesse momento? Com o passar do tempo, com o desenvolvimento das tecnologias e a ampliação da sua utilização, não tenho dúvida de que chegará o momento em que ela ficará muito mais barata. O Brasil, atualmente, aproveita cerca de 30% de seu potencial hidráulico. Isso significa que daqui a 30, 50 anos o potencial hidráulico vai se esgotar. A partir daí, automaticamente vamos ter que trabalhar pesadamente nas fontes de energias inesgotáveis. A solar é inesgotável. Agora, qual é o problema? Vamos supor que dependêssemos só de energia solar: em dia de chuva ou à noite, como fazer? É preciso ter baterias, acumular a energia produzida no momento que tem sol. Então, ela é uma fonte extraordinária para ser suplementar e complementar. Então, essas coisas se somam. Estou muito otimista com o andamento disso.

Existe uma discussão no país em torno da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. Por que dessa polêmica e qual a importância dessa nova usina para o país?
Boa parte da polêmica se deve ao desconhecimento. O que eu tenho visto muitas vezes são coisas completamente distantes do que é o projeto. Eu estive duas vezes no local da usina de Belo Monte. Nós, do sistema elétrico brasileiro, temos discutido muito esse processo. O projeto original de Belo Monte sofreu uma modificação completa para diminuir ao máximo o impacto ambiental. Foram feitos canais no sentido de não inundar uma área enorme e manter o rio com uma distribuição de água mínima obrigatória durante o ano inteiro. Não é verdade que a construção da usina atinge populações indígenas. Enfim, existe um desencontro de informações e por trás disso “n” interesses.

Que interesses seriam esses?
Alguns são legítimos e outros nem tanto, alguns são de concorrentes... Há um grupo de pessoas que não quer que o Brasil construa mais nenhuma unidade hidráulica porque essa energia é muito barata. Ao se ter uma energia mais barata, você compete com outras nações que têm energia mais cara. Isso é um fator de competição enorme. Então, às vezes, por detrás de uma ONG está o dedo sujo do petróleo estimulando para que as pessoas façam manifestações. Tem também pessoas bem intencionadas que acham que o Brasil não precisa de novas usinas e que se fizesse a repotenciação das já existentes poderia ser aumentada a capacidade produtiva em 30%. Isso não é verdade. Há alguns anos, o país optou por não fazer mais grandes reservatórios, isso para atender uma questão ambiental. Mas, com isso, a nossa segurança energética diminuiu muito. Em um processo de estresse hídrico, o que pode ser feito sem grandes reservatórios? Então, o Brasil está implementando uma série de usinas termoelétricas a gás, a carvão, que na maior parte do tempo ficam desligadas. É como se fossem um estepe de um carro, só prevendo um ano que possa ter um estresse hídrico. Isso tudo encarece o sistema energético como um todo.

Que cuidados estão sendo tomados para minimizar os danos da construção da Usina de Belo Monte?
Eu garanto que todos os cuidados estão sendo tomados. Há uma preocupação enorme. E o próximo passo do Brasil, quando chegarem as obras no complexo Tapajós, vão ser as energias chamadas de plataforma. Será construída a usina e não vai ter casa, nem cidade. Terminou a obra, desmonta-se tudo, se faz o reflorestamento e o operador da usina vai trabalhar remotamente longe da usina. Só quem vai fazer a manutenção é que vai permanecer na usina: vem de helicóptero, trabalha uma semana na usina e fica duas semanas em casa. É como acontece com uma plataforma de petróleo. Isso tudo para não interferir em nada nas áreas que devem ser preservadas na Amazônia. Eu sou adepto de que é possível compatibilizar o desenvolvimento econômico e a geração de emprego e renda com a preservação do meio ambiente.

