quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Entrevista exclusiva: Greenpeace


Começou a circular esta semana a quarta edição da Revista Amigos da Natureza (www.editoraamigosdanatureza.com.br), que traz como matéria de capa uma reportagem sobre orquídeas. Outros assuntos de destaque são obesidade infantil, criação e comércio de animais silvestres, entre outros assuntos.

Muito interessante também a entrevista com Pedro Torres (foto), coordenador nacional de voluntários do Greenpeace. Ela segue na íntegra abaixo:

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Greenpeace: em busca de um mundo mais justo, pacífico e verde

Por CRISTIANO VITECK

Amado e odiado com a mesma intensidade pelos seus defensores e opositores, o Greenpeace é hoje uma das maiores organizações não-governamentais do mundo voltadas à preservação do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável. Nascida em 1971, no Canadá, atualmente a entidade está sediada na Holanda, mas conta com escritórios em todos os cinco continentes do planeta.

No Brasil, o Greenpeace (www.greenpeace.org.br) existe oficialmente desde 1992, quando nasceu no rastro das discussões e polêmicas geradas a partir da Eco-92, evento que reuniu no Rio de Janeiro representantes de cerca de 180 países para discutir problemas e soluções ligadas ao meio ambiente em todo o mundo. Hoje, 18 anos depois, o Greenpeace Brasil tem em torno de 300 voluntários em oito capitais do país (São Paulo, Manaus, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre) e conta com escritórios em São Paulo, Manaus e Brasília.

Pedro Torres, coordenador nacional de voluntários do Greenpeace Brasil, falou com exclusividade para a revista Amigos da Natureza sobre o modo como a ONG opera e suas principais campanhas no país.

Quais os principais trabalhos e os métodos de ação do Greenpeace no Brasil?
O Greenpeace é uma ONG que busca a transformação social através da promoção da paz mundial e da justiça ambiental. Fazemos um trabalho de identificação dos problemas e, a partir desses cenários, tentamos reverter os quadros que consideramos negativos. Um bom exemplo é a vitória recente em relação ao arroz transgênico da Bayer. Ficamos contentes em saber que no final de junho a Bayer retirou de votação na CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) a proposta de entrada do arroz transgênico no Brasil. A soja, o algodão e o milho já foram liberados. Agora, devido em parte às nossas ações, evitamos que o arroz, que faz parte do dia-a-dia da alimentação do brasileiro, fosse incluído nessa lista.

Qual tem sido a participação e a posição do Greenpeace no debate sobre a mudança do Código Florestal?
A participação tem sido total. Somos contra as alterações. Achamos que é um retrocesso neste momento em que estamos conseguindo fazer que o nosso código seja cumprido. Temos é que aumentar a fiscalização e não aumentar o desmatamento. O novo código que está sendo proposto abre espaço para que o desmatamento avance na Amazônia e em todas as regiões do Brasil. O Greenpeace é contra essa mudança que está sendo discutida por uma comissão de deputados lotada de ruralistas, em que os interesses econômicos do agronegócio falam mais alto, a favor da expansão predatória das fronteiras agrícolas. A gente não consegue entender como o deputado federal Aldo Rebelo, relator do projeto de lei (cujo texto foi aprovado no dia 9 de julho, mas não tem previsão de ser votado pelos deputados federais), um político tão coerente, está junto com os ruralistas, que estão claramente tomando uma posição favorável ao agronegócio. Acreditamos que mudanças importantes como essa, devem ser amplamente discutidas com a sociedade. A maneira como está sendo feita é uma forma apressada.

Mas, o Greenpeace é a favor de que se façam algumas alterações no Código Florestal ou é totalmente contra?
O Greenpeace é a favor de um Código Florestal que possibilite o desmatamento zero. Qualquer alteração que for feita tem que ser para possibilitar uma maior fiscalização. A cada 18 segundos uma área de floresta equivalente a um campo de futebol é desmatada na Amazônia. Não dá para permitir que aconteça com a Amazônia o que aconteceu com a Mata Atlântica, que foi devastada. É essencial o desmatamento zero e que a gente tenha um aparato estatal de fiscalização para evitar que quem promove o desmatamento ilegal lucre tirando nossas riquezas naturais e gerando desigualdades sociais.

Quais são os principais focos de ação do Greenpeace na Amazônia?
A exploração da madeira na Amazônia era um problema, depois com a expansão do agronegócio a soja virou um problema. Hoje em dia, o principal problema da floresta amazônica é a pecuária. Os grandes fazendeiros descobriram que é muito mais fácil derrubar a floresta e colocar o gado do que derrubar a floresta e ter que cuidar de soja, por exemplo. Ano passado fizemos uma campanha muito forte chamada “A farra do boi na Amazônia”, que chamava a atenção para este problema. Conseguimos uma vitória importante. Conversamos com grandes frigoríficos, mostramos o problema e eles se comprometeram a não mais comprar carne proveniente da área desmatada ilegalmente da Amazônia. Hoje, o Wallmart, o Pão de Açúcar e o Carrefour não compram carne proveniente de desmatamento na Amazônia. Queremos que isso seja expandido também para outros supermercados.