O século XX foi movido, principalmente, por combustíveis de origem fóssil. Essa tendência permanece para o século XXI?
Para os próximos 30 anos a principal fonte de energia do mundo ainda será o petróleo. Eu acho que vai acontecer com o petróleo o que aconteceu com a pedra. Saímos da idade da pedra sem acabar com a pedra. Eu acho que vamos sair da idade do petróleo sem acabar com ele. Agora, não podemos desconsiderar que ele é um combustível que movimentou a economia, fez as riquezas dos países e o Brasil, de forma muito tardia, descobriu as suas jazidas através do pré-sal. O Brasil é um país de quase 200 milhões de habitantes. Para cerca de 30 milhões de pessoas já temos um padrão de vida próximo do europeu. Elas têm acesso à escola, tem casa, ar-condicionado, automóveis... Mas isso não é a realidade de todo o Brasil. E essa quantidade enorme de brasileiros que nós temos que dotar com infraestrutura? Vamos ter que produzir muita energia. O consumo per capita de energia do brasileiro é nove vezes menor que nos Estados Unidos. A medida que mais brasileiros melhorarem sua qualidade de vida, eles vão começar a consumir tudo isso e portanto terá que haver mais energia. Então, temos que olhar o conjunto. Em 2010, o Brasil cresceu 7,5% e a demanda por energia cresceu quase 9%. Se nos próximos anos o Brasil continuar crescendo mais cinco ou 6%, vai ter que construir uma nova Itaipu a cada dois anos. E se nós não fizermos isso, o crescimento vai paralisar. Então, temos que ter um olhar para a preservação do meio ambiente; outro olhar para dotar o país com a energia necessária; um olhar para tirar da pobreza essa quantidade enorme da população que está ascendendo; e ao mesmo tempo um olhar para o desenvolvimento de matrizes energéticas que causem o menor impacto ambiental.

A energia nuclear faz parte deste novo contexto brasileiro?
A energia nuclear é a que menos causa impacto ambiental e, ao mesmo tempo, é a mais polêmica, porque se durante a operação ocorrer um vazamento a gente já conhece o resultado. Os dejetos permanecem radioativos por 200, 300 anos e ainda não se achou uma forma totalmente segura para que esse resíduo de urânio vaze. Essa é grande discussão em cima dessa energia, que é 100% limpa. Depois dessa, a mais limpa que temos é a hidroeletricidade. A Europa já usou 100% de seu potencial, Estados Unidos, 100%, Canadá 80% e o Brasil somente 30%. Querer fazer uma força para que o Brasil não use seu potencial hidráulico é jogar contra o país. O mesmo em relação ao petróleo, que por muitos anos vai ser ainda o principal combustível. Se usarmos o dinheiro decorrente do pré-sal em educação, ciência e tecnologia e em meio ambiente, sem sombra de dúvida em 50 anos o Brasil vai se transformar em uma das maiores potências mundiais. Um Brasil poderoso com uma população vivendo bem. Esse é o sonho de todo brasileiro.

A Itaipu Binacional é parceira no desenvolvimento de um projeto de veículo elétrico. Existe uma previsão de quando esses veículos poderão ser produzidos em escala industrial?
Nos três últimos anos, a coqueluche de todas as grandes feiras de veículos do planeta foram os carros elétricos. Eles são muito mais eficientes que os carros movidos a combustível fóssil, que ao fazerem a combustão têm enormes perdas de energia. O carro elétrico não: é como injeção na veia. A eletricidade vai direto na roda, o que o torna muito mais eficiente e econômico. Um carro comum gasta cerca de um barril de petróleo para ir de Foz do Iguaçu a Brasília, por exemplo. Se esse mesmo barril de petróleo for usado para carregar a bateria de um veículo elétrico, esse carro sai de Foz do Iguaçu e vai até Manaus. É mais do que o dobro a eficiência do carro elétrico. Então, por que ainda não são fabricados carros elétricos? É preciso lembrar que o petróleo começou a ficar caro nos últimos 30 anos. Em 1974, o barril de petróleo custava 2 dólares! Hoje está em 130, 140 dólares. O petróleo era uma energia abundante e baratíssima. Então foi desenvolvida toda a tecnologia em cima de carros à combustão de gasolina, óleo diesel. Essa modificação para o carro elétrico é uma revolução. Imagine construir um carro que não tem mais motor, que não tem mais caixa, sem cano de escape e sem mais um monte daqueles componentes do carro tradicional. Todas as indústrias que, durante anos, fabricaram esses componentes vão ficar obsoletas. Tenho certeza de que se não forem os nossos filhos, serão os nossos netos que terão carro elétrico. É o carro do futuro.

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Entrevista está publicada na edição nº 8 (abril/2011) da revista Amigos da Natureza.

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