Por que a resistência das indústrias brasileiras em incluir nos rótulos a informação de que certo produto pode conter elementos transgênicos?
É um debate que não está popularizado. Existe um certo temor dos fabricantes de que, se o consumidor souber que existe algo transgênico, ele abandone aquele produto. Hoje existe a obrigação das indústrias rotularem os produtos que tenham elementos transgênicos, mas, praticamente, só as empresas de óleo de soja fazem isso. Muitas vezes o consumidor não sabe que aquele “T” significa transgênico. Fizemos uma campanha sobre transgênicos e muitas pessoas achavam que aquele “T” na embalagem indicava que fosse uma coisa positiva, que indicava que aquele produto estava enriquecido com alguma vitamina, algum suplemento. Olha só que confusão... O consumidor tem o direito de saber se um produto é ou não transgênico. Ainda não há uma base científica sobre os efeitos que os transgênicos podem ter para a saúde e para a própria agricultura.

Recentemente, o Greenpeace se mobilizou contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Por que no Brasil existe tanta resistência contra fontes de energias alternativas?
Estados Unidos e China, que são dois dos países que mais poluem no mundo, estão investindo pesadamente nas energias renováveis. A China tem um parque eólico gigantesco, a exemplo de outros países da Europa. Há uma falta de vontade política, falta de interesse em apoiar a pesquisa. Mas estamos vencendo essas barreiras, vendo crescer o interesse governamental no Brasil para expandir os parques eólicos. O Greenpeace tem parte nesse processo. Mas, sem a ajuda do governo, não vamos conseguir desenvolver isso. É preciso que ele financie pesquisas e projetos para parques eólicos, de energia solar. A usina hidrelétrica de Belo Monte, por exemplo, vai ser a terceira maior hidrelétrica do mundo e não resolverá nosso problema energético. É preciso retirar 23 mil índios do meio do coração da floresta amazônica para produzir energia? O Brasil deve investir em energia limpa, renovável.

Muitas acusações se fazem contra a interferência estrangeira no Brasil através de ONGs. O Greenpeace é uma ONG internacional. Quem determina a pauta de ações do Greenpeace no Brasil?
O Greenpeace é uma ONG internacional, mas o Greenpeace Brasil tem autonomia para decidir os rumos das campanhas no país. Ninguém entende mais a realidade local do que os próprios brasileiros. É claro que uma campanha do Greenpeace Brasil não vai ser igual a do Greenpeace África, do Greenpeace Israel, do Greenpeace China. São problemas diferentes. O deputado Aldo Rebelo faz essas críticas. Se formos buscar na internet de onde vieram as doações para a campanha política dele, vamos verificar que existem multinacionais. Então, ele falar que a gente opera através de interferência estrangeira é engraçado. Nós somos uma ONG com sede na Holanda, mas com escritórios ao redor do mundo que funcionam de maneira autônoma. A gente faz prestação de contas públicas na internet. Não aceitamos dinheiro de partidos políticos, de pessoas jurídicas, de governo, diferente do que acontece com outras ONGs.

O trabalho duvidoso de algumas ONGs não “respinga” na percepção que algumas pessoas podem vir a ter do Greenpeace?
Respinga 100% pela série de escândalos que aconteceram principalmente nos últimos 10 anos. Isso gera desconfiança, por isso temos que manter a nossa isenção. É importante que as pessoas saibam que no Greenpeace não tem dinheiro sujo, que o nosso dinheiro vem só de colaboradores, de pessoas físicas. Não tem dinheiro de empresas privadas e nem de governo. A partir do momento que a gente aceita dinheiro de uma empresa privada não vamos mais ter a nossa autonomia.

O que mudou na população brasileira em relação às discussões ambientais desde que o Greenpeace começou a atuar no país, em 1992?
Hoje qualquer empresa está buscando se tornar uma empresa “verde”. Isso é uma mudança positiva que ocorreu desde a Eco 92. A partir dali a temática ambiental entrou na pauta. Nas escolas a gente vê a criançada muito mais receptiva a trabalhar a questão ambiental. Desde o primário os professores já estão trabalhando questões como o desperdício, o uso racional da água. Essas crianças já têm uma percepção diferente de outras gerações. O debate está em jogo. A gente não quer maquiagem verde. Tem que saber separar o quê e quem é realmente sustentável, quem é ambientalmente correto e, o mais importante, é colocar a discussão na rua. Não somos ingênuos de achar que todo mundo está discutindo a questão ambiental. Ainda temos muito que conquistar, mas o caminho está sendo trilhado. Nesse quase 20 anos no Brasil o Greenpeace acumulou vitórias, junto com outras ONGs e entidades, em busca de um mundo mais justo, pacífico e verde.

4 comentários:

  1. Greenpeace esta ajudando o Brasil a evoluir de uma forma Melhor!
    Mais infelizmente a Homens no poder q nao querem essa "Evolução Verde" no brasil.

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  2. Parabéns pelo blog!
    Parabéns também ao Greenpeace, por ter o Pedro Torres em seu time, incentivando o engajamento de todos, por um mundo melhor!
    Abraços

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  3. O Greenpace busca uma estratégia de evanço para preservar o nosso bioma .Desta forma teremos um mundo mas feliz e justo... Hillo Santana ativista Greenpeace

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  4. Entrevista objetiva e esclarecedora! Tira muitas dúvidas sobre a organização, mas ainda fica um gostinho de 'quero mais'...
    Parabéns pelo blog, e, Parabéns Pedro Torres! ;)

